Duas amigas percorreram a N2 durante perto de 40 horas sem dormir

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São aventureiras, determinadas, lutadoras e muito resilientes. Só isso explica que tenham conseguido percorrer a mítica Nacional 2 (N2), de uma só vez, contra todas as previsões menos optimistas da família e amigos. Ao longo dos 715km, repartidos por 39h45’sem dormir, levaram ainda uma missão solidária: desafiar a população a doar um euro, por cada Km pedalado, a favor do Zé, um jovem de Castanheira de Pera a quem foi diagnosticada uma doença rara.

As duas amigas, momentos antes da partida

Os caminhos de Marisa Bregieiro e Andreia Vicente cruzaram-se nos trilhos e, desde então, à paixão comum pelo desporto na natureza somou-se uma amizade profunda, fortalecida nestes últimos três anos graças aos treinos conjuntos com as insígnias da Tocer Trail Team, equipa da Figueira da Foz.
Marisa Bregieiro estava “numa noite de Bodo” quando se lembrou de desafiar Andreia Vicente a percorrer de bicicleta a mítica estrada N2, que liga Chaves a Faro, “de uma só vez”. “Uma é mata e a outra é esfola-se”, conta a amiga, para evidenciar a cumplicidade entre ambas e a resposta afirmativa, sem resquícios de hesitações, que deu a Marisa.
“Ela vinha do Bodo e eu de trabalhar”, acrescenta Andreia, num tom bem-disposto, ao lembrar que nenhuma delas estava bem ciente do desafio que tinham pela frente. “Nem sabíamos bem quantos quilómetros eram”, revela, “mas queríamos experimentar em quanto tempo o conseguíamos fazer”.
Indiferentes à distância, focaram-se, ao invés disso, na concretização da viagem, à boleia das bicicletas que as acompanham nos treinos regulares que lhes são definidos pelo treinador da equipa. Há três anos que Marisa, natural da freguesia do Louriçal, complementa a preparação para as provas de trail com o ciclismo de estrada, estratégia que é igualmente seguida por Andreia desde há dois anos.
Habituadas às exigências físicas da corrida, com várias provas de longa distância no currículo desportivo, a ideia, ainda que arrojada, desencadeou em ambas mais entusiasmo do que receios. O mesmo não se poderá dizer da família e dos amigos mais próximos. “O meu marido não acreditou”, recorda Andreia, de 40 anos, residente na Figueira da Foz e enfermeira nos Hospitais da Universidade de Coimbra. “Toda a gente achou que era difícil por causa das horas sem dormir”, reforça Marisa, num discurso que também dá nota da apreensão dos mais próximos.
Ainda assim, não perderam a motivação. Determinadas por natureza, habituadas aos desafios impostos pelo trail, não se deixaram intimidar pelos obstáculos e avançaram com a ideia. Faltava agora definir uma data, mas para isso era preciso esperar por um horário ideal na escala de serviço de Andreia, o que veio a acontecer em Setembro. A enfermeira tinha “uma folga de quatro dias” e a oportunidade não podia ser desperdiçada.
Entretanto, neste fervilhar de emoções, Marisa tem mais uma ideia. Por que não associar a viagem a uma causa solidária? A deslocação de Marisa ao Estádio Municipal de Pombal, a 17 de Setembro, para assistir ao jogo de futebol solidário a favor do Zé, desperta na atleta do Louriçal a vontade de também apoiar o jovem de Castanheira de Pera, cujos sonhos foram subitamente interrompidos por uma doença rara que lhe mudou a vida.
Com a ideia apoiada pela amiga, o passo seguinte foi dar expressão ao sonho e à missão solidária através das redes sociais, criando a página@N2_bikegirls. Por cada Km pedalado, a dupla desafiou a população a transferir 1 euro para a conta do Zé, destinada a suportar os elevados encargos diários impostos pela doença.
Com o percurso já estudado, e ainda antes de se fazerem à estrada, foram convidadas a participar num jantar do Rotary Club de Pombal, onde apresentaram a ideia e desafiaram os membros do clube a associarem-se a esta causa solidária. Os rotários não só apoiaram o jovem Zé, como quiseram ir mais longe, disponibilizando-se para acompanhar as duas jovens, de carro, ao longo da viagem até Faro.

