D. QUIXOTE E SANCHO PERNA

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1. O célebre livro “O Engenhoso Fidalgo D. Quixote de La Mancha” da autoria do escritor espanhol Miguel de Cervantes escrito e publicado no início do século XVII foi considerado, em Maio de 2002, a maior obra de ficção de todos os tempos. Trata-se de uma obra literária de vulto, com 957 páginas que retrata as aventuras de D. Quixote de La Mancha e do seu fiel escudeiro Sancho Pança.

Estas aventuras começam a partir do momento em que D. Quixote, influenciado pela leitura de muitos romances de cavalaria, decide imitar os seus heróis preferidos, tornar-se cavaleiro andante, vivendo assim o seu próprio romance de cavalaria.

Para isso contrata Sancho Pança, um simples e ingénuo lavrador que aceita ser seu escudeiro com a promessa de que o cavaleiro lhe daria uma ilha para governar. E partem à aventura, o fidalgo montado no seu cavalo de nome Rocinante e o escudeiro num burrico. O seu objetivo é proteger e salvar os fracos e oprimidos, salvar donzelas em perigo e ajudar os injustiçados. É evidente que, copiando os cavaleiros medievais, os seus feitos tinham que ser dedicados a uma donzela, Dulcineia del Toboso, uma simples camponesa da região, promovida a dama com todas as honrarias inerentes. O escudeiro tenta mostrar ao seu amo alguns princípios de realidade, mas este não consegue sair dos seus melancólicos sonhos, da sua visão idealista da sociedade. Confunde moinhos de vento com gigantes, investe contra um deles “para extirpar tão má semente da face da terra”, mas as pás, movidos por um vento forte, projetam-no à distância.

Apesar de tudo, D. Quixote tem momentos em que é sábio, até filósofo, mesmo vivendo num mundo que “zomba dele, que o humilha, não reconhecendo a sua bondade infinita e o seu desejo inconsolável e extraordinário de salvar o mundo”. Vejamos um exemplo da sua veia filosófica. Conversando com o seu fiel escudeiro dizia: “A liberdade, Sancho, é um dos mais preciosos dons que aos homens deram os céus; com ela não podem igualar-se os tesouros que a terra encerra e o mar encobre; pela liberdade, como pela honra pode e deve aventurar-se a vida, e, pelo contrário o cativeiro é o maior mal que pode acontecer aos homens”.

Depois de muitos desafios e combates que perde, no último o vencedor exige que deixe a vida de cavaleiro andante e volte para casa. Na viagem idealiza uma vida calma e tranquila no campo, com o amigo Sancho, como pastores, ao lado das suas “Dulcineias”.

2.O governador daquela província mostrava ser ambicioso e dinâmico. A sua veia oratória, aliada à convicção com que expunha as suas ideias, deram-lhe uma maioria confortável para governar. E a economia floresceu: construiu estádios de futebol, auto-estradas e escolas. Desenvolveu energias alternativas menos poluentes, parecendo estar adiantado no tempo. Aliás já como secretário de estado dum governo anterior tinha mostrado uma dinâmica notável, o que lhe permitiu mais tarde convencer os cidadãos de que era o governante ideal para preparar o futuro, garantindo um grande progresso que traria desenvolvimento económico e social.

Parecia que era tudo fácil, mas só mais tarde é que se veio a saber que essas obras tinham sido feitas à custa de empréstimos e a dívida da província tinha aumentado de modo insustentável, pelo que o governador teve que abandonar o cargo, renunciando a toda a atividade pública. Curiosamente foi, para outra província e para uma grande cidade, estudar filosofia, talvez influenciado por um conhecido filósofo grego. Tratava-se de uma região em que a vida era muito cara, o que obrigava a ter grandes meios de fortuna para viver uma vida que não fosse modesta. Inicialmente vivia de empréstimos, talvez por estar habituado, mas depois recorreu a um amigo de longa data que lhe emprestava todo o dinheiro que precisava, sem quaisquer limitações.

Mas subsistia outro problema: como fazer chegar o dinheiro àquela região, evitando movimentos bancários que poderiam trazer complicações fiscais e necessidade de esclarecer a origem dessas importâncias.

O problema foi resolvido com facilidade através da contratação de um escudeiro, ou melhor de um condutor que, montado numa engenhoca moderna com muitos cavalos, ia fazer as entregas ao antigo governante, de acordo com os seus pedidos e satisfazendo assim as suas necessidades. Tratava-se de entregar simples envelopes com dinheiro, sem necessidade de passar recibo, nem obrigar a registos em conta corrente, que só dão trabalho e criam problemas.

Eis um modo excelente, diria mesmo ideal, de viver sem problemas na vida, que naquela época, se revelava extremamente difícil, dada a crise que se tinha instalado na sociedade global. Deste modo, poderia dedicar todo o tempo ao estudo dos livros de filosofia, privilegiando os aspectos intelectuais e filosóficos, dado que os aspectos materiais estavam salvaguardados.

3. Não será difícil concluir que, em todos os sítios e em todos os séculos, dá sempre muito jeito ter um escudeiro à mão, ou à perna, para ajudar a resolver problemas e evitar situações embaraçosas.

Também é importante referir que qualquer semelhança de tudo o que atrás se refere, com situações da vida real que tenham sucedido no século XXI é pura coincidência.

Manuel Duarte Domingues

manuel.duarte.domingues@gmail.com