NUNO CARRASQUEIRA: “Faz falta uma voz na oposição que seja mais activa e mais participativa”

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Aos 31 anos, Nuno Carrasqueira protagoniza a primeira candidatura da Iniciativa Liberal à presidência da Câmara de Pombal. O candidato reconhece que o trabalho desenvolvido pelo PSD “não tem sido mau” e critica a oposição, que “é praticamente inexistente”. Por isso, considera que a Iniciativa Liberal (IL) “é o partido melhor posicionado para poder eleger para a Câmara Municipal”, a seguir ao PSD, “que irá ganhar”.

Pombal Jornal (PJ) – O que é que o levou a apresentar candidatura à presidência da Câmara de Pombal?
Nuno Carrasqueira (NC) – Achámos que faria sentido haver uma alternativa liberal na Câmara de Pombal. Além disso, já temos um projecto minimamente consolidado, composto por um conjunto de pessoas do concelho, que tem vontade de participar na gestão autárquica.

PJ – Fazia falta uma voz liberal nos órgãos municipais?
NC – Acho que faz falta haver uma voz liberal nos órgãos municipais e alguma voz na oposição, que seja mais activa e mais participativa, porque a oposição nos últimos anos tem sido bastante apagada.

PJ – Então dá nota negativa à oposição? O que é que a oposição devia ter feito que não fez?
NC – Acho que a oposição é praticamente inexistente. Por um lado, não consegue ser incisiva quando deve ser. E por outro lado, não consegue ser colaborante quando deve ser.
Além disso, a oposição não faz sequer um esforço para fazer cumprir o seus programas eleitorais, limita-se a votar e criticar as propostas do executivo. Não percebo como é que é possível, num mandato inteiro, tanto o PS como o movimento NMPH, não apresentarem uma única proposta, além daquela para retirar as competências do presidente de Câmara.

PJ – É nesse sentido que a presença da Iniciativa Liberal na Câmara e na Assembleia Municipal pode fazer a diferença?
NC – Sim. Seremos incisivos quando for necessário, tal como seremos capazes de elogiar e colaborar. Mesmo que não ganhemos as eleições, faremos o possível para fazer chegar aos órgãos no poder as nossas propostas para que sejam discutidas e possam ser implementadas.
Por outro lado, também pretendemos fazer o escrutínio da gestão autárquica e tentar transmitir a informação de uma forma compreensível para a maioria da população.

PJ – Aumentar a transparência na gestão municipal é uma das vossas propostas. Não há transparência actualmente?
NC – Não só acho que há transparência, como acho que ela até aumentou nos últimos anos. Prova disso é que a data e os pontos a discutir em cada reunião de Câmara já são divulgados e é transmitida uma reunião por mês. Relativamente à Assembleia Municipal, são transmitidas todas as reuniões e publicadas as deliberações. Mas era importante que a informação fosse mais simplificada e de fácil leitura para a generalidade das pessoas. Em termos de transparência, Pombal tem vindo a melhorar, mas pode aumentar passando a transmitir todas as reuniões de Câmara.

PJ – Como é que avalia o trabalho que o executivo tem feito ao longo deste mandato?
NC – De uma forma geral, o trabalho não tem sido mau. Mas é preciso olhar para os resultados para perceber o que não está a correr bem e onde é preciso melhorar. E efectivamente há coisas que não estão a correr bem. Isso é notório na perda de eleitores.

PJ – De que forma é que pode ser contrariada a perda de população?
NC – Pela criação de emprego que consiga atrair pessoas de fora, mas também jovens de Pombal que saíram do concelho à procura de melhores oportunidades.

PJ – É por essa razão que defendem o aumento de área disponível e a atractividade das zonas industriais? É isso que falta para captar mais investimento e criar emprego?
NC – Sim. Nos últimos tempos temos assistido ao crescente interesse de algumas empresas em instalar unidades no nosso concelho e, neste momento, só está disponível a Zona Industrial do Louriçal, que não é propriamente atractiva, tendo em conta a sua localização e acessos. De facto, falta área disponível e manutenção das zonas industriais para as tornar mais atractivas, mas também há lotes abandonados que não deviam existir.