Saída de Chaves
Faltavam dois minutos para as 08h00 do dia 22 de Setembro quando foi publicada, em Chaves, ponto de partida da N2, a primeira das fotos da aventura. A acompanhá-las estava Jorge Fidalgo, presidente do clube Talentos Objectivos, da qual faz parte a equipa de trail onde competem, e que as acompanhou até Penacova. “Ajudou-nos a mudar um pneu”, conta Andreia, sobre um dos percalços iniciais da viagem, mas foi também um “motivador”. Eram 20h30 quando pararam em Penacova para, dali em diante, a viatura de apoio ser conduzida pelo marido de Andreia, Tiago Ferreira.
O médico-dentista Hélder Monteiro, e membro do Rotary Club de Pombal, não ficou indiferente à missão e fez questão de, juntamente com a sua assistente dentária, Dina, acompanhar também as duas ciclistas. Em Vila Nova de Poiares, Andreia foi também surpreendida por amigos, que se juntaram à comitiva.
Às paisagens soberbas com que se deslumbraram, ao amanhecer e ao pôr-do-sol com que foram presenteadas, no álbum de memórias há também espaço para os momentos em que puseram à prova a resistência física, mas sobretudo a psicológica. Andreia recorda, por exemplo, as dificuldades em lidar com o frio na primeira noite, o imenso sono e a queda que deu. Já Marisa não esquece as dores nos joelhos, a dormência nos pés e a fome que as barras energéticas já não conseguiam superar. Nessa altura, ansiava por um prato de comida.
Mas foi a passagem pela serra do Caldeirão que testou verdadeiramente a resiliência de ambas. Já com centenas de quilómetros nas pernas, valeu-lhes a motivação mútua para não desistirem. “Na parte final, eu já nem conseguia pôr as mudanças”, descreve Andreia, sobre a angústia vivida. Nessa altura, era Marisa quem lhe pedia para se acalmar e a lembrava que faltava pouco para chegar. E faltava. Eram 23h45m quando chegaram a Faro, ao último marco da N2. A 24 de Setembro, 715km depois do início da aventura, estava cumprido o sonho e a missão a que se propuseram.
Na rotunda onde esperavam ter os amigos à espera, não encontraram nenhum rosto conhecido. Chegaram a pensar estar no sítio errado. Mas não. “Tinham adormecido”, contam agora com boa-disposição sobre esse momento, que as impediu de ter um registo da chegada. “Só me apetecia chorar”, tal era a alegria sentida, misturada com a sensação de “alívio”, diz Andreia. Volvidas duas semanas, liberta um sorriso rasgado para dizer que “foi brutal”. Uma expressão reforçada pela da amiga. “Foi fantástico e fazia tudo outra vez”, revela Marisa, que admite ter sido uma missão sofrida, ainda que estivesse “à espera de ser pior. Íamos sempre bem-dispostas”, e parte da superação veio também desse estado de espírito, reconhece.
E contra todas as previsões menos optimistas no núcleo familiar, a jovem da freguesia do Louriçal ainda conseguiu juntar-se ao aniversário da mãe, no dia 24. Terminados os festejos, entregou-se ao merecido descanso e dormiu 13 horas consecutivas. Por sua vez, Andreia, que é mãe de um rapaz de 23 anos, que vibra com as conquistas da mãe, e de uma adolescente de 11 anos, dormiu 12 horas seguidas.
Ao olhar para trás, garantem que não se arrependem e que voltavam a fazer tudo novamente. Esperam regressar, mas agora por etapas, para apreciarem, com tempo, aquilo que agora não foi possível.

 

Andreia e Marisa chegaram a Faro depois de terem pedalado quase 40 horas sem dormir
  • O presidente do Rotary Club de Pombal, Jorge Silva, diz que o clube se solidarizou, desde a primeira hora, com esta causa “nobre. Dada a importância que lhe estava subjacente, os rotários disponibilizaram-se para colaborar com o apoio ao jovem Zé e às duas atletas.
  • Andreia e Marisa não conseguem precisar o número de pessoas que se associaram à causa solidária, uma vez que as doações eram feitas directamente para a conta do Zé.

 

Marisa e Andreia estavam exaustas à chegada mas não escondiam a felicidade pela conquista alcançada

*Notícia publicada na edição impressa de 12 de Outubro