O PERFUME DA SERPENTÁRIA | O Zé em Marte, JÁ!!! Se não for já… entretanto!*

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Uma Família às Direitas (All in the Family) é uma série de televisão americana dos anos 70 que se encontra em reposição na RTP Memória. Esta série, para além das extraordinárias interpretações, celebrizou-se pela forma como abanou os alicerces da conservadora sociedade americana da época. Quer pelos temas abordados, quer pela linguagem utilizada. A narrativa centrava-se num núcleo familiar constituído pelo “chefe de família” (muito CHEFE) Archie Bunker, um estivador ignorante e retrógrado, a sua submissa (muito SUBMISSA) esposa Edith, pela filha de ambos, Glória e pelo genro Michael Stivic, estudante universitário e filho de emigrantes polacos, cujas ideias liberais chocavam de frente com as do sogro. Dessas diferenças, resultavam as inúmeras discussões entre os dois, catalisadas pelo facto de Michael viver às custas de Archie. A casmurrice de Archie e a sua supremacia económica sobre os outros membros da família faziam com que fosse sempre “a sua verdade” a prevalecer em cada discussão. Lembro-me de um episódio particularmente delicioso. Convicto de que teria a solução para resolver de vez o problema dos desvios dos aviões por piratas do ar, Archie foi à televisão apresentar a sua tese: “Bastaria distribuir pistolas por todos os passageiros à entrada do avião para que os piratas não se atrevessem a tentar desviá-lo. No final do voo, as hospedeiras só tinham de recolher as pistolas dos passageiros. CASO ENCERRADO!”.
Se para muitos é surpreendente que um estivador do porto de Nova Iorque possa ter apontado uma solução tão “inteligente” para resolver o complexo problema do terrorismo aeronáutico, essa admiração só poderá ser compreendida por a trama se passar nos Estados Unidos. Em Portugal seria banal. Portugal tem a felicidade de possuir no seu universo populacional cerca de 10 milhões de especialistas nas mais diversas áreas. Só os muito desatentos é que poderão desconsiderar esta tão evidente realidade. A sapiência dos portugueses faz as enciclopédias Britannica, ou Columbia Encyclopedia, parecerem “literatura de cordel”. Para uma indubitável demonstração científica desta tese, basta atentarmos ao léxico utilizado pelos portugueses, tanto nas conversas de café como nas redes sociais. Durante a intervenção da Troika era vulgar ouvirmos em qualquer tasca (entre duas tacinhas de palheto) expressões como: défice primário, consolidação orçamental, dívida soberana, dívida pública flutuante, rácio da dívida pública, saldo estrutural. Se o tema for a pandemia, também se discute com primor: taxa de transmissão, anti-corpos, período de incubação, antígeno, imunidade de grupo, RNA mensageiro. Seja qual for o tema, os nossos 10 milhões de “experts” dominam.
Face a tanta erudição, começa a ser difícil de explicar porque é que Portugal ainda não conseguiu levar o Homem a Marte. Este paradoxo deverá estar a agitar as mentes dos mais brilhantes cientistas de todo o mundo. Este último episódio trágico-cómico – sob o formato de Teatro de Sombras – da instrução do Processo Marquês, ainda veio adensar mais o mistério e demonstrar que até de Justiça o nosso povo é sábio. Termos como: pronúncia, prescrição, elemento probatório, arresto, bis in idem, de jure, dilação e dolo, também são vertidos com superabunda mestria. ENTÃO PORQUE RAZÃO PORTUGAL NÃO É O PAÍS MAIS DESENVOLVIDO DO MUNDO E ARREDORES? Não me querendo pôr em “bicos dos pés”, acho que consigo elaborar uma tese explicativa coerente: “Portugal não é o país mais desenvolvido do mundo porque os seus cidadãos, apesar de dominarem superiormente a terminologia, são manifestamente incapazes de articular a morfologia, a sintaxe e a semântica da Língua Portuguesa”. Perante tão rebuscado postulado, o leitor poderá ser levado a pensar que me estou a armar em William Faulkner ou Edgar Allan Poe, que procuravam no álcool a inspiração necessária para escrever. NÃO! AINDA É CEDO. Este axioma é capaz de suscitar no âmago do leitor uma outra questão: “Será a capacidade de utilizar e interpretar a Língua Portuguesa tão decisiva para que Portugal não seja a mais exorbitante expressão do desenvolvimento?” Avento que sim. Basta imaginarmos que seríamos capazes de desenvolver um foguetão para ir a Marte. Se não conseguíssemos interpretar o procedimento de abertura das portas, ficaríamos em terra. CERTO? A pouca habilidade para lidar com a nossa Língua é transversal à nossa sociedade. Para o constatar basta fazer uma breve visita às redes sociais ou atentar às notícias que passam em rodapé nos canais noticiosos. A incapacidade de enunciar as excepções do verbo HAVER, a utilização da muito (mesmo muito) irritante expressão “À SÉRIA”, a transversal confusão em relação à utilização correta do pobre hífen, são exemplos preciosos desta inépcia. Quando olhamos para o cume da íngreme escadaria social e intelectual, constatamos que a indestreza se mantém. A já citada instrução do Processo Marquês configura um exemplo paradigmático deste facto. Só à luz desta imperícia se entende que um super-juíz e um super-procurador tenham interpretações tão díspares da mesma lei e dos mesmos factos. Exemplo maior deste impreparo foi o facto de um ex-Primeiro-Ministro, depois do juiz o qualificar de CORRUPTO, de o acusar de MERCADEJAR (adoro o termo) com o seu cargo, de DISSIMULAR a origem de capitais e de FALSIFICAR papelada, interpretou estas compelações como se fossem laudatórios elogios.
Recentrando a discussão na questão de fundo: SEREMOS CAPAZER DE ENVIAR O HOMEM A MARTE? Sem dúvida que sim. Basta aproveitarmos este balanço do desenvolvimento das vacinas da COVID – 19 para conceber gramáticas injectáveis. E já agora, também uns SUPOSITÓRIOS DE VERGONHA E DE BOM-SENSO.

Aníbal Cardona
Consultor/Formador
[artigo publicado na edição impressa de 22 de Abril]

*O autor deste artigo acha que o novo acordo ortográfico é tão sofisticado que até parece estúpido.

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Engenheiro Técnico Agrário pela Escola Superior Agrária – IPB – Beja. Licenciado em Segurança e Higiene do Trabalho e Mestre em Gestão Integrada da Qualidade, Ambiente e Segurança pela Escola Superior de Segurança, Tecnologia e Aviação – ISEC – Lisboa. Foi durante mais de uma década responsável de Departamento da Qualidade, Ambiente e Segurança em diversas empresas. É consultor e formador em Sistemas de Gestão. É Professor Adjunto Convidado na Escola Superior de Tecnologias da Saúde de Coimbra. Foi prelector / moderador em diversos congressos, seminários e work-shops sobre a temática da Segurança e Higiene do Trabalho e Gestão da Qualidade. É autor e co-autor de diversos artigos científicos publicados na área da Saúde Ocupacional. Desempenha actualmente as funções de vereador da Câmara Municipal de Pombal.