PJ – O que é que propõem para impedir o abandono desses lotes?
NC – Rever o regulamento das zonas industriais para diminuir o preço por lote e acrescentar uma clausula de reversão por inactividade, ou seja, se a empresa cessar actividade tem um período limite de tempo para vender o lote, se não o fizer ele reverte para o município pelo valor a que foi vendido. Esta proposta não permitiria ter, por exemplo, um pavilhão abandonado no Parque Industrial Manuel da Mota à venda há 11 anos por 20 euros o metro quadrado, que só dá mau aspecto àquele espaço municipal.

PJ – Na sua apresentação disse que pretendia recuperar o dinamismo que o concelho tinha há pouco mais de uma década. De que forma o pretende fazer?
NC – Já abordei algumas dessas questões. Desde logo o atraso nos licenciamentos acaba por afastar, não só as empresas, mas os jovens.
Depois há os espaços municipais, que deviam estar mais ao serviço das pessoas, possibilitando outro dinamismo cultural. Dou o exemplo do Expocentro, que há uns anos tinha muito mais dinamismo, inclusivamente com espectáculos de índole nacional e internacional e algumas feiras temáticas. Ou o próprio Celeiro do Marquês já chegou a ser usado por bandas jovens. Mas, isso foi-se perdendo pela dificuldade em aceder aos espaços municipais.
Há ainda a nossa zona histórica, que está quase morta. Reconheço que a ARU e a redução das taxas tiveram alguns bons resultados, como alguns imóveis requalificados. Apesar disso, a dinâmica naquela zona continua a não ser muito grande e, do ponto de vista comercial, tem vindo a decair cada vez mais, talvez devido a alguns erros.

PJ – De que erros é que fala?
NC – Por exemplo, a Loja do Cidadão e as Finanças não fazem sentido estar naquela zona, que é uma zona nobre da cidade. São serviços essenciais, onde as pessoas vão, muitas vezes, em horário de expediente, por isso fazia muito mais sentido colocá-los fora da cidade, num local com estacionamento. A zona histórica devia estar motivada para o comércio e serviços que atraiam pessoas e tragam dinâmica. Estes serviços não trazem o dinamismo que se pretende para ali e condiciona por vários anos o desenvolvimento daquela zona.

PJ – Então que serviços é que deviam ser ali instalados e de que forma é que a zona histórica devia ser dinamizada?
NC – A Câmara Municipal devia falar com os proprietários de imóveis devolutos para perceber de que forma é que poderiam colocar os edifícios no mercado para dinamizar outro tipo de comércio, nomeadamente bares, restaurantes e cafés. Os serviços de diversão e lazer poderiam dar ali alguma dinâmica, mas são afastados. Comparo aquela zona à Praça Rodrigues Lobo em Leiria e à Avenida 5 de Outubro nas Caldas da Rainha, onde as pessoas vão com tempo e não se importam de andar mais um bocadinho para lá chegar.

PJ – Falou também da falta de dinamização do Expocentro, que é mais um compromisso vosso. Este espaço municipal não está devidamente aproveitado?
NC – Não. Por um lado, não acredito que a pista de atletismo traga grandes mais valias ao concelho e ocupa um espaço importante da cidade durante grande parte do ano. Estamos a condicionar e a ocupar, durante praticamente metade do ano, um espaço importante para realizar outro tipo de eventos que seriam mais vantajosos.

não acredito que a pista de atletismo traga grandes mais valias ao concelho

PJ – Que eventos são esses?
NC – Por exemplo feiras económicas. E temos como exemplo a Exposalão na Batalha que atrai várias feiras económicas de diversos sectores.

