O professor de Matemática que dá vida a ‘quebra-cabeças’ em madeira

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É a partir de Casal da Ordem, na freguesia de Vermoil, que Maurício Bexiga dá cor às telas e forma às peças em madeira que protagonizam os jogos didácticos que despertam o entusiasmo de pequenos e graúdos. Na família, não é o único artista: a mulher faz casinhas em pedra e a filha [Sweet Friends] cria miniaturas de colecção, procuradas sobretudo por clientes nos Estados Unidos.

No ateliê instalado recentemente no exterior da vivenda, construído para ser o refúgio de um hobby com raízes na juventude, o antigo professor de Matemática, de 68 anos, percebeu cedo que as lides artísticas haveriam de ter um espaço reservado na sua vida. A “propensão para as artes” levou mesmo os professores a sugerir aos pais que o motivassem a seguir esse caminho, possibilidade essa que encontrou pouca receptividade em casa. Sem o apoio dos pais, receosos da falta de saídas profissionais que o filho viesse a encontrar, Maurício Bexiga enveredou pela Matemática na hora de desenhar o futuro profissional.
E foi à boleia do curso superior que veio estudar para Lisboa, deixando para trás Abrantes, de onde é natural. Neste período, mantém acesa a paixão pela pintura, aperfeiçoando as aptidões naturais, mas é também na capital que conhece a futura esposa (curiosamente, também natural de Abrantes).
Maurício Bexiga regressa à terra natal em 1983, para aí dar início à actividade como professor, sempre com o bichinho da pintura a falar mais alto nas horas vagas. Fez questão de aperfeiçoar as técnicas e, para isso, chegou mesmo a frequentar o ateliê do pintor italiano Massimo Esposito.
Em 2012, volta a fazer as malas e o destino trá-lo até Casal da Ordem, a pacata aldeia da freguesia de Vermoil, motivado pelo facto de a filha aí viver desde que casou. Constrói casa, repartindo o tempo, inicialmente, entre Abrantes e a nova morada. Já reformado, é ali que o casal passa agora a maior parte do tempo.

A descoberta da madeira
Mas neste caminho dedicado à pintura onde tomam parte algumas exposições individuais e colectivas, Maurício Bexiga descobriu também vocação para trabalhar a madeira (com espaço também para a pirogravura), muito por ‘culpa’ da esposa. Fernanda faz casinhas em pedra, em miniatura, e para a acompanhar nas feiras o marido resolveu começar a fazer “umas coisas em madeira”, como nos conta. À Matemática de formação juntou a madeira, criando brinquedos “que os outros não fazem”. Do universo criativo e artístico de Maurício Bexiga nascem peças que aliam a vertente lúdica à pedagógica, estimulando o raciocínio, a concentração ou a memória. Um papel cumprido com exímia pelos “quebra-cabeças” (os mais vendidos) ou pelos jogos de tabuleiro como o do Galo ou o do Resta Um, entre outros a que dá vida. São “brinquedos do antigamente”, como lhes chama o artesão, e que valorizam o passado e a arte. A estes juntam-se os que assumem um cunho mais utilitário, como a galinha para guardar os ovos.
À expressão artística do autor associa-se também a preocupação com a sustentabilidade. Maurício Bexiga não desperdiça nenhum pedaço de madeira e dá prioridade a materiais recicláveis.

“Nós, os artistas ou artesãos, gostamos do que fazemos, mas também gostamos de vender as peças”

Por enquanto, o antigo professor não tem peças suficientes em stock que lhe permitam expor sozinho nas feiras, pelo que faz dupla com a esposa. A mudança para a freguesia de Vermoil tem-lhe aberto as portas dos certames de artesanato na região, com destaque para os do concelho de Pombal. Em breve, vamos poder vê-lo na Feirinha do Cardal, a realizar nos dias 1 e 2 de Abril, e na Feira dos 7, em Maio, no Carriço.

“Sinto necessidade de vir ao ateliê quase todos os dias, pelo prazer que me dá”

Para além destes eventos, Maurício Bexiga dá a conhecer o trabalho através da página de facebook e do site – ainda que reconheça que precisa de lhe imprimir mais dinâmica -, sempre com o lema “Ao oferecer presentes, ofereça arte”. “Nós, os artistas ou artesãos, gostamos do que fazemos, mas também gostamos de vender as peças, porque psicologicamente é importante”, sublinha, quando questionado sobre o reconhecimento destes ofícios.
Mas ainda que muito haja a fazer neste campo, não esmorece e garante que vai continuar a dedicar-se à paixão que o move desde sempre. “Sinto necessidade de vir ao ateliê quase todos os dias, pelo prazer que me dá”.
Desde há dois anos que é sócio da Associação de Artesãos de Pombal (ADAP), a quem cabe a organização da Feirinha do Cardal.

*Notícia publicada na edição impressa de 6 de Abril