JAIME PORTELA: ““Acredito que teremos a confiança das pessoas”

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Aos 62 anos, o professor Jaime Portela candidata-se pela Coligação Democrática Unitária (CDU) à presidência da Câmara Municipal de Pombal. Em entrevista ao nosso jornal afirma que o “objectivo é ganhar”, mas reconhece que “a CDU não tem grande poder” no concelho. Mesmo assim, acredita que terá a confiança das pessoas e garante que vai “lutar por um concelho melhor”. Para isso, pretende apostar na atracção de empresas, criação de emprego e na formação.

Pombal Jornal (PJ) – É independente, mas candidata-se com o apoio da CDU…
Jaime Portela (JP) – Sou independente, porque não sou militante do PCP ou de qualquer componente da CDU, mas ninguém é completamente independente. Neste caso é uma coligação que se desfaz depois da eleição. Na minha ideia, a sociedade deve ser transformada e qualquer partido que constitui a CDU, nomeadamente o PCP, tem uma intervenção clara e inequívoca na sociedade, nomeadamente na defesa dos mais desprotegidos.

PJ – O que é que a sua candidatura traz de novo?
JP – A minha candidatura vai trazer algo essencial. As outras candidaturas até podem apresentar projectos brutais e inovadores. Por exemplo, o PSD, que é a força que está neste momento na Câmara, pode até dizer que vai inovar, mas terá sempre uma ligação àquilo que foi feito. E o PSD não tem feito uma política de ligação aos cidadãos. Eu serei um paladim dessa situação, de fazer a ligação aos cidadãos. Essa é que é a minha grande diferença. Vou propor que seja criada uma Provedoria do Munícipe, que essencialmente favoreça aqueles que estão mais afastados da própria Câmara e dos Paços do Concelho.

PJ – E políticas concretas?
JP – Obviamente que vamos ter políticas concretas. Mas as propostas que temos não podem ser desfasadas do sentimento das populações. Não podemos achar que só por ter maioria, como é o caso do poder instituído na Câmara de Pombal, não precisamos de ouvir as pessoas.

PJ – Acha que o actual executivo não ouve os pombalenses?
JP – Essa é a grande lacuna. Por muito que outra candidatura venha dizer o contrário, o PSD tem responsabilidades muito fortes na condução das políticas em Pombal, políticas essas de não olhar para os anseios das populações. A Câmara de Pombal não está interessada em que haja discussão das coisas. Ora se não há abertura para discussão, como é que há uma ligação da Câmara com os munícipes.

PJ – No caso de ganhar a Câmara de Pombal, o que considera urgente fazer?
JP – Urgente é acabar com uma Câmara que está acima dos cidadãos. A governação autárquica tem de auscultar a vontade das pessoas. Nós temos um projecto, não andamos ao sabor dos cataventos. Há partidos que defendem que Pombal tem de ser colocado no Centro, mas no centro de quê? Pombal tem a A1, o IC2, o IC8, a linha do Norte, a linha do Oeste, está junto ao Atlântico, tem praias… Pombal está centrado, agora é preciso dinamismo para aproveitar essa centralidade.

PJ – Acha que não se tem conseguido tirar proveito da localização e acessibilidades de Pombal?
JP – No nosso ponto de vista, a Câmara de Pombal tem criado hostilização. E isso é visível. Para já, o concelho tem perdido população. Esse é um factor que indicia esse desfasamento.

PJ – O que pode ser feito para contrariar essa tendência de perda população?
JP – A atracção de investimento, empresas e trabalhadores, dando-lhes formação e tentando que as escolas, nomeadamente a ETAP, sirvam a mão-de-obra especializada das empresas. É preciso também canalizar a formação para os sectores com maior actividade no concelho e atrair mais empresas. Por exemplo, Pombal tem bastante floresta, porque não dinamizar cursos ligados ao sector florestal.

PJ – Se fosse eleito, de que forma procuraria atrair mais empresas e investimento para o concelho?
JP – Basta a Câmara ser muito directa com a promoção de urbanizações e o plano de desenvolvimento apoie a criação do espaço industrial, que não seja à toa. Fomentar que os impostos não doem tanto aos empresários, que se criem locais para fixar indústrias, mas com critério e responsabilidade mútua. Criar gabinetes e canais que promovam um plano de desenvolvimento no sentido de fixar emprego e dar mais opções de mercado de trabalho, mas não muito flauteado. Daí a necessidade de adequar a formação às necessidades das empresas.