PJ – Mas que também estagnou muito nos últimos anos…
NC – É verdade que tem vindo a perder muito. Ainda assim, o município pode procurar esse tipo de iniciativas, até porque temos uma localização privilegiada para as empresas fazerem showrooms e encontros nacionais, como já aconteceu no passado.

PJ – Mas também houve coisas bem feitas ao longo do mandato?
NC – Houve alguns bons resultados, nomeadamente na área da educação. E não colocamos sequer em causa a competência das pessoas que estão no município. Eu estive lá e sei o trabalho que é feito, é um trabalho difícil. Tal como sei que o presidente de Câmara tem um conhecimento do território e da gestão autárquica que nenhum dos candidatos tem. É bom que tenhamos essa noção, independentemente de concordar ou discordar de uma ou outra opção. Apesar disso, acho que há coisas que não correram bem, como é o caso do desenvolvimento económico e da perda de população. Mas há outros problemas, nomeadamente a questão dos cuidados de saúde primários, que nos últimos anos tem sido um problema quase constante, ora numa freguesia ora noutra. E aqui a culpa não é só do executivo.

o presidente de Câmara tem um conhecimento do território e da gestão autárquica que nenhum dos candidatos tem

PJ – Então de quem é a culpa?
NC – A culpa é do executivo, mas também da oposição. O problema tem sido sempre abordado, tanto de um lado, como do outro, de uma forma demagógica. Nunca se abordou o problema de uma forma realista e isso contribuiu para arrastar o problema até hoje. Só agora é que se começa a falar em avançar para unidades de saúde familiares e agregar alguns pólos, criando uma solução mais estável, que era o mais óbvio a fazer.

PJ – Com o actual modelo, a população não tem o devido acesso aos serviços de saúde?
NC – O modelo actual tem vários problemas. O primeiro é desde logo o acesso aos cuidados de saúde por falta de médico, enfermeiro ou administrativo. Mais vale ter menos unidades de saúde, que estão sempre em funcionamento com recursos humanos suficientes para atender as pessoas, do que ter uma extensão em cada freguesia que, constantemente, não tem recursos humanos para prestar cuidados aos utentes, seja por motivos de férias, baixas médicas ou outros.
Além de ser um serviço muito mais instável, as extensões de saúde mais pequenas têm também dificuldade em atrair profissionais, porque não oferecem condições aliciantes numa perspectiva de desenvolvimento profissional e de aprendizagem para os médicos e enfermeiros.

Mais vale ter menos unidades de saúde do que ter uma extensão em cada freguesia que, constantemente, não tem recursos humanos para prestar cuidados aos utentes

PJ – Foi secretário nos gabinetes de apoio ao presidente e aos vereadores na Câmara de Pombal…
NC – Esse é um facto importante para o bem e para o mal. O facto de ter pertencido ao PSD e ter trabalhado na Câmara Municipal tem uma parte má, mas tem também a parte boa. Essa experiência foi uma oportunidade muito positiva, que deu para aprender muito, quer da própria estrutura da Câmara, quer também, porque apesar de tudo o que se possa dizer de Diogo Mateus e do seu feitio, ele é uma pessoa que gosta de ensinar quando vê que as pessoas querem aprender. Por isso, foi uma boa oportunidade de aprendizagem.

PJ – Quais as razões que motivaram o afastamento do PSD e a aproximação à IL?
NC – Eu sempre fui liberal e quem me conhece sabe que sempre tive ideias mais liberais. E o PSD era um partido que tinha alguma proximidade com o liberalismo e o espírito reformista para o país, mas nos últimos anos afastou-se um muito desse caminho.

