O PAPEL DA OPOSIÇÃO | Por Raul Testa*

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Ao contrário daquilo que antigamente se comentava entre amigos no café e agora se faz publicamente no facebook, fazer política não é nada fácil. E é precisamente por isso que vemos tantos políticos a fazerem política de forma incompetente.

Tenho perfeita noção que se inquirirem o público sobre qual a pior falha da classe política, a corrupção é a primeira e mais votada resposta. No entanto, e embora a corrupção seja de facto um problema dilacerante e que temos que combater todos os dias, parece-me que a incompetência política é algo bem mais frequente e este facto pura e simplesmente é abafado pela abafado pela corrupção. Claro que facilmente se argumentará que incompetência política é subjectivo porque depende dos olhos do apreciador. Para um apreciador de esquerda uma medida de direita é errada, por exemplo, mas não é nesse prisma que quero abordar a incompetência.

Para mim, a incompetência política é muito mais simples. A verdade é que nem toda a gente sabe gerir, nem toda a gente sabe liderar pessoas. Por vezes, os partidos decidem ir buscar à sociedade civil para posições de topo pessoas (independentes ou que se tornam militantes) ou até mesmo militantes já no partido, que podem parecer e ser muito bons tecnicamente nisto ou naquilo. No entanto, fazer política é muitíssimo mais do que emitir um parecer técnico, uma ordem administrativa. Normalmente, quem lidera, como um primeiro ministro ou um presidente de câmara, são pessoas com experiência política e que sabem desempenhar essas funções, mas por vezes vemos alguns eleitos que parece que nunca debateram nada com ninguém, nunca esgrimiram argumentos à frente de 100 ou 200 pessoas bem atentas ao que se está a dizer e, pior de tudo – e esta parte deixa-me bem chateado – até acham que não devem seguir nenhuma ideologia porque o que lhes interessa é “resolver os problemas da população” (como se as soluções para os problemas não fossem, na sua maioria, ideológicas).

Ao observar as reuniões de câmara de uma das minhas terras favoritas, Pombal, percebe-se que pouca gente sabe o que ali anda a fazer. Os vereadores no poder, do PSD, não nos merecem uma longa análise visto serem uma mera extensão do líder e, nesse sentido, embora não desenvolvam trabalho propriamente político, cumprem o seu papel de equipa e isso é, pelo menos, prático.

Na oposição temos o meu partido, o PS, que, fruto de um resultado muito mau nas últimas eleições autárquicas tem apenas uma vereadora. Ser apenas uma pessoa a fazer oposição a um executivo e ainda ter que fazer oposição também aos (in)dependentes, com poucas horas por dia disponíveis para o efeito, é difícil. No entanto, reconheço na minha camarada Odete Alves uma pessoa séria e isso, neste executivo camarário, é uma vantagem incrível. Espero que o PS em Pombal possa crescer e ser novamente uma solução merecedora do apoio dos Pombalenses.

Depois na oposição temos também, o movimento “Narciso Mota Pombal Humano”, um projeto de poder pessoal centrado numa só pessoa que – honra lhe seja feita – não se esconde atrás de uma suposta vontade de ver os cidadãos viver melhor, como a larga maioria dos movimentos independentes fazem. Aqui o próprio nome diz logo ao que vem: make Narciso Mota great again e isso é, pelo menos, honesto.
Claro que, num movimento tão egocêntrico, quem acompanha o líder deverá ter sido escolhido precisamente para não fazer sombra, para ser inócuo. E o que defende um movimento independente? Defende menos impostos e menos estado, como a direita habitualmente reclama? Ou defende o aumento do investimento na cultura, educação e SNS como a esquerda costuma propor? Defende o apoio às famílias com menos rendimentos? Defende as minorias étnicas ou cria guetos para os ciganos? Bem, pelo menos esta posição ideológica de Narciso Mota sabemos, face ao que fez enquanto presidente da autarquia.

Os movimentos independentes são independentes do quê e de quem? Da vontade de serem poder não é certamente, aliás, os movimentos independentes (salvo alguma excepção que admito desconhecer) parecem sempre nascer pela mão de alguém que tinha demasiados entraves para ser poder dentro de determinado partido e por isso decidiu criar o seu próprio partido. Por isso, não só me parecem muito pouco independentes como até me parecem bem mais imprevisíveis que os partidos, já que os partidos podem, por vezes, ser descaracterizados por pessoas com interesses diferentes da ideologia do partido em causa mas, mais tarde ou mais cedo, serão recolocados ideologicamente no caminho certo. A luta interna partidária, dentro de um limite de razoabilidade e camaradagem, é saudável e defende-nos de unanimismos. Nos Partidos Independentes, como prefiro chamar a esses movimentos, essa luta interna parece estar sempre limitada à vontade de líderes supremos e isso é, no mínimo, perigoso.

No outro dia alguém me dizia, e com razão, que algumas oposições se comportam como se fossem os fazendeiros que, de 15 em 15 dias, iam aos latifúndios inquirir os caseiros sobre o estado das terras, contar as ovelhas e perguntar porque não fizeram A ou B.
Não me parece que seja esse o papel da oposição, mas sim o de contribuir para a resolução dos problemas dos municípios e decidir apoiar ou atacar determinado plano ou projeto consoante a ideologia do eleitorado que representam.

A oposição ao PSD de Diogo Mateus não se faz levantando o problema do “senhor josé” que tem um buraco na estrada à porta de casa, faz-se demonstrando que o projeto ideológico da direita e dos interesses privados não serve os interesses dos Pombalenses.

*Membro do Secretariado da Federação Distrital de Leiria do Partido Socialista