DA ILUSTRE TERRA DO MARQUÊS | No Outono da Vida

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Tinha uma figura muito especial, que chamava a atenção mesmo dos mais distraídos. Alto, magro, semblante aparentando tristeza, face macerada pelas rugas que a idade tinha trazido. Falava pouco. Levantava-se do cadeirão que estava encostado à parede, na sala principal daquele lar da terceira idade, onde passava os seus dias, nos últimos três anos, saía da sala e percorria o corredor até à porta vidrada, na entrada principal do edifício. Aí parava, olhava para o jardim em frente durante alguns minutos, perscrutava o céu, umas vezes azul, outras mais cinzento e, depois, voltava calmamente para o seu cadeirão na sala.
Esta postura enigmática despertava ainda mais curiosidade nas pessoas que, quase sem querer, o observavam. O seu ar sério, triste, pensativo, não exprimindo os sentimentos que naturalmente lhe iam na alma, faziam do Martins (pseudónimo) uma personalidade muito especial, muito respeitada naquela instituição. Quando o tempo o permitia, empurrava calmamente a porta e saía para o jardim, percorrendo os passeios, mas não parecendo ver a relva e as flores, porque o seu olhar fixava-se mais acima, no horizonte, talvez recordando cenas ou histórias da sua vida, que parecia ter sido vivida com calma, paz, tranquilidade. Passados alguns minutos, voltava para o seu sítio habitual, sentado no cadeirão, numa atitude contemplativa, parecendo apenas esperar que o tempo passasse.
Sendo esta a sua postura habitual, foi curioso ver a sua reação quando um seu colega, utente no mesmo lar, se aproximava sentado numa cadeira de rodas, circulando na sua direção. Com um ar aparentemente divertido e algo sorridente, com os dedos das duas mãos fechados, com exceção dos indicadores que estavam estendidos para a frente, rodando paralelemente e em círculo, incentivando o colega a aumentar a velocidade, resultando uma cena cómica, que divertiu os dois e também os eventuais observadores que a puderem testemunhar.
Visitar um lar de idosos e observar o modo como as pessoas ali vivem e convivem, quando e na medida em que podem, obriga a pensar no que é a vida, ou melhor no que tem sido a vida, porque ali os utentes estão na fase final das suas vidas. Regra geral, trabalharam intensamente para constituir família e para obter meios que garantissem a sua subsistência e progresso. O ideal seria que pudessem viver os últimos anos da sua vida no seio da sua família. Mas, muitas vezes, isso não é possível por várias razões, especialmente por limitações e insuficiências físicas que obrigam a cuidados especiais, devido a dependências que só podem ser ultrapassadas por estruturas profissionais, como é o caso dos lares da terceira idade.
Questiona-se, muitas vezes, se valeu a pena tanto esforço, tanto trabalho, ao longo de toda uma vida. As preocupações, os sacrifícios a que as obrigações pessoais, familiares e profissionais traziam. Mas, este é o destino natural do ser humano, que advém da idade, das limitações e dos problemas, especialmente de saúde, que vão aparecendo à medida que os anos vão passando.
Mas também ficamos com a ideia de que, em muitos casos, os filhos não reconhecem o papel fundamental que o seu Pai e a sua Mãe tiveram na sua vida. Não retribuem aquilo que receberam, manifestando ingratidão. Esquecem a dedicação, os cuidados e os encargos dos Pais na sua educação, crescimento e preparação para a vida. Trata-se de uma postura profundamente egoísta, frequente nas sociedades modernas. A valorização excessiva dos aspetos materiais, em detrimento dos valores afetivos, faz com que, frequentemente, se esqueça o passado, a importância dos progenitores que, muitas vezes, são desprezados pelos filhos, como se de estranhos se tratasse.
Como é evidente, este comportamento funciona como exemplo para os seus filhos, um mau exemplo, que, possivelmente, fará com que, no futuro, estes problemas se agudizem e o “desafeto” seja a regra praticada pelas próximas gerações. Esperamos que isto não suceda, para bem da Humanidade, a caminho duma felicidade que permita dizer, na parte final da vida, tal como reza a canção que “valeu a pena ter vivido o que vivi / valeu a pena ter sofrido o que sofri / ter amado quem amei / valeu a pena ter sonhado o que sonhei / valeu a pena“. Porque tem mesmo que ter valido a pena.

manuel.duarte.domingues@gmail.com

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Natural de Viuveiro, Vila Cã, Pombal (1948), residente em Pombal. Licenciado em Controlo de Gestão pelo Instituto Superior de Contabilidade e Administração de Coimbra. Contabilista e Consultor de empresas desde 1977, Revisor Oficial de Contas desde 1993. Fiscal Único no âmbito do Ministério da Saúde de diversos Hospitais EPE, desde 2002. Professor do Ensino Secundário (EICP) e Superior (ISCAC e ISLA). Serviço público: Oficial Miliciano de Administração Militar, Membro da Assembleia Municipal de Pombal e Presidente da Assembleia de Freguesia de Vila Cã. Cargos exercidos em associações: Vice-Presidente da Direcção da AHBVPombal; Presidente Conselho Fiscal da AICP–Associação dos Industriais do Concelho de Pombal, da AHBVP, da Santa Casa da Misericórdia de Pombal e do Sporting Clube de Pombal; Membro da Comissão Revisora Contas da Fundação Rotária Portuguesa. Livros publicados: “DA ILUSTRE TERRA DO MARQUÊS…” – 1º Volume (2011, 2ª edição 2013); 2º Volume (2016), reunindo crónicas publicadas em jornais e revistas e outros escritos, destinando-se, integralmente, o produto da venda a Instituições de Solidariedade Social.