N(A) ESCOLA DA VIDA | Imagens, jogos e Natais

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Por estes dias houve uma “estrela de Belém”. Na realidade, uma pseudo-estrela, pois mais não foi do que a aproximação de Júpiter e Saturno: o maior deles e o dos anéis. Por estes dias, passou a noite mais longa e sombria do ano, após a qual cada nanossegundo contribui para que “em janeiro uma hora por inteiro e quem bem contar hora e meia há-de encontrar”. Por estes dias há iluminação na Avenida – essa artéria da cidade – que afaga o olhar e acalenta o coração. Há estrelas semeadas nos jardins e estrategicamente distribuídas pelas ruas que, tal como a de Belém, também o são sem o serem. Lembram-nos, contudo, que as estrelas dos nossos dias podem estar onde menos esperamos.
É tempo de tempos menos usuais. Do distanciamento físico, mas não necessariamente do social. É tempo de reinventar os laços humanos. Estranhamente não é o tempo de nos embrulharmos em abraços desmedidos e de nos partilharmos sem os condicionalismos tatuados no dia-a-dia. É tempo de aletria, filhoses e sonhos – principalmente o da liberdade reconquistada, das plateias repletas, dos concertos esgotados e das máscaras circunscritas ao Carnaval.
Há por estes dias, na lembrança, o cheiro do bolo-rei feito em casa, com favas intrometidas e brindes camuflados num pedaço de papel vegetal. Das filhoses nascidas das abóboras criadas no quintal e dele, com amor, colhidas. Há aqueles panos de croché que serviam de molde para desenhos de canela nas travessas de arroz-doce. Há bolas cascadas e fitas desmanteladas, autênticas sobreviventes com mais de três décadas mas quando cuidadosamente manuseadas ainda têm o dom de abrilhantar a época. Há a imagem do borralho da casa da avó, onde a família aquecia o corpo e o coração (mesmo que no fim os abraços cheirassem a fumo). Há, mais recentemente, serões de monopólio, pictionary, cartas e dominó: todos a ensinar-nos que os jogos têm regras e estas, quando assimiladas em equipa, ditam vitórias mais fortes. E é assim que esperamos que um dia este Natal seja lembrado: como um (estranho) jogo, com regras muito próprias, do qual um inimigo invisível saiu derrotado.

Isabel Moio

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Embora os documentos legais a identifiquem como natural de Pombal, foi em Coimbra que respirou autonomamente pela primeira vez. Assim, desde o penúltimo dia de dezembro de 1982 assumiu um compromisso com a vida: aprender a ser. Quase duas décadas depois regressou à cidade do Fado e do Mondego para dar continuidade à sua formação académica na área de Ciências da Educação. Aprofundaria aqui o significado de outro pilar: aprender a conhecer. Começou a aprender a fazer em 2007, quando a socialização profissional lhe abriu as portas no ramo da Educação e Formação de Adultos, no qual tem trabalhado e realizado investigação. Gosta de “sair por aí” e observar e fotografar todas as esquinas. Reserva ainda tempo para a escrita, sentindo-a como um elixir lhe permite (re)descobrir uma energia anímica e uma força motriz nos cantos mais inóspitos aos quais muitos olhares não associariam qualquer pulsar. É, neste campo, autora de obras literárias individuais e de vários textos e poemas publicados em coletâneas. E é assim que lê, sente e inala o mundo, num permanente aprender a viver com os outros.