O PERFUME DA SERPENTÁRIA | Restaurador Olex

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“Um preto de cabeleira loira ou um branco de carapinha não é natural. O que é natural e fica bem é cada um usar o cabelo com que nasceu. Usado diariamente, o Restaurador Olex dá ao seu cabelo a sua cor primitiva.” Era este o texto de um dos mais icónicos e hilariantes anúncios da televisão portuguesa dos anos 70. O produto foi um sucesso de vendas muito à conta deste spot. Rara era a casa portuguesa que não tivesse um frasco da prodigiosa mistela na prateleira dos cosméticos. Apesar de apregoar um efeito bonito e natural à cabeleira dos portugueses, o Restaurador Olex conferia um ultra-sexy look oleoso, fazendo supor que o jeitoso teria sido lambido por um búfalo, transportando assim o conceito de naturalidade para um novo e metafísico patamar.
Talvez aproveitando o contributo do Restaurador Olex para o “restauro” do termo NATURALIDADE, a política portuguesa nos últimos tempos parece apostada em explorar até aos limites do absurdo a “elasticidade” da expressão. Quando Rui Rio (por oportunismo) permitiu a viabilização da solução governativa dos Açores através de um acordo (escrito) com o CHEGA, abriu a “Caixa de Pandora” do “vale-tudo” na política. O argumento de que o acordo é inócuo no que concerne ao seu efeito, talvez seja verdadeiro. Nomeadamente, em termos do seu conteúdo concreto. No entanto, o seu significado político não é (de todo) escamoteável. Duma assentada, Rio conseguiu normalizar o hediondo e demonstrar que é muito pouco douto no que diz respeito aos princípios e à cultura do partido que lidera. Para além disso, cada vez que André Ventura mandar uma “bujarda” das que só ele (e talvez um primata ou outro) consegue propalar, dificilmente Rio e o seu “pobre” partido se conseguirão desviar dos “estilhaços”. Se por um lado, Rui Rio, cujos tiques autoritários se tornam cada vez mais indisfarçáveis, até será capaz dos embotar como se de uma leve brisa se tratasse, o PSD, pela sua condição de partido estruturante da democracia portuguesa, sofrivelmente susterá o labéu. Este PSD de Rui Rio é indigno de evocar, mesmo que circunstancialmente, a figura de Francisco Sá Carneiro (que deve estar a fazer mortais encarpados na tumba).
Se esta repugnância de Rio pelos valores, princípios e substância do próprio partido se deve sobretudo ao facto de ter o tacto político de um lavagante, (MUITO) menos aceitável é a gestão do caso da bárbara execução do cidadão ucraniano Ihor Homenyuk às mãos do SEF. A cronologia deste episódio macabro faz-nos duvidar do século e do país em que estamos. Se a 14 de Março (dia da autópsia e dois dias depois do assassinato de Ihor) já havia fortes suspeitas em relação às circunstâncias da morte do cidadão ucraniano e que poderia ter havido encobrimento da situação por parte do SEF, nos dias subsequentes, para além de robustecerem essas conjecturas, também permitiram aventar que a tortura fosse prática recorrente do SEF. Nesse momento, nesse preciso momento, o Ministro da Administração Interna teria de chamar a Directora do SEF e demiti-la compulsivamente, demonstrando inequivocamente a inaceitabilidade do ocorrido. NÃO O FEZ. E ao não fazê-lo, demonstrou não perceber que o episódio ultrapassou a “linha vermelha” do sórdido. Colocou-se assim sob a implacável “espada” da responsabilização política. Desde então, sucederam-se processos disciplinares a responsáveis menores, a prisão domiciliária dos alegados(!?!?) assassinos, a instalação de “botões de pânico” nas dependências do SEF do Aeroporto de Lisboa (caricatural) e uma carta de condolências à viúva (que não chegou ao destino). A 16 de Novembro, a Directora do SEF, admitiu (o que já se sabia) numa entrevista à RTP: o cidadão ucraniano teria sido vítima de: “… uma situação de tortura evidente…”. A senhora acabou por sair pelo seu pé (NOTÁVEL!) a 9 de Dezembro. É me difícil aceitar que o Estado do meu país seja capaz de torturar e assassinar. Mais me enoja que essas práticas não sejam rápida e implacavelmente coarctadas. No dia e à hora que estou a escrever estas linhas, o Ministro Eduardo Cabrita ainda o é. Espero que quando for ouvido no parlamento (terça-feira, 15 de Dezembro) já não o faça nessa condição. Contudo, a saída do Ministro “per se” pouco resolverá. Este triste sucedimento terá de fazer desencadear uma profunda reflexão sobre todo o nosso sistema de segurança interna. Nada pode ficar como dantes.
No caso da trapalhada do taralhouco Rio (SE FICAR POR AQUI), uma boa esfregadela com Restaurador Olex poderá disfarçar (poucochinho) a nódoa na reputação do seu partido. Já em relação às hesitações, à demonstração de falta de autoridade e à vitimização do “Calimero Cabrita”, assim como a insipiência das medidas tomadas, nem um mergulho numa tina cheia do milagroso cosmético poderá dissipar a profunda cicatriz infligida ao cerne dos valores que Portugal sempre se distinguiu por defender. NENHUM SER HUMANO É MERECEDOR DO TRISTE DESTINO DE IHOR, NEM PORTUGAL E OS PORTUGUESES MERECIAM ESTE INSUPORTÁVEL VILIPÊNDIO!

Aníbal Cardona
Consultor/Formador

Aníbal Cardona

*O autor deste artigo acha que o novo acordo ortográfico necessita de ficar de molho em Restaurador Olex.

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Engenheiro Técnico Agrário pela Escola Superior Agrária – IPB – Beja. Licenciado em Segurança e Higiene do Trabalho e Mestre em Gestão Integrada da Qualidade, Ambiente e Segurança pela Escola Superior de Segurança, Tecnologia e Aviação – ISEC – Lisboa. Foi durante mais de uma década responsável de Departamento da Qualidade, Ambiente e Segurança em diversas empresas. É consultor e formador em Sistemas de Gestão. É Professor Adjunto Convidado na Escola Superior de Tecnologias da Saúde de Coimbra. Foi prelector / moderador em diversos congressos, seminários e work-shops sobre a temática da Segurança e Higiene do Trabalho e Gestão da Qualidade. É autor e co-autor de diversos artigos científicos publicados na área da Saúde Ocupacional. Desempenha actualmente as funções de vereador da Câmara Municipal de Pombal.