N(A) ESCOLA DA VIDA | Os livros também estão lá fora

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Há cerca de um quarteirão de anos aprendia, sentada nas cadeiras da escola, o que era uma picota, um arado, para que serviam os moinhos (a água e a vento) e como funcionavam, o que eram as mós dos lagares, o que era uma exsurgência e como se organizavam as localidades, as freguesias, os concelhos e os distritos. Típica educação bancária – se convocar os princípios do pensamento de Paulo Freire. Sentada, assumindo-me como um recetáculo de informação. Como uma esponja seca que absorve (todos) os conhecimentos. Adorava o cheiro dos livros ainda sem vincos nem jeitos forçados pelo uso. Folhear páginas novas e limpas. E adorava os cadernos; sobretudo os de linhas, embora com os anos tenha vindo a aprender a gostar mais de criar os meus textos em cadernos quadriculados (ainda gosto de escrever “à mão” e de continuar a sentir o cheiro do papel).
Sim, os livros ensinam. Fazem viajar por terras longínquas sem sair do conforto de um sofá, junto a uma lareira, enquanto lá fora o frio e a chuva são reis. Têm a capacidade de transportar os curiosos por tempos que já não fazem parte deste tempo, mas que são parte da nossa História e das nossas raízes. Trazem-nos as contas, as fórmulas, os gráficos e as funções; mas é sobretudo na vida que vamos aprendendo que é em função do que se observa, sente, toca e experiencia que se adquirem e desenvolvem valores, competências e ferramentas que nenhum livro ensina. Apresentam-nos experiências (regras, passos, sequências e procedimentos) e antecipam algumas conclusões (muitos até se fazem acompanhar de soluções). Ensinam-nos a simular vulcões em contexto de sala. Explicam como se equilibram reações químicas endotérmicas e exotérmicas e os passos a percorrer milimetricamente para se conseguirem observar células do epitélio bucal ao microscópio ótico composto. E explicam-nos como está organizado o nosso País, o que é um distrito, um concelho e uma freguesia. Quais as particularidades de alguns castelos. E o que é (e para que serve) um aqueduto.
Porém, já há cerca de um quarteirão de anos, sentia-me insatisfeita. Queria viajar efetivamente (sem ser apenas através dos livros). Observar. Antecipar as minhas conclusões em função do que via. Escrever as minhas composições (sobre o que vira e sentira) assim que chegasse a casa. Conhecer a minha região: sair da minha tenra zona de conforto (naquela altura, a casa) e saber até onde ia Pombal. Queria ver uma picota. E uma exsurgência. E uma capelinha resguardada pela pedra, no cimo da Serra de Sicó. Foi assim que os fins-de-semana começaram a ser diferentes. Sempre que o tempo permitia, saía-se a pé: para observar a Lua Cheia a nascer, os eclipses lunares ou o Sol a colocar os dedos sobre a Serra como quem quer pular um muro para o outro lado. Conheci a nascente onde o desgaste das pedras lisas denunciava o uso repetido aquando da lavagem da roupa. Levaram-se a “meia dúzia” de quilómetros para, na freguesia vizinha da Redinha, ver a nascente dos Olhos d’Água – um exemplo de exsurgência. E as picotas e os moinhos que ainda iam tendo alguma vida, embora cada vez mais residual. Foi também nessa altura que fiz questão de conhecer, uma a uma, todas as freguesias do concelho de Pombal: as suas fronteiras, a especificidade das paisagens e das arquiteturas. E aprendi que os castelos nem sempre estão num morro: também existem no meio de um rio, onde apenas se chega num barco rústico; foi por esta via que atravessei o Tejo para chegar ao Castelo de Almourol. Aprendi que as campainhas não são apenas aquele objeto ao qual se toca quando se chega a casa do vizinho (hoje, telefona-se através do telemóvel para dizer “cheguei, estou à porta”), mas que também nascem, atrevidas, pelos campos, decorando-os com um amarelo terapêutico.
Continuo a acreditar que fora dos livros se aprende tanto ou mais do que entre quatro paredes amorfas e inodoras. Que as recriações (das invasões francesas, em pleno coração da Redinha, junto ao Rio Anços, ou da desfolhada, na zona histórica de Pombal, entre muitos outros exemplos que, felizmente, se multiplicam nas terras das nossas gentes transformando-se em verdadeiras experiências de aprendizagem) nos sensibilizam e despertam. E, assim, fazem também de nós um livro de saberes.
Sim, passado aquele quarteirão de anos, continuo a acreditar que os livros estão lá fora. Fora das estantes e do conforto do sofá junto à lareira enquanto na rua o frio e a chuva são reis. E que cada um de nós pode ser, mais do que uma História de Vida, um Livro.
Isabel Moio

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Embora os documentos legais a identifiquem como natural de Pombal, foi em Coimbra que respirou autonomamente pela primeira vez. Assim, desde o penúltimo dia de dezembro de 1982 assumiu um compromisso com a vida: aprender a ser. Quase duas décadas depois regressou à cidade do Fado e do Mondego para dar continuidade à sua formação académica na área de Ciências da Educação. Aprofundaria aqui o significado de outro pilar: aprender a conhecer. Começou a aprender a fazer em 2007, quando a socialização profissional lhe abriu as portas no ramo da Educação e Formação de Adultos. Desde 2008 encontra-se também ligada à investigação científica na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra, instituição que acolhe o seu projeto de Doutoramento e onde tem desempenhado funções como Assistente Convidada. Gosta de “sair por aí” e observar e fotografar todas as esquinas. Reserva ainda tempo para a escrita, sentindo-a como um elixir lhe permite (re)descobrir uma energia anímica e uma força motriz nos cantos mais inóspitos aos quais muitos olhares não associariam qualquer pulsar. É, neste campo, autora de obras literárias individuais e de vários textos e poemas publicados em coletâneas. E é assim que lê, sente e inala o mundo, num permanente aprender a viver com os outros.