Grande Guerra História de um soldadinho

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Rodrigues Marques

No passado dia 4 de Agosto fez 100 anos que teve início a Grande Guerra, quando a Inglaterra declarou guerra à Alemanha por esta ter invadido a França e a Bélgica.
Para que não se perca a memória colectiva dos povos permito-me contar a história de um soldadinho.
O meu avô materno.
Diziam-me que o meu avô Felizardo Simões dizia que Grande Guerra só a de 1914-1918, dado que as anteriores eram coisas de criança, desencadeadas por políticos feitos crianças.
Faleceu em 1934 com 47 anos, quinze anos antes de eu ter nascido.
A família afirmava que ele tinha morrido novo, resultado do gaz mostarda que tinha inalado na guerra.
Embarcou para as terras de ninguém, em França, no dia 26 de Maio de 1917, com 28 anos de idade, na 1ª Companhia do Batalhão de Sapadores de Caminhos de Ferro, integrado no Corpo Expedicionário Português, e por lá andou quase dois anos.
Tinha um irmão gémeo, de seu nome Manuel Simões, também ele mobilizado para a guerra.
O Manuel Simões, numa revista à formatura, por um militar de alta patente, pediu-lhe que fosse para a guerra só um dos irmãos, dado que um tinha que ser amparo da mãe, Luiza de Jesus, exposta da Santa Casa e já com 71 anos de idade, tendo morrido com 104 anos.
O militar de alta patente chamou o oficial que o acompanhava e disse-lhe para tomar nota do nome do irmão, para que fosse só um para a guerra.
Todavia o Manuel em vez de dar o nome do irmão Felizardo deu o dele, dizendo que se sacrificaria ele para ir para a guerra.
Desta forma só foi um para a guerra, mas foi o Felizardo.
Nasceram em Albergaria dos Doze, tendo o Manuel Simões, mais tarde, ido viver para as Caldas da Rainha.
Um avô deles tinha sido Mestre Escola, pelo que ambos sabiam ler e escrever.
Apoiando-nos num escrito datado de 1936 e assinado por J. Albergaria, que se pensa ser o Reverendo Padre Petronilho, respigamos:
“Albergaria dos Doze é antiga. Não se sabe em que data principiou a ser formada e a ser assim denominada, nem se a feira dos Doze é anterior ao nome da terra, ou se este antecedeu a feira somente com o nome de Albergaria. Prevê-se, no entanto, e é muito provável, que sendo este sítio ponto de passagem para Lisboa e outras terras importantes, tais como Pombal, Ourém e Tomar, alguma casa aqui fosse construída para albergar os transeuntes, e daí o nome de Albergaria, com o restritivo dos Doze, originado pela feira anteriormente criada, neste lugar pouco ou nada habitado.
O que se sabe de positivo é que a capela que actualmente serve de igreja paroquial, foi principiada a construir no ano de 1566, e que em 1572 foi passada licença para nela se celebrar missa, sendo bispo de Leiria D. Gaspar do Casal, e que era dedicada a Nossa Senhora da Consolação. Nessa data, já nestas paragens residia, como é óbvio, um número de pessoas mais ou menos importante.
Albergaria pertence ao concelho de Pombal, cuja vila fica a 18 quilómetros ao norte, e confina pelo nascente e sul com o concelho de Vila Nova de Ourém, e pelo poente com o concelho de Leiria.
Ao sul eleva-se um pequeno monte, sobre o qual se encontra a linha divisória dos concelhos de Pombal e Vila Nova de Ourém. É esse monte perfurado pelo túnel do caminho de ferro, donde brota a água fina com que a CP (Companhia Portuguêsa) abastece as máquinas na estação de Albergaria, e é também nessa colina que originam as duas vertentes, uma para o Nabão, Estuário do Tejo, e a outra para o Estuário do Mondego, iniciada esta pelo rio Arunca, que nasce a poucos metros do túnel.
Albergaria, segundo dizem, é o lugar de maior altitude entre Lisboa e Porto, da linha do comboio. O seu terreno adaptável à agricultura é pouco extenso e também pouco produtivo, pois que o solo é pobre, e talvez por isso os seus habitantes dedicavam-se, desde tempos imemoriais, ao munus de almocreves, e principalmente negociantes de peixe miúdo, que acarretavam em gado muar das praias de Lavos, Pedrógão, Vieira, Nazaré e Peniche. Este serviço era pouco remunerador e muito penoso, no dizer de alguns almocreves ainda vivos, caminhando noites inteiras, sem estradas de macadam desde as praias até aos mercados de Leiria, Tomar, Ourém, Pombal, Ancião, Freixeanda, etc.
Com a construção do caminho de ferro amanheceram melhores dias e principiou a decorrer uma época mais aliviada. Aí por 1860 já aqui se conseguiam salários remuneradores e aqui se encontravam engenheiros, empreiteiros e pessoal operário, sendo o túnel concluído e inaugurado em 1863, realizando-se a ligação das duas partes da linha – norte e sul – já construídas. Começaram também melhores facilidades do negócio, mas a vida de almocreve não foi de todo abandonada, e continuou-se na rotina da condução do peixe das praias”.
Os dois irmãos foram criados neste ambiente e ambos foram empregados da CP.
Hoje dizemos que tudo o que o comboio trouxe tudo levou.
Todavia nesse tempo era um óptimo meio de transporte e uma acessibilidade por excelência.
Segundo a sua Caderneta Militar, o avô Felizardo Simões assentou praça no dia 8 de Setembro de 1908 e passou à reserva a 8 de Novembro de 1910.
E mais lá está escrito que casou com Maria José a 7 de Outubro de 1914, que tem uma filha fémea, a minha saudosa mãe, Amélia Simões, que nasceu a 13 de Abril de 1915 e um filho varão, o Alfredo Simões, nascido a 19 de Junho de 1916, entretanto falecido.
Foi mobilizado para a guerra, a 16 de Março de 1917.
Depois de regressar da guerra ainda teve mais cinco filhos.
É histórico que tudo correu mal ao Corpo Expedicionário Português e o avô Felizardo não fugiu à regra, com a suas insubordinações, registadas na sua Caderneta Militar, apesar do Estado Português reconhecer que “O Batalhão de Sapadores de Caminhos de Ferro foi a Unidade Portuguesa que, com maior persistência e assiduidade, mais cooperou na zona de guerra, onde prestou notáveis e assinalados serviços, em circunstâncias por vezes difíceis e arriscadas e muitas vezes debaixo de fogo da artilharia inimiga, tendo no entanto conseguido que nunca deixasse de estar aberta ao tráfego a importante linha Arras-St. Pol.”.
Houve muita troca de correspondência, que a família guardou ao longo destes quase 100 anos, de entre os 30 milhões de movimentos registados.
A 30 de Setembro de 1917 escrevia à esposa um postal, com a fotografia de dois soldados, onde dizia: “Minha querida, saúde, bem assim Amélia e mãe, que eu bem. Envio-te este postal que é para vocês verem que na guerra também andam homens com saias e são os melhores guerreiros. Chama-se escocês e o outro é inglês. F. Simões”.
A 10 de Outubro de 1917 escrevia “Minha querida, nós cá vamos andando como os agriões e as batatas, mas a minha ainda está com baixa pela junta. Muitos beijinhos do teu marido F. Simões”.
Este a censura não carimbou.
Por a família, viva, entender que este acervo pertence à Humanidade disponibilizou-o na internet para fazer justiça ao avô Felizardo e a tantos e tantos outros que andaram pelas terras de ninguém, sem saberem os valores que defendiam, já lá vão quase 100 anos.
Manuel Simões Rodrigues Marques.