Comemorar Abril

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1867

A informação era bastante restrita, se compararmos com a época atual. Era mesmo outra época. Havia o controlo da informação pelo poder político, o único canal de televisão que existia, a preto e branco, encerrava à meia-noite, ouvíamos as notícias na rádio, mas naquela manhã de 25 de Abril de 1974, isso não tinha sucedido. Assim, quando cheguei à Escola Industrial e Comercial de Pombal, hoje Escola Secundária de Pombal, à sala dos professores, veio a informação, que surpreendeu toda a gente: tinha havido nessa madrugada, em Lisboa um golpe militar com o objetivo de derrubar o Governo. As dúvidas, as incertezas e as perplexidades foram muitas.

A pouco e pouco, fomos tendo a consciência dos efeitos desse movimento militar, que depois se transformou numa revolução que mudou radicalmente a vida dos portugueses. Feita pacificamente, o cravo foi o seu símbolo: a imagem, que ficou célebre, do miúdo a colocar um cravo no cano da espingarda militar, correu o mundo.

Os primeiros tempos foram difíceis, tanto mais que a política era uma área fora do conhecimento da maior parte dos cidadãos, exceto dos que estavam ligados a partidos de esquerda, ativistas políticos, desconhecidos da maioria dos portugueses.

Mas a necessidade da mudança sentia-se no ar e vinha já desde há muitos anos atrás. Comprovei-a em Janeiro de 1970 na Escola Prática de Infantaria, em Mafra, onde comecei a cumprir o serviço militar obrigatório, no curso de oficiais milicianos. No fim do primeiro ciclo de formação, aquando da atribuição das especialidades, o ambiente era de grande tensão e nervosismo, dadas as fortes possibilidades de calhar em sorte uma que obrigasse a ir para zonas de guerra. A juventude dessa época estava a ser altamente sacrificada com as guerras no então ultramar ou províncias ultramarinas, depois, colónias portuguesas: Angola, Moçambique e Guiné. Não havia problemas em Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Macau e Timor, mas já tínhamos perdido Goa, Damão e Diu para a Índia. Portugal era uma grande potência à escala universal, presente em quase todos os continentes.

A juventude conhecia perfeitamente os riscos que corria com a guerra colonial, quando era enviada para zonas de combate na selva africana. Por isso, muitos jovens emigravam clandestinamente para fugir à tropa e os restantes não queriam ser heróis, dados os riscos de vida e de integridade física que corriam. Climas adversos, emboscadas, doenças tropicais, horizontes complicados, numa idade em que se começa a preparar o futuro, sempre numa perspetiva otimista e esperançosa.

Deste modo, a primeira grande vantagem da revolução foi acabar com as guerras coloniais, embora a descolonização tivesse sido feita de modo apressado e complicado, prejudicando quer o País, quer as colónias.

Mas, a guerra fria que então se vivia entre os dois grandes blocos, foi aproveitada pelos soviéticos para reforçar a sua importância em África, tanto mais que os ativistas políticos portugueses simpatizantes dessa área eram os mais dinâmicos e controlavam os militares, os sindicatos e o setor público.

Os horizontes de esperança foram resumidos nos três Dês: democratizar, descolonizar, desenvolver. Mas, com a primazia da esquerda marxista, nacionalizaram-se os bancos, as companhias de seguros e muitas empresas. A reforma agrária coletivizou muitas herdades, especialmente no Alentejo, copiando as kolkhoses (cooperativas agrícolas de produção russas, privatizadas em 1992) e as sovkhozes (fazendas estatais russas) que serviam de modelo e que eram objeto de estudo nas escolas portuguesas, fazendo parte da matéria dos manuais escolares.

Os riscos do marxismo e coletivismo que o País correu em 74-75, foram ultrapassados em Novembro de 1975, graças a Eanes e aos militares moderados e a democracia foi-se estabilizando, com mudanças frequentes de governos, no início provisórios, depois resultantes de eleições.

As crises financeiras foram ultrapassadas com a nossa entrada na CEE em 1986. Mas o modo como gerimos essa entrada não preveniu o futuro: desativámos atividades fundamentais (agricultura, pescas) para receber mais subsídios comunitários. A gestão e o controlo desses subsídios não foram feitos com o rigor necessário, tendo havido desperdícios e aproveitamentos menos honestos.

Apesar disso, verificou-se um desenvolvimento económico ímpar na nossa História, com a instalação de indústrias, criação de postos de trabalho, grande desenvolvimento económico e social. Na saúde os progressos foram fantásticos e na educação poderíamos e deveríamos ter ido muito mais longe. Os índices de desenvolvimento económico e social aproximavam-nos gradualmente da Europa.

Só que, esta abundância de meios financeiros, fez-nos sentir ricos e a tendência para gastar o que não tínhamos, generalizou-se quer no Estado (governo, autarquias e empresas públicas), quer nos particulares e nas empresas.

A maior parte dos responsáveis pela governação do País não tinha experiência de gestão. Com raras exceções, os mais altos responsáveis políticos, Presidentes da República, Primeiros-ministros e muitos ministros só tinham experiência no Estado, onde à mesa do orçamento se habituaram a gastar despreocupadamente, muitas vezes sem critério, porque o dinheiro não era deles. Por razões populistas e eleitoralistas davam o que não podiam e, porque não o tinham, iam pedindo emprestado.

Se tivessem, em muitos casos, antes de ir para o setor público, experimentado a gestão privada, arriscando os seus capitais próprios, seriam seguramente mais rigorosos e não tínhamos chegado à situação atual, porque teriam gerido as finanças públicas de modo mais criterioso e rigoroso. Mas também faltou ao País organização e instituições que tivessem controlado as contas públicas, impedissem as irresponsabilidades governativas e evitassem a falência do País.

E foi pena que isto não tivesse sucedido. Porque não teríamos perdido a independência financeira como País e não andaríamos agora de mão estendida a pedir emprestado e a serem os credores a dizer o modo como nos devemos governar. Perdemos uma oportunidade histórica para nos tornarmos num país equilibrado, auto-suficiente, com desemprego baixo e com um nível de vida e de justiça social muito maiores.

Chegados aqui, caberá perguntar: então mas valeu a pena fazer o 25 de Abril? A resposta é totalmente positiva. Quarenta anos depois o País está muito diferente, muito melhor. Desde logo temos liberdade, um bem inestimável, mas que deve ter como contrapartida uma maior responsabilização, civismo e patriotismo da nossa parte, como cidadãos.

Os índices de desenvolvimento económico e social, na saúde, na educação, na cultura, no desporto e em todos os setores de atividade, permitiram construir um País melhor, onde nos sentimos bem, onde valerá a pena viver.

Importa então terminar com um voto: que as comemorações desta data, nos quarenta anos da Revolução, permitam uma consciencialização de todos, mas especialmente dos responsáveis públicos e privados, no sentido de reinventar o espírito do 25 de Abril, para podermos e sabermos trilhar os caminhos do progresso, do desenvolvimento, da justiça, que nos conduzirão, seguramente, a um futuro melhor.

Manuel Domingues

manuel.duarte.domingues@gmail.com

(impresso na edição nº 30)