“O António foi um erro de casting”

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ANTÓNIO PIRES
antoniojosecpires@gmail.com

Reconheço-o, lamentando-o, que a história do partido registará o seu contributo como um “O António foi um erro de casting”. António entregou-se ao partido quando ele mais precisava e ganhou eleições, mas, quando finalmente pressentiu os primeiros odores de uma hipótese do eleitorado lhe entregar o poder, foi atraiçoado e será abandonado. António sabe, melhor do que ninguém, que a política tem estes enredos. A experiência na juventude partidária e o seu crescimento na hierarquia do partido permitiram-lhe estudar estratégias, personalidades e alianças e assistir a traições inimagináveis. Ainda assim, é da opinião que não vale tudo.

“Daquilo que tenho mais ouvido, desde camaradas do PS até cidadãos que me abordam na rua, é dizer que isto não é justo, isto não pode ser aceitável num partido democrático.”
António José Seguro, Jornal de Notícias online, 14/07/2014

O outro António, o Costa, vai ganhar o partido, mas no fim revelar-se-á um segundo “O António foi um erro de casting”. A história do partido, o mesmo do primeiro António, registará este golpe de estado doméstico e não perdoará.
Não se esperava do PS tal divisão, particularmente agora. É uma úlcera interna, profunda, infetada, contagiosa e desnecessária, com a agravante de transmitir sinais, a todo o eleitorado, de uma ridícula disputa, quando, pelo contrário, se esperava que este espírito combativo fosse utilizado enquanto oposição.
E a traição será consumada e o poder conquistado. O vencedor ficará com um partido mais dividido do que nunca e nenhum destes Antónios terá capacidade para dominar os barões socialistas, que agora se perfilam em cada trincheira. Esgotada a contenda, o líder emergirá, daqui a 2 meses, mais fraco e herdando um partido dilacerado, que mais não é que um saco de gatos, também por culpa dele próprio.
Não se compreende.
Factos, António José Seguro:
– agarrou um partido que acabava de atirar o país para as mãos de uma troika impiedosa e obcecada por folhas de excel fundamentalistas.
– num pais à beira da bancarrota, liderou um partido feito em cacos pelo camarada Sócrates, que, convenientemente, ao seu estilo, se escapou para Paris…!!
– esforçou-se por credibilizar o PS e lá foi ganhando eleições.
– perante o iminente saque ao poder, foi brando, demasiado lento e não atuou como devia.
Consequência, António Costa:
– quer agora o lugar de António José Seguro;
– sente que tem terreno propício para validar o seu comportamento;
– reúne tropas, de todo o lado, e mina o que pode parecer-lhe oposição, interna, é claro.
António Costa vencerá no partido, porém, sairá mal deste processo e não passará pela maioria dos portugueses. O país perde, os partidos da governação também. É à oposição que cabe parte do controlo à ação do executivo e a crítica à política que impõe, se estas não existem, a democracia não funciona e governa-se pior.
Lamentavelmente, o que sucede é que, na ação política, ao eleitorado pouca diferença prática é percetível entre a atuação dos maiores partidos políticos. É disto exemplo, as relações simbióticas entre política e banca, assunto da ordem do dia com o caso do BES, mostram as ligações perigosas entre políticos e banqueiros, entre gestores privados e governantes, colocando a nu favorecimentos e relações pouco transparentes.
O descrédito da população sobre as virtudes de muitas medidas políticas e a desconfiança nas máquinas partidárias foram sentidas, por este velho continente, nos resultados das últimas eleições europeias, com partidos antieuropeístas e radicais a angariarem um número nunca previsto de votos, num desfecho ideologicamente absurdo. E esta tendência também nos irá atingir.
Por isso é de perguntar: terão os portugueses interesse na saga “O António foi um erro de casting”? Duvido, isto irrita-os e afasta-os da política, até porque preocupações mais elevadas os ocupam.