PJ – É também por isso que defende um pólo do IPL em Pombal?
JP – A importância de um pólo do IPL não é só para engrandecer e trazer mais jovens, mas sobretudo para a necessidade de encontrar o enquadramento essencial ao desenvolvimento do concelho, por exemplo ao nível da floresta, como já referi, ou da indústria química ou outra. Mas não é só para dizer que Pombal tem um pólo do IPL que traz mais gente…

PJ – Mas um pólo do IPL não seria importante para atrair e fixar jovens?
JP – Também. Jovens e trabalhadores com formação. E isso cria empatia com o mercado de trabalho, contribuindo para os trabalhadores ganharem mais. Quanto mais formação tiverem os trabalhadores, mais as empresas rendem, mais atractiva é a zona e melhor vivem as pessoas. Vejam por exemplo a Zona Industrial de Ansião…

PJ – Na sua opinião, o concelho ganhou ou perdeu protagonismo na região em termos económicos e de atracção de empresas?
JP – Face à sua implantação geográfica, Pombal tinha de ganhar sempre. Pombal está no centro do país com acesso à A1, IC2, IC8, linha do Norte e linha do Oeste. Agora falta dinamização.

PJ – De que forma deve ser dinamizado o concelho?
JP – Na criação de empresas e emprego estável, onde as pessoas ganhem mais. Desenvolver e disseminar algumas empresas para algumas zonas afastadas, como por exemplo para a zona Oeste.

PJ – A Oeste já há a Zona Industrial da Guia…
JP – Esperemos que faça esse trabalho e apoie a evolução dessa parte do concelho. Mas uma zona industrial não se pode expandir só com a criação de uma empresa, como está a acontecer na Guia com a Lusiaves. É importante que se integrem mais empresas e criem mais postos de trabalho, mas não é criar postos de trabalho que pagam 25 tostões a cada trabalhador.

PJ – Se a CDU estivesse no poder, o que faria em relação à criação de uma unidade industrial da Lusiaves na Zona Industrial da Guia?
JP – Achamos que é importante a sua fixação, mas a Lusiaves tem de dar outras contrapartidas. Por exemplo, pode e deve integrar outras valências, até empresariais, e não se limitar a fazer uma política de baixos salários, porque deste modo as pessoas não se fixam.
De que vale ter algum desenvolvimento, se depois temos problemas na habitação, onde a Câmara não faz nada. Existem casas devolutas, rendas caríssimas e gente a viver atafulhada em quartos, porque não têm dinheiro para pagar mais. Quando outra região lhes oferecer mais, por pouco que seja, essas pessoas vão embora, porque aqui vivem em condições degradantes.

PJ – Como é que pode ser resolvido o problema da habitação?
JP – No centro histórico da cidade de Pombal há imensos prédios devolutos, muitos deles a degradarem-se e a caírem. Tem de haver parcerias com os pequenos proprietários e senhorios de forma a arranjar soluções que promovam um mercado de habitação justo. Isso também ajuda a segurar população. As rendas são exorbitantes e os ordenados são baixos, dentro da lei, mas baixos. Logo, alguma coisa tem de pagar, é o fecho disto e daquilo, é o dinamismo comercial.

PJ – Na sua opinião, como é que se resolve essa problemática?
JP – Criando emprego em que as pessoas têm mais competências e qualificações e em que ganham mais. Ganhando mais, podem despender mais no consumo de diversos bens e contribuir para o comércio alargar o volume de vendas, tornando-o mais atractivo e quebrando a tentação dos consumidores irem às grandes superfícies, com as quais os pequenos comerciantes não têm hipótese de competir. Mas também precisamos de gente nova, inclusivamente de outras culturas, que se integrem e rejuvenesçam o tecido da população, que está a envelhecer.

