N(A) ESCOLA DA VIDA | Brincadeiras (des)formatadas

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Lá fora está calor. Demasiado. O conforto entre quatro paredes, algumas janelas (com estores corridos) e uma porta fechada convidam a não colocar os pés fora da zona de conforto.
— Queres ver um filme?
— Não me apetece muito… Mas tens algum em mente?
— Tenho aqui muitos, é só escolher.
— Posso sugerir uma coisa diferente…
— Diz.
— Arranja duas folhas. Vamos jogar à batalha naval!
— A quê?!
— Nunca jogaste?
— Não…
— Então vou ensinar-te!
Eis que traçaram, lada a lado, dois quadrados de dez linhas por dez colunas: de A a J, na horizontal; de 1 a 10, na vertical. Depois cada um escondeu, no da esquerda, um porta-aviões, um navio de quatro canos, dois navios de três canos, três navios de dois canos e quatro submarinos. Começou, então, o bombardeio. Alternadamente, disparavam três tiros com o objetivo de alvejar algum elemento da frota inimiga até a levar ao fundo. Cerca de meia hora depois praticamente ambas haviam sido descobertas e naufragavam no mar de uma tarde em que, lá fora, estava calor. Demasiado.
Durante aquele tempo fugaz recuaram cerca de duas décadas: as que os separam de uma infância que era palco de brincadeiras ímpares. E não se fala apenas dos objetos em si, mas de um conjunto de estratégias e de habilidades que funcionavam como um cadinho de experiências em ebulição: o âmago da criatividade e da inovação (numa incessante procura de novas respostas), o fermento capaz de levedar a imaginação que era convocada para a resolução de dilemas e para o estreitamento e consolidação de contactos sociais. Hoje, por vezes, parecem mais as redes do que os contactos. Mas contactos a sério: aqueles que implicam sorrir nos olhos, olhar os gestos e abraçar; aqueles que requerem Ser, Conhecer, Fazer e Conviver com os Outros, numa apologia dos quatro Pilares da Educação. Hoje há redes (sociais) capazes de nos tornar anti(sociais), mas apenas fazem de nós reféns no dia em que perdermos a capacidade de analisar criticamente e fazer opções conscientes e responsáveis.
Diz-se que é para lá da zona de conforto (das quatro paredes, de algumas janelas e de uma porta fechada) que, tendencialmente, as sementes mais raras vão germinando e convertendo-se em frutos sumarentos. Mas estar entre quatro paredes e reinventar estratégias é também uma forma de sair da zona de conforto e da formatação típica: Times New Roman, 12. Há mais letras e tamanhos: outras formas de ler e escrever o mundo. Afinal, “um barco no porto está seguro, mas não é para isso que foi feito”.

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Alguns anos depois…
— Lembras-te daquela tarde de calor em que escolheste um filme? Grande tarde…
— Escolhi? Qual foi?
— Não te lembras?
— Não… Mas lembro-me que me ensinaste a jogar à batalha naval.

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Embora os documentos legais a identifiquem como natural de Pombal, foi em Coimbra que respirou autonomamente pela primeira vez. Assim, desde o penúltimo dia de dezembro de 1982 assumiu um compromisso com a vida: aprender a ser. Quase duas décadas depois regressou à cidade do Fado e do Mondego para dar continuidade à sua formação académica na área de Ciências da Educação. Aprofundaria aqui o significado de outro pilar: aprender a conhecer. Começou a aprender a fazer em 2007, quando a socialização profissional lhe abriu as portas no ramo da Educação e Formação de Adultos, no qual tem trabalhado e realizado investigação. Gosta de “sair por aí” e observar e fotografar todas as esquinas. Reserva ainda tempo para a escrita, sentindo-a como um elixir lhe permite (re)descobrir uma energia anímica e uma força motriz nos cantos mais inóspitos aos quais muitos olhares não associariam qualquer pulsar. É, neste campo, autora de obras literárias individuais e de vários textos e poemas publicados em coletâneas. E é assim que lê, sente e inala o mundo, num permanente aprender a viver com os outros.