O PERFUME DA SERPENTÁRIA | A analogia*

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A Língua Portuguesa é talvez o nosso maior património. A sua riqueza faculta uma quantidade inesgotável de recursos. Só figuras de estilo são às dezenas: Analogia, metáfora, metonímia, perífrase, sinestesia, hipérbole, elipse, hipérbato, antítese, paradoxo, são apenas alguns exemplos deste recurso linguístico que cria novos significados para as expressões, imprimindo-lhe um sentido conotativo em vez do literal. É por ser tão cioso desta riqueza inestimável, que gosto de mandar o recadinho de rodapé com que, insistentemente, brindo os mentores do novo acordo ortográfico (como se alguma vez lessem as parvoíces que escrevo).
Mas hoje queria falar-vos de uma das figuras de estilo mais em voga: A analogia. Alguns dos nossos responsáveis políticos e jornalistas têm utilizado a expressão “estado de guerra” para caracterizar esta sinistra pandemia de COVID-19. Só na comunicação que fez ao país para declarar o Estado de Emergência, Marcelo Rebelo de Sousa utilizou-a oito vezes. A referência a “estado de guerra” também tem sido aturadamente utilizada por outros ilustres da nossa praça. Desde logo pelo nosso Primeiro-Ministro António Costa, pelo líder da oposição Rui Rio, pela própria Ministra de Saúde, além de muitos outros. Como em tudo, há quem não concorde de todo achando-a excessiva: Pacheco Pereira, João Miguel Tavares, Ana Benavente e outros tantos. Sem procurar colocar em causa a opinião destes eminentes, tentarei teorizar: ESTA PEÇONHA DO CORONAVÍRUS É COMPARÁVEL A UMA GUERRA?
Na realidade existem muitos pontos de contacto entre esta PANDEMIA D’UM RAIO(!) e uma guerra. Ora vejamos:
INIMIGO – Em todas as guerras há um inimigo. Na pandemia também. É o próprio coronavírus. Apesar do aspecto fofinho com que alguns telejornais o estilizam (tipo peluche do Lidl) é muito mortífero. Já se contam às dezenas de milhar as baixas que este infesto causou. Além de agressivo, este antagonista domina como ninguém a arte da camuflagem. Nem se vê.
ARMAMENTO – À semelhança de outras guerras, o conhecimento científico e a tecnologia associada empregues no armamento são factores decisivos. Nesta contenda contra a peste, a supremacia científica e tecnológica pode representar a diferença entre a vitória e a derrota. Nesta altercação não serão os drones ou os aviões “invisíveis” que nos conduzirão ao sucesso. Será a vacina.
TROPAS ESPECIAIS – Estas unidades militares treinadas para operações especiais existem desde a antiguidade. Têm particular apetência para intervenções militares com características atípicas e que requerem uma resposta arrojada. Intervêm em situações de elevada perigosidade e na maior parte dos casos em território inimigo, exigindo uma combinação de capacidades específicas, armamento e equipamentos especializados pouco comuns às forças convencionais. Na peleja com o venenoso também contamos com tropas especiais: Os profissionais de saúde, as forças de segurança, os bombeiros (cujo papel tem sido secundarizado neste combate) e os cuidadores. Estas tropas são tão temerárias e competentes como as das metralhadoras. A única diferença é que o equipamento com que combatem e se protegem é escasso e pouco capaz. SÃO VERDADEIROS HERÓIS.
COLABORACIONISTAS – Nas guerras há sempre quem colabore com o inimigo. É gente que para manter algum conforto durante um conflito belígero não se importa de vender os do seu lado da trincheira. Nesta confrontação com a COVID-19 também temos observado gentalha desta. Ao não abdicarem dos seus hábitos sociais colocam os seus à mercê do inimigo. Curioso, mas sobretudo triste, tem sido observar para o que os designados “passeios higiénicos” servem de pretexto. SÃO UNS ESTÚPIDOS.
MERCENÁRIOS – Os mercenários são militares que se envolvem nos conflitos apenas com o fito na obtenção do lucro. Há registos da intervenção de mercenários desde a Primeira Guerra Púnica (264 A.C.). Também neste combate constata-se que há quem, mais do que o bem comum, valorize o vil metal. Os preços inflacionados dos materiais de desinfecção e de protecção fazem-nos suspeitar da mão destes perversos. Menos disfarçado é o ardil dos bancos a quererem lucrar (MUITO) com as linhas de crédito disponibilizadas para garantir a sustentabilidade das empresas. O artigo 47 do Protocolo Adicional às Convenções de Genebra de 12 de Agosto de 1949, pelo seu odioso intuito, exclui os mercenários do direito à proteção e tratamento especial como prisioneiros de guerra, uma vez capturados. SÃO UNS BARDINAS.
CONTRA-INFORMAÇÃO – A contra-informação é um estratagema militar praticado com o objectivo de instalar a confusão no inimigo. Também neste confronto se têm observado vários episódios de contra-informação. Só que neste caso, quem a veicula, não pretende confundir o inimigo, mas sim a criar pânico nos nossos. SÃO UNS ATRASADOS MENTAIS.
Comparável ou não com uma guerra, este momento sombrio que estamos a passar vai esclarecer muito em relação ÀQUILO DE QUE SOMOS FEITOS. Espero que todos saibamos reconhecer a magnitude do desafio e a importância de nos unirmos e nos protegermos. Não será, com certeza, altura de AFASTAR GENERAIS SÓ POR TEREM AS BOTAS MAL ENGRAXADAS.

Aníbal Cardona
Consultor/Formador

*O autor deste artigo acha que os mentores do novo acordo ortográfico lançaram uma granada de mão à Língua Portuguesa.

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Engenheiro Técnico Agrário pela Escola Superior Agrária – IPB – Beja. Licenciado em Segurança e Higiene do Trabalho e Mestre em Gestão Integrada da Qualidade, Ambiente e Segurança pela Escola Superior de Segurança, Tecnologia e Aviação – ISEC – Lisboa. Foi durante mais de uma década responsável de Departamento da Qualidade, Ambiente e Segurança em diversas empresas. É consultor e formador em Sistemas de Gestão. É Professor Adjunto Convidado na Escola Superior de Tecnologias da Saúde de Coimbra. Foi prelector / moderador em diversos congressos, seminários e work-shops sobre a temática da Segurança e Higiene do Trabalho e Gestão da Qualidade. É autor e co-autor de diversos artigos científicos publicados na área da Saúde Ocupacional. Desempenha actualmente as funções de vereador da Câmara Municipal de Pombal.