PJ – A IL é um partido recente que vai a votos pela primeira vez em Pombal. O que seria um bom resultado?
NC – O nosso principal objectivo, depende só de nós, é transmitir as ideias liberais, fazendo com que as ideias vão entrando nas pessoas numa perspectiva de futuro e não tanto imediatista. Depois gostaríamos de eleger pelo menos uma pessoa para a Assembleia Municipal, o que já seria um bom resultado. Mas, tendo em conta o contexto político em Pombal, acho que não é disparatado eleger também para a Câmara Municipal, uma vez que todos os outros partidos estão bastante parados e não se vislumbra propriamente uma grande motivação para estas eleições, nem nenhum projecto alternativo. Nesse sentido, considero que a IL é o partido melhor posicionado para poder eleger para a Câmara Municipal, obviamente a seguir ao PSD, que será com certeza, mais uma vez, o partido que irá ganhar.

gostaríamos de eleger pelo menos uma pessoa para a Assembleia Municipal

PJ – A redução do número de vereadores não será um obstáculo para atingirem esse objectivo?
NC – Obviamente que a redução do número de vereadores não é só uma dificuldade, como é um sinal bastante negativo para Pombal. O concelho está a perder habitantes, o que contribui para reduzir o número de eleitos para os órgãos. Não obstante a isso, acho que podemos ter aqui um bom resultado e ambicionar, embora não seja esse o principal objectivo, eleger para a Câmara Municipal.

a redução do número de vereadores não é só uma dificuldade, como é um sinal bastante negativo para Pombal

PJ – A Iniciativa Liberal já apresentou os candidatos à Câmara e Assembleia Municipal. E às freguesias, a quantas pretendem candidatar-se?
NC – Não perspectivamos nenhuma candidatura às juntas de freguesia. Iremos analisar as propostas de algumas candidaturas independentes e, posteriormente, poderemos tomar posição em relação a alguma.

PJ – A IL tem apostado fortemente nas redes sociais. É através dos meios digitais que pretendem desenvolver a vossa campanha eleitoral?
NC – Obviamente que vamos privilegiar os meios digitais, até por uma questão de recursos. A IL não tem propriamente recursos para investir numa campanha. Portanto, vamos privilegiar os meios digitais e algum contacto de proximidade. Já temos visitado algumas empresas e associações e organizado os cafés liberais pelas freguesias. Mas vamos apostar nas redes sociais, até porque o nosso público preferencial são os jovens.

PJ – Particularizar o vosso público apenas nos jovens é suficiente para atingir os vossos objectivos?
NC – Não. Por isso é que gostaríamos de chegar a outro tipo de eleitorado, mas neste momento o eleitorado da IL, não só em Pombal, mas também a nível nacional, são os jovens, porque ainda não têm um voto habitual tão fixo como as outras gerações. Por outro lado, temos uma comunicação mais atractiva para os jovens e as nossas propostas são mais facilmente entendidas pelos jovens.
Mas com algum trabalho conseguiremos chegar a outras gerações e bem explicadas as nossas propostas, grande parte do eleitorado vai perceber que é liberal e não sabia.

 


Espírito liberal
Oriundo de Ramalhais, freguesia de Abiul, Nuno Carrasqueira interessou-se pela política ainda muito jovem. A discussão sobre o aborto foi o tema que lhe despertou esse interesse. Recorda que na altura a JSD distribuiu um panfleto com uma opinião a favor e outra contra. “Achei interessante essa perspectiva de esclarecimento e de não manipular as pessoas para um ponto de vista”, salienta. Esse espírito liberal aproximou-o da JSD, onde “sempre fui muito activo”. Ao longo do tempo foi tentando transmitir as suas ideias mais liberais dentro do partido, “mas com menos sucesso quanto gostaria”. Por isso, “quando surgiu um partido realmente liberalista foi essa a minha escolha”.
Nuno Carrasqueira licenciou-se em Enfermagem e actualmente é enfermeiro no Centro Hospitalar Universitário de Coimbra. Concluiu ainda um MBA para Executivos e fez uma pós-graduação em Gestão da Formação.
Em termos associativos, foi presidente da Associação dos Estudantes Pombalenses do Ensino Superior e secretário-geral da Associação de Industriais do Concelho de Pombal.

Carina Gonçalves | Jornalista

*Entrevista publicada na edição impressa de 01 de Julho