TATUAGENS E COMPANHIA

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Manuel Duarte Domingues
manuel.duarte.domingues@gmail.com

Estava sentada no banco da frente numa moderna e confortável carruagem do comboio Alfa, na viagem de Faro para a Gare do Oriente, em Lisboa.
Era verão, fazia calor e, por isso, as roupas tinham que ser leves e necessariamente reduzidas. Assim, era fácil ver estampados nas costas, ligeiramente tapados pelos longos cabelos morenos, carateres escritos em linhas bem organizadas, naquilo que parecia ser um poema, escrito talvez em alemão. Ocupava a maior parte das costas, o que foi bem visível quando ela se levantou para observar a carruagem. Seria interessante ver a mensagem impressa, mas não sabendo alemão… Na viagem de volta, também uma senhora (a tendência que temos para admirar a beleza feminina é estrutural e incontornável), ostentava uma linda boneca desenhada no seu braço esquerdo, bastante bronzeado…
Durante as férias algarvias, confirmámos que é mesmo moda pintar tatuagens em várias zonas do corpo. E é precisamente no verão que estas pinturas, às vezes artísticas, nos chamam à atenção, em virtude de a pele estar mais vezes descoberta. E aqui a imaginação humana não tem limites, não só pela variedade dos desenhos e outros escritos, como também pelas cores mais ou menos brilhantes ou berrantes com que se procura chamar a atenção ou dar nas vistas.
Também é frequente a opção por mensagens como a atrás referida, ou nomes, desenhos, frases e outras em que se procura homenagear, lembrar ou fidelizar alguém. Só que, neste caso, corre-se um risco bastante grande porque, nesta época de mudança, as relações não têm a solidez que tinham no passado. E não será por ter escrito o nome da ou do consorte (antigamente chamava-se assim) que a duração da relação estará garantida. Mas, depois o laser consegue tirar, embora com alguma dor… Haverá outras tatuagens em sítios menos visíveis, mas cujo objectivo e pendor artístico serão os mesmos ou parecidos.
Talvez seja o resultado da tendência que se verifica para a imitação de algumas figuras públicas, nomeadamente futebolistas que se excedem em tatuagens que acabam por influenciar os seus admiradores ocasionais. E como a criatividade e a arte estão sempre presentes em maior ou menor grau, temos que reconhecer que nalguns casos se trata de excelentes obras de arte que, se aplicados sobre modelos femininos adequados, acabam por tornar esses modelos ainda mais valiosos e, por isso, objeto de mais admiração e atenção, como é o caso das fotos, que tirei recentemente numa praia algarvia (notável a inscrição de um salmo e as bonitas e coloridas pinturas) e cuja publicação foi devidamente autorizada.
Ora estas pinturas, desenhos e escritos nos humanos, fazem-me lembrar as pinturas murais, os graffitis, que ainda se vêem em muitas paredes e edifícios abandonados. Também aqui é frequente admirar a criatividade e a arte dos pintores, regra geral anónimos, que as criaram. Foi exatamente no último quartel do século passado, logo a seguir à revolução de Abril, que as pinturas murais atingiram o seu auge no nosso país, tanto mais que, frequentemente, se procurava transmitir mensagens políticas, quer a favor, quer contra determinadas situações ou ideais.
Recentemente estive em Berlim, onde a visita obrigatória ao que resta do célebre Muro de Berlim, permite observar um número fantástico de mensagens, desenhos, pinturas, fotografias, etc. em que a beleza e a variedade das cores, procuram interessar e influenciar os numerosos visitantes que, todos os dias, passam por ali. As fotografias anexas, de minha autoria, comprovam os aspectos referidos.
Voltando às tatuagens nos seres humanos: mais incómodo serão os piercings, brincos, argolas e outras engenhocas que, há alguns anos atrás, estávamos habituados a ver, no cinema ou na TV, nos indígenas de algumas tribos que conservavam hábitos primitivos, como sejam argolas no nariz ou outros adereços na boca ou no queixo.
Quando fui comprar bilhete do comboio, para a viagem atrás referida, estava à minha frente na fila um cidadão que tinha na orelha um búzio comprido que a atravessava dum lado ao outro, que talvez lhe permitisse ouvir melhor. Sou do tempo em que o problema das meninas era terem que lhes furar o lóbulo das orelhas para poderem usar brincos. Agora têm vários buracos e vários brincos ou outros adereços nas duas orelhas e isso vale para os dois sexos.
A incomodidade de usar piercings em vários sítios do corpo é evidente, mas as modas ou querer ser diferente ou original, motivam comportamentos que, à luz duma certa cultura conservadora, não são fáceis de compreender. Mas, como vivemos num regime de liberdade, cada um faz como entender e os outros só têm que ver, observar, concluir dos efeitos, das vantagens ou inconvenientes, mas, acima de tudo e antes de mais, respeitar os gostos e a liberdade individual de cada um, ou de cada uma.
Há vinte e tal anos, numa viagem turística a Londres, verifiquei que alguns homens já usavam brincos. Invadido por um espírito de modernidade, dirigi-me a uma loja para comprar um brinco…mas com orelha incluída. Não havia. Não comprei.

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