PJ – De que forma pretende atrair jovens?
JP – Através da formação e do emprego. Não havendo formação e, sobretudo, não havendo emprego, os jovens fogem para os grandes centros urbanos. Portanto, é necessário criar emprego qualificado com salários mais atractivos, reequilibrar o parque habitacional, de modo a não haver grandes especulações, fomentar parcerias público-privadas que possibilitem os proprietários reabilitar os seus imóveis, colocando-os no mercado habitacional. E estas medidas não são apenas para Pombal, mas também para as freguesias mais populosas.

PJ – A aposta na formação, emprego e habitação são as prioridades da CDU para o concelho?
JP – Estas são algumas das prioridades, não são todas. Há que fixar população, dar formação e trabalho, mas também é preciso dar dignidade às pessoas. A grande inovação que Pombal precisa é as populações empurrarem a Câmara. Eu defendo que cada presidente de Junta deve ser um vereador da Câmara, um potencial ouvidor nas freguesias que faz a interacção entre os munícipes e a Câmara.

cada presidente de Junta deve ser um vereador da Câmara

PJ – E não é isso que acontece?
JP – Se calhar até é na maior parte das freguesias. Mas o problema é o monolitismo. O concelho de Pombal está sem ideias e vive muito desse monolitismo. Não há a contrariedade do poder, falta um poder mais polvilhado.

PJ – Acha que não há debate de ideias?
JP – Esse é um problema fundamental, falta debater de ideias.

PJ – Como avalia a evolução do concelho nas últimas décadas e, em particular, nestes quatro anos?
JP – O concelho não só não progrediu, como está a regredir. É preciso apostar no turismo e na cultura. Não há uma política de incentivo. Pombal está a perder população e nota-se que as pessoas estão descontentes.

PJ – Mas os últimos actos eleitorais mostram o contrário, porque os munícipes continuam a eleger a mesma força política…
JP – Esse é que é o problema. As pessoas não estão contentes, mas continuam a votar no mesmo. A culpa é deste monolitismo e deste compadrio político, ou seja, há muitas pessoas, que por pertencerem a determinado partido, têm a sua parte no comedouro municipal. Basta ver o encostamento de alguns. E quem não é por mim, é contra mim. Não há discussão de ideias em Pombal, a Câmara faz o que quer e as pessoas continuam a votar porque é do partido A ou B. Seria muito bom começar a haver outras forças políticas representadas na Câmara e acho que as nossas propostas são muito estimulantes.

há muitas pessoas, que por pertencerem a determinado partido, têm a sua parte no comedouro municipal

PJ – A representação da CDU tem feito falta em Pombal?
JP – A CDU é uma pequena força em Pombal, mas tem apresentado propostas. Por isso, acho que a CDU tem de ser uma força presente nos órgãos autárquicos de Pombal, pelo menos da Câmara e Assembleia Municipal, porque coloca em debate os problemas da população. Nestes últimos quatro anos não teve representada na Assembleia Municipal e basta olhar para as propostas que foram apresentadas entre 2013 e 2017 para perceber a falta da CDU. Claro que a CDU não tem voz, mas é imprescindível que surjam mais forças. Neste último mandato surgiu o movimento Pombal Humano, que deu outra dinâmica, mas é a diferença entre ter um chocolate com 80% de cacau e outro com 70% de cacau. Apenas há digladiação de poderes. Em vez de centrarem o debate em Pombal, centram nos feitos, no trabalho e na experiência de dois homens.

PJ – E o candidato Jaime Portela tem um historial de trabalho e experiência que os munícipes possam avaliar?
JP – Não tenho nenhuma experiência autárquica, mas tenho vontade de pugnar para que o concelho avance e procurarei pôr Pombal sempre à frente dos meus interesses. Não basta conhecer os dossiers ou ter experiência no poder central. Eu sou conhecedor da realidade do território e tenho a minha visão centrada na experiência do partido e a CDU tem muita experiência ao nível das autarquias locais.

PJ – Ao longo deste mandato a oposição tem feito várias críticas à gestão e prioridades do executivo. Que comentários faz à actuação da oposição?
JP – Na Câmara estão representadas três forças políticas, mas não há oposição. Na Assembleia Municipal há o levantamento de algum clamor, mas tem o PS e um elemento no Bloco de Esquerda, que não conseguem mudar nada. Por isso é que faz falta a CDU. A CDU é uma força que deve estar presente no concelho de Pombal, como força importante e integrante. Já tivemos um representante na Assembleia Municipal entre 2013 e 2017, que apresentou algumas moções.

