“O melhor do mundo são as crianças”

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Fernando Pessoa afirma, no famoso poema “Liberdade”, que “Grande é a poesia, a bondade e as danças…/ Mas o melhor do mundo são as crianças”. Eduardo Sá, reconhecido psicólogo, acrescenta, no pequeno livro intitulado “Manual de instruções para uma família Feliz”, que elas são mesmo o melhor “pelo que trazem ao nosso crescimento, (…) pela generosa insistência com que nos educam.” Pode parecer, à primeira vista, que há algo de estranho nesta afirmação, pois, tradicionalmente, entendia-se que eram os adultos (principalmente, pais e professores) que ministravam a educação aos mais pequenos, de forma unidirecional. De facto, hoje, é tácito que o processo de ensino/aprendizagem (quer em ambiente escolar quer noutras circunstâncias) deve ser bidirecional e, nele, a persistência/paciência deve apresentar-se como ingrediente fundamental, quer da parte do adulto, quer da parte da criança/jovem.

Neste contexto, quanto a mim, ganha particular relevância a atividade de contar ou ler expressivamente histórias aos mais pequenos, mesmo num tempo em que o computador (associado à tão apregoada falta de tempo dos adultos), qual “lobo mau”, parece querer devorar esses maravilhosos e inesquecíveis momentos de partilha, no aconchego do quarto, entre almofadas (que podem ser muralhas de castelos ou armaduras de cavaleiros) e a colcha da cama, ideal para abrigar os heróis cansados ou para fingir um sumptuoso manto de princesa adormecida. Desperdiçar isto é comprometer, não só a criatividade das crianças, mas também hipotecar a sua aquisição/compreensão dos melhores valores em que assenta a nossa civilização, impedindo-as, deste modo, de os colocar em prática nas suas vivências futuras.

Assim e, tendo em mente que se comemorou, no passado dia 2 de abril, o Dia Internacional do Livro Infantil, em homenagem a Hans Christian Andersen nascido, nesse mesmo dia, em 1805, deixo algumas notas sobre este escritor, cujo legado é muito especial para a humanidade, ou seja, além de ter uma obra literária notável, a sua vida é, também, uma lição. Se ele tivesse desanimado diante das dificuldades, não teria feito o que fez e as crianças de todo o mundo não teriam tido a oportunidade de conhecer os mais belos e emocionantes contos infantis. Hans Christian Andersen era filho de um sapateiro e de uma lavadeira, a sua família morava num único quarto. Apesar dos problemas, ele aprendeu a ler desde muito cedo e adorava ouvir histórias.
A infância pobre proporcionou-lhe a oportunidade de conhecer os contrastes da sociedade, o que influenciou bastante as histórias infantis e adultas que viria a escrever. Em 1816, o seu pai morreu e ele, com apenas 11 anos, teve de abandonar a escola.
Aos 14 anos, foi para Copenhaga, onde conheceu o diretor do Teatro Real, Jonas Collin. Trabalhou como ator e bailarino, além de escrever algumas peças. Em 1828, entrou na Universidade de Copenhaga e já publicava diversos livros, porém só alcançou o reconhecimento internacional em 1835, quando lançou o romance “O Improvisador”.
Apesar de ter escrito romances para adultos, livros de poesia e relatos de viagens, foram os contos infantis que o tornaram famoso, já que, até então, eram muito raros os livros destinados, de forma específica, ao público infantil.
Nas suas histórias, Andersen buscava sempre passar padrões de comportamento que deveriam ser adotados pela sociedade, mostrando, inclusivamente, os conflitos entre poderosos e desprotegidos, fortes e fracos. Ele buscava, desta forma, demonstrar que todos os homens deveriam ter, incontestavelmente, direitos iguais.
Entre 1835 e 1842, Andersen lançou seis volumes de “Contos” para crianças. Continuou a escrever até 1872, chegando a um total de 156 histórias. No final desse ano, ficou muito doente, vindo a falecer em 1875, em Copenhaga.
Alguns dos títulos mais divulgados da sua obra são “O patinho feio”, “O soldadinho de chumbo”, “A roupa nova do Imperador”, “A pequena sereia” e “A menina dos fósforos”. São textos que fazem parte do imaginário da maioria das crianças de todo o mundo, desde a sua primeira publicação até à atualidade, tendo sido adaptados, em múltiplos formatos, para cinema, teatro e televisão. Ao mesmo tempo que ensinam a superar obstáculos, preconceitos e injustiças, incentivam a sonhar e trazem uma mensagem de esperança: que cada um de nós é único e especial e que os bons sentimentos podem vencer tudo. Leiam-nos aos vossos filhos/netos/alunos. É um investimento que trará elevados dividendos afetivos e morais.

Graciosa Gonçalves

(Impresso na edição nº 30)