DA ILUSTRE TERRA DO MARQUÊS | Malhar na Esquerda

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Devo confessar que gosto de malhar na esquerda, especialmente quando está em alta, como parece ser o caso na época atual. Mas, faço-o descontraída e construtivamente, preocupado com o futuro do País. Porque, se não fosse o BCE e as suas políticas financeiras, já teríamos tido à perna uma nova troika. Por isso, é perfeitamente justa a condecoração que o Presidente da República atribuiu a Mário Draghi, Presidente do BCE, reconhecendo o seu papel na política financeira que nos permitiu aliviar alguma austeridade nos últimos quatro anos.

A esquerda gosta de gastar como o fez Guterres até ir embora, quando criou o “pântano” político em que se afundou.

A esquerda gosta de gastar como o fez Guterres até ir embora, quando criou o “pântano” político em que se afundou. O centro-direita veio a seguir para tentar “consertar a coisa”. Não teve tempo, porque graças a Sampaio, veio Sócrates e foi sempre a crescer. A dívida pública, claro! E os milhões desbaratados, geridos e aproveitados por um grupo restrito que agora se vai conhecendo. Até chegarmos a um “pântano” ainda mais profundo e a esquerda, não sabendo o que fazer, teve que chamar a troika em 2011, para evitar a falência do País. Depois veio, novamente, o centro-direita e, graças aos sacrifícios que nos foram impostos, conseguiu “melhorar a coisa”. O governo atual, guinou ainda mais à esquerda e está a “aproveitar a coisa”. Até quando?
Discutimos demasiado as ideias, temos excelentes palradores, catedráticos em palavras, fracos em obras. Expor ideias, vender conceitos, aprofundar a retórica, está-nos na “massa do sangue”. Pôr essas ideias em prática, fazer obra, produzir e obter resultados práticos, passa para segundo plano, porque é preciso mais esforço, muito trabalho, não basta a conversa, nem a erudição e, por isso, é mais difícil pôr em prática os excelentes conceitos que, segura e convictamente, temos.
Na discussão esquerda / direita, a esquerda normalmente ganha vantagem, porque não é capitalista, preocupa-se muito com os outros, é mais culta, mais letrada, o socialismo é um princípio de que não abdica, primeiro por ela própria a esquerda desinteressada e depois pelo bem-estar e progresso do resto da humanidade. E, quando algum dos seus membros se distrai e é apanhado com a “mão na massa” (o que nos últimos tempos tem sucedido com frequência), a perseguir ou a facilitar milhões de euros, há sempre uma desculpa que se aplica a quem é de esquerda, mas nunca a quem é de direita.
Quando falamos de liberdades, a situação é idêntica. A esquerda tem o monopólio das amplas liberdades e a direita é autoritária e só não acaba com elas quando não pode. Se levarmos este raciocínio ao extremo, parece podermos concluir que os extremos se tocam. A diferença entre a extrema direita e a extrema esquerda é nenhuma ou sê-lo-á apenas do ponto de vista económico: no fascismo de direita há liberdade económica, mas não política e no fascismo de esquerda não há qualquer liberdade, porque é o partido que manda em tudo e em todos. O partido é aqui representado por uma burguesia política que trata o proletariado como seres obedientes e acríticos, porque o partido tratará da felicidade do povo.
O muro de Berlim foi construído em 1961, para evitar que os alemães da República “Democrática” Alemã fugissem para a República Federal Alemã, ou seja para um país livre. Pergunta-se: se o comunismo traz a felicidade aos povos, para quê construir muros, para evitar que saiam desse “paraíso” comunista? Se o regime é bom, se traz a felicidade ao povo, para quê fazer do país uma gigantesca prisão, evitando assim que as pessoas normais saiam. Mas porque querem sair?
Ao contrário, o agora chamado “muro de Trump”, que começou a ser construído em 1994, quando era Presidente Bill Clinton, tem como objetivo evitar que os estrangeiros entrem clandestinamente nos EUA. Aqui o objetivo era e é evitar que entrem e não impedir que saiam. Mas então, se o regime americano é capitalista e não socialista, por que é que as pessoas arriscam a vida para entrar neste país? Para serem exploradas?
A resposta a esta pergunta pode ser feita com outra pergunta: por que é que os refugiados, na época atual, se dirigem à Europa e aos EUA e não à Rússia e à China? O internacionalismo proletário já não funciona? Ou estaremos perante um egoísmo “socialista” inexplicável? Os antigos países de leste, agora convertidos à democracia, constroem muros para evitar que os refugiados entrem nesses países. Porquê?
Receamos que os tempos de paz e progresso que vivemos na Europa desde o fim da 2ª Grande Guerra (1945), estejam ameaçados pelos extremismos, quer de direita quer de esquerda, que atualmente se verificam. A intolerância desses partidos extremistas, quer em termos ideológicos, quer em termos comportamentais, traz uma instabilidade que nos deixa naturalmente preocupados em relação ao futuro. Se não houver uma reorientação ao centro, uma harmonização dos partidos moderados, uma blindagem democrática contra os extremismos, o nosso futuro coletivo vai ser complicado…

manuel.duarte.domingues@gmail.com

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Natural de Viuveiro, Vila Cã, Pombal (1948), residente em Pombal. Licenciado em Controlo de Gestão pelo Instituto Superior de Contabilidade e Administração de Coimbra. Contabilista e Consultor de empresas desde 1977, Revisor Oficial de Contas desde 1993. Fiscal Único no âmbito do Ministério da Saúde de diversos Hospitais EPE, desde 2002. Professor do Ensino Secundário (EICP) e Superior (ISCAC e ISLA). Serviço público: Oficial Miliciano de Administração Militar, Membro da Assembleia Municipal de Pombal e Presidente da Assembleia de Freguesia de Vila Cã. Cargos exercidos em associações: Vice-Presidente da Direcção da AHBVPombal; Presidente Conselho Fiscal da AICP–Associação dos Industriais do Concelho de Pombal, da AHBVP, da Santa Casa da Misericórdia de Pombal e do Sporting Clube de Pombal; Membro da Comissão Revisora Contas da Fundação Rotária Portuguesa. Livros publicados: “DA ILUSTRE TERRA DO MARQUÊS…” – 1º Volume (2011, 2ª edição 2013); 2º Volume (2016), reunindo crónicas publicadas em jornais e revistas e outros escritos, destinando-se, integralmente, o produto da venda a Instituições de Solidariedade Social.