Na Câmara estão representadas três forças políticas, mas não há oposição

PJ – Recuperar o representante na Assembleia Municipal já seria uma vitória?
JP – Sem dúvida nenhuma que seria uma vitória. Meter alguém na Assembleia Municipal ou, nem que seja, nalguma junta de freguesia é uma vitória. É ter uma voz ali, é ter alguém, é um ponto fulcral para que as ideias possam chegar junto do poder. Isso é fundamental.
Com certeza que ter alguém na Assembleia Municipal seria extremamente importante e Jorge Neves é uma pessoa com experiência, que já foi deputado entre 2013 e 2017. Mas se formos mais, melhor ainda.

PJ – E o que seria um bom resultado para a CDU nestas Autárquicas?
JP – Obviamente que um bom resultado seria ganhar. E o meu objectivo é ganhar, não podia ser outro. Mas eu não sou utópico, tenho consciência que a CDU não tem grande poder em Pombal. Estamos em pleno século XXI e o PCP ainda é visto como um bicho papão, ainda há muito preconceito em relação à CDU e, sobretudo, em relação ao PCP. As coisas têm de mudar e, para isso, a população tem de ser actuante. Acredito que há-de vir o dia em que as pessoas nos darão a sua confiança e espero que comece já nestas eleições. Vamos lutar por um concelho melhor, mas precisamos da confiança das pessoas. E eu acredito que teremos a confiança das pessoas.

Estamos em pleno século XXI e o PCP ainda é visto como um bicho papão

PJ – Como vai desenvolver a sua campanha eleitoral? Pretende apostar nos meios digitais?
JP – Posso dizer que não tenho grande experiência. A minha campanha será estar com as pessoas. Vou tentar ouvir as pessoas e vamos apostar em todos os meios à nossa disposição. Posso dizer que não somos muito fortes nos meios digitais, mas pedirei ajuda ao partido para que haja essa promoção. Queremos apostar no contacto com as pessoas, não para dizer votem em mim, mas para apresentar propostas nas áreas importantes para a população. Quero ouvir as pessoas para perceber os seus anseios e dificuldades. Se me derem alguma confiança, e penso que terei essa confiança, farei o meu melhor. Pombal precisa de outras forças políticas e a CDU é extremamente importante para levantar a discussão sobre temas importantes para Pombal.

 

Conhecedor da realidade do concelho

Pombalense de gema, Jaime Portela conhece bem a realidade do concelho e considera que essa é a maior e melhor experiência que pode ter um candidato à Câmara Municipal.
O professor, que nasceu há 62 anos na Travessa do Cardal, frequentou o ensino básico e secundário em Pombal, tendo aí sido eleito para a primeira Comissão de Gestão e para a primeira Associação de Estudantes, após o 25 de Abril de 1974.
Mas estas não foram as únicas estreias. Integrou igualmente a primeira equipa da secção de atletismo do Sporting Clube de Pombal, emblema que também defendeu enquanto jogador de futebol, tanto nas camadas de formação, como na equipa sénior.
Em termos associativos, esteve ainda ligado ao Rancho Típico de Pombal e ao Orfeão de Pombal, assim como à Associação Humanitária de Pombal, onde foi bombeiro voluntário durante 25 anos, passando depois ao Quadro de Honra.
Os seus estudos prosseguem na Universidade de Coimbra, onde se licenciou em História. Durante 15 anos foi bancário em Pombal, actividade que trocou pela docência. Enquanto professor, tem andado “disperso pelo país”. Actualmente, está colocado em Ourém.
Os tempos livres são divididos entre a leitura e a escrita. “Gosto muito de ler, mas neste momento leio menos do que queria”. No que toca à escrita, “faço poesia, mas não sou poeta”, afirma, adiantando que também já escreveu algumas peças de teatro.
“Sou uma pessoa terra-a-terra”, “muito directo e muito falador”, refere Jaime Portela, que nesta campanha eleitoral promete ouvir as pessoas, mas tem dificuldade em ouvir os outros. “Vou fazer esse esforço”, assegura, consciente que essa deve ser uma virtude de um autarca.

Carina Gonçalves | Jornalista

*Entrevista publicada na edição impressa de 17 de Junho