PRIMEIRO ESTRANHA-SE, DEPOIS ENTRANHA-SE | A pandemia da intolerância

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O movimento Iluminista aconteceu entre 1680 e 1780 por toda a Europa, com grande incidência em França. O Iluminismo caracterizou-se pela importância dada à razão. Assim, a razão encaminharia o homem à sabedoria e o conduziria à verdade. A teoria Iluminista francesa contou com o apoio de grandes intelectuais da época. Um deles, de seu nome François-Marie Arouet, mais conhecido pelo seu pseudónimo Voltaire.
Voltaire foi um escritor, poeta, dramaturgo e filósofo iluminista francês que viveu durante o século XVIII. Voltaire consolidou-se como defensor da liberdade e da tolerância. Ele acreditava que a razão humana deveria ser livre de preconceitos. Só assim, haveríamos um progresso histórico, sendo necessário para tal a consolidação do Iluminismo.
Os ideais de Voltaire estão bem alinhados com os de outros iluministas franceses, mas com alguma ênfase na questão da liberdade. Este acreditava que o ser humano deveria ser livre para expressar a sua vida criativa, sem interferências de cunho moral e religioso. Todo o ser humano possui razão e papel social. A liberdade seria uma motivação verdadeira a todos aqueles que conseguem se compreender como seres racionais capazes de agir dentro da sociedade.
Voltaire era absolutamente a favor da liberdade de expressão. O progresso da sociedade somente viria com o respeito e tolerância a todas as formas de pensar.
A tolerância era um tema essencial para ele, pois muitas vezes o filósofo foi censurado e interditado graças ao seu pensamento liberal. “Posso não concordar com o que dizes, mas defenderei até à morte o direito que tem de dizer” poderia muito bem ser uma frase proferida por Voltaire, até porque lhe é muitas vezes atribuída de forma errónea, pois é uma frase que condensa perfeitamente a sua linha de pensamento.
Assim, o século XVIII ficou conhecido como a “Era de Voltaire” e também como a “Era da razão”.
Porém vamos fazer o seguinte exercício, passados três séculos. Existe Liberdade de Expressão? Existe Tolerância? Infelizmente, não na sua totalidade.
Atualmente a definição de Liberdade de Expressão é a seguinte: És livre para falar sobre qualquer coisa, desde que seja dentro dos limites delineados por mim.
Numa altura que estamos há mais de um ano e meio a passar por uma pandemia, qualquer retórica que não esteja 100% de acordo com o que se ouve na televisão, ou que se atreve a questionar as medidas tomadas pelo governo, é logo desmerecida nas redes sociais e carimbada de negocionista. Como só existisse dois pontos de vista alternativos, geralmente opostos, preto e branco, quando na verdade existe várias outras opções Chama-se a isto a Falácia da Falsa Dicotomia.
A intolerância chegou a proporções de tal forma que odiamos todos aqueles que não pertencem ao nosso grupo de ideias. Todavia temos que lembrar que não somos donos da razão, pelo que temos que ter consciência que podemos errar, todos nós somos seres humanos. Citando Voltaire “A primeira lei da natureza é a tolerância – Já que temos todos uma porção de erros e fraquezas.”

Cristiana Areia
Engenheira Química | Membro da Iniciativa Liberal Pombal