Militar pombalense participa em missão da União Europeia

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O nome Angel Dj dispensa apresentações na região. O conhecido disco-jóquei é artista residente na discoteca Palace Kiay, mas há outra ‘versão’ de Ângelo Pereira que a maior parte dos seus seguidores desconhece.
Fora das pistas de dança, é Sargento de Engenharia, exercendo funções na unidade da Brigada de Intervenção sediada no quartel-general, em Coimbra. Contudo, desde 27 de Julho do ano passado, o militar pombalense participa na Operação ATALANTA, uma missão da União Europeia destinada ao combate à pirataria, tráfico de armas, pesca ilegal e protecção de navios do World Food Program (organização que ganhou, em 2020, o Prémio Nobel da Paz), na costa da Somália.
É no quartel-general da operação, localizado na Base Naval de Rota, em Cadiz (Espanha), que Ângelo Pereira exerce funções de “administrador da parte media da operação”, como explica ao Pombal Jornal. “Trabalho toda a parte gráfica e multimédia”, o que se traduz na produção de “trabalhos gráficos, imagens e vídeos”, cabendo-lhe, de igual modo, receber “os produtos que nos são enviados da área de operações”, situada na Somália. Produtos esses que, avança o militar, são depois “analisados e trabalhados por mim, para serem difundidos e divulgados nas nossas redes sociais e website”.
Motivado pelo gosto por esta área, Ângelo não hesitou na hora de responder afirmativamente ao desafio. “Senti que seria uma oportunidade única de mostrar o meu trabalho, mas também de aprender com outras pessoas”, conta o também Dj, orgulhoso da “honra” que é poder “levar o bom nome de Portugal além-fronteiras”. Nesta decisão muito pesou, também, o apoio da família, desde a primeira hora. “Foi um pouco duro quando tive de partir, mas como tenho a sorte de não estar muito longe [Espanha], consigo vir a casa de vez em quando, atenuando assim as saudades”, conta.
Até à data, Ângelo não se arrepende da decisão tomada e diz que a experiência tem corrido dentro das expectativas. “Estar envolvido num ambiente internacional, onde tenho a sorte de trabalhar com pessoas de vários países, tais como Sérvia, Croácia, Espanha, Itália, França, Alemanha, Grécia, Lituânia, Romênia, Polónia, etc., é um desafio interessante e muito proveitoso”. Nesse campo, afirma, “a aposta foi claramente ganha. Tenho aqui grandes e bons amigos”.
Além disso, “a nível de trabalho está a ser fantástico”, constata o sargento pombalense. “Estou a dar muito de mim, mas também a receber muito e a aproveitar bastante para aprender mais sobre esta área”, salienta.
Das muitas vivências que espera trazer na bagagem, há uma delas que deixará marcas nas memórias de Ângelo e de todos os que com ele trabalham nesta missão: a atribuição, em 2020, do Nobel da Paz à World Food Program (WFP). “Sentimos todos que o prémio também era um pouco nosso e que tínhamos, de certa forma, ajudado à conquista do mesmo. Foi um orgulho tremendo”, recorda o Dj com emoção.

Ligação aos valores militares
A ligação de Ângelo Pereira ao exército tem uma história que remonta a 6 de Abril de 1992, data em que ingressou no serviço militar obrigatório, na Escola Prática de Infantaria de Mafra. “Desde cedo que me identifiquei com os valores militares, com a disciplina, camaradagem, espírito de corpo”, o que o levou a optar por “ficar no exército como contratado”. Passado pouco tempo ingressou no Curso de Sargentos do Quadro Permanente, tornando-se Sargento de Engenharia. “A partir daí estive em várias unidades, tirei vários cursos de qualificação e formação, tais como Curso Nuclear Biológico e Químico, explosivos, paraquedismo, operações irregulares, contra-vigilância, entre muitos outros. Fiz os mais diversos trabalhos dentro da minha especialidade e foi, sem dúvida, uma carreira muito proveitosa e intensa”, evidencia.
“Neste momento, a minha unidade é a Brigada de Intervenção e estou colocado no quartel-general, em Coimbra”, explica.

A faceta de Disco-Jóquei
A faceta de militar está longe de ser conhecida da grande maioria. No meio artístico, Angel Dj é um nome sonante e presença habitual nas grandes festas da região, mas só os mais próximos conhecem aquela que é a vida profissional do artista das pistas de dança. “A música é sem dúvida uma paixão muito forte, que me acompanhou e acompanhará sempre na minha vida”, refere. No entanto, desde Março do ano passado que a crise sanitária veio trocar as voltas ao Dj. “Quando a pandemia começou, fomos um dos sectores mais penalizados, ficámos sem trabalhar de um momento para o outro. Foi e continua a ser muito duro para muitos Dj que só vivem desse trabalho”, constata.

“No meu caso, a oportunidade de ingressar na missão veio mesmo na altura certa. Numa altura em que todas as discotecas estavam fechadas, onde não havia festas nem festivais, tive a oportunidade de compensar os rendimentos que não ganhava como Dj”, revela Ângelo Pereira.
Sem espectáculos e com os espaços de diversão nocturna fechados há mais de um ano, o artista não baixou os braços. “Mesmo assim, com as casas fechadas, estando na missão, continuei a animar as pessoas, através das redes sociais (Facebook, Instagram, Youtube…). Com o apoio da Palace Kiay, fiz e continuo a fazer livestreams . Fiz mais de 150 livestreams, contando com milhares de visualizações em vários países. Foi sem dúvida importante para muita gente, sobretudo na fase do confinamento, e sei que muitas vezes entrei pela casa das pessoas, trazendo alegria e boas vibrações. Isso deixou-me muito orgulhoso e satisfeito”, afirma, aproveitando para “deixar aqui uma mensagem de força para todas as discotecas e bares, principalmente a Palace Kiay que sempre me apoiou”.

Paixão que começou cedo
A paixão de Ângelo pela música despertou cedo. “Com 12 anos passava horas com o gravador a tentar gravar cassetes, com os hits da rádio fazia os mixes, cortando a fita e voltando a colar a fita da cassete e animava pequenas festas de aniversário”, recorda. A brincadeira transformou-se num caso sério de amor e, por volta de 1999/2000, o hóbi tornou-se “oficial e profissional”. A minha primeira actuação desta já longa carreira foi no então CarpeDiem, “um bar muito simpático nos arredores de Pombal”.
Sobre as expectativas para os próximos meses, o conhecido Dj mostra-se optimista, em consonância com o espírito positivo que lhe molda a personalidade. “Penso que se tudo correr bem, este Verão vamos conseguir voltar a trabalhar. Pode ainda não ser nos moldes de antes da pandemia, mas acredito que será bem próximo”, diz. “Mas claro, tudo vai depender dos próximos dois meses e do comportamento das pessoas. Espero que corra tudo bem, há que acreditar nas autoridades, confiar nos responsáveis porque acredito que já falta pouco para voltarmos à normalidade”.

A rematar, Ângelo Pereira faz questão de frisar que “foi um enorme prazer ter sido convidado para esta entrevista. Agradeço a oportunidade de mostrar um pouco do meu trabalho como militar do Exército Português nesta nobre missão que é a Operação ATALANTA. Deixo uma última palavra a todos os pombalenses, de força, coragem, e segurança, porque brevemente voltaremos todos a festejar e dançar juntos”.

*Notícia publicada na edição impressa de 6 de Maio