DA ILUSTRE TERRA DO MARQUÊS | Aquele lugar à mesa…

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“… o problema era a perda daquele lugar, que era sempre
ocupado pela netinha mais nova…”

Aquele lugar à mesa tinha um encanto e um significado muito especiais! Não só pela sua localização – ficava na cabeceira, mesmo em frente do avô, que era o membro mais velho da família – mas, especialmente, porque começou a ser ocupado pelos mais novos. Ou seja, à medida que a família ia crescendo, ficando mais rica, em resultado do nascimento de novos membros, estes começavam por ocupar aquele lugar, bem sentados e devidamente seguros em cadeirinhas próprias para a sua idade. Além do mais, aquele lugar também permitia observar, atentamente, todos os presentes na mesa, possibilitando ter uma visão global sobre a mesma. Mas, não só, porque, como é normal, o membro mais novo da família era o centro das atenções, sendo frequentemente interpelado, elogiado… Era a estrela da companhia.
A situação apresentou-se perfeitamente normal e sem problemas, quando o lugar foi ocupado pela primeira netinha. Como é natural, as atenções concentravam-se nela, tinha o monopólio dos elogios, era a primeira princesinha, tratada como tal, com um estatuto privilegiado, por ser a única. Assim, a situação manteve-se pacífica durante alguns anos.
O problema surgiu quando o lugar teve que ser ocupado pela segunda netinha. Como é fácil de concluir, a primeira teve alguma dificuldade em compreender a razão por que tinha que mudar de lugar, apesar de ficar mesmo ao lado. Foi-lhe explicado que aquele lugar era mais espaçoso para arrumar a cadeirinha de bebé, mas aceitou a “despromoção”, apesar da circunstância de o centro das atenções passar a ser a manita mais nova. É evidente que esta é uma situação perfeitamente normal, dada a curiosidade e o interesse que sempre manifestamos pelos bebés à medida que vão crescendo, que vão revelando as suas tendências, a graciosidade das suas reações, o encanto que provocam nos mais crescidos.
O crescimento normal da família trouxe outra linda menina, que veio a ocupar o tal lugar privilegiado à mesa. E a reação da segunda netinha foi, como não podia deixar de ser, muito idêntica à da primeira. Teve também alguma dificuldade em compreender, mas lá se acomodou à situação, ficando no lugar a seguir, bem próximo da última estrela da companhia. A normalidade instalou-se e, com ela, a harmonia que permite a coexistência pacífica entre as pessoas, independentemente da idade.
Nova mudança provocada pelo nascimento da quarta netinha. Passados os meses necessários para ocupar a sua cadeirinha, ficou garantido o seu lugar à mesa, na tal posição especial, que tinha sido ocupada anteriormente pela sua manita e pelas primitas. O ritual cumpriu-se, mas evidenciando ainda uma maior contrariedade e incompreensão do que as anteriores ocupantes do tal lugar especial. Como é normal, acabou por se adaptar às circunstâncias, avançando para o lugar seguinte, logo a seguir ao da manita.
Esta teve um privilégio muito especial: sendo a última, lá continua no tal lugar, fazendo o possível por continuar a ser o centro das atenções, observando atentamente todos os presentes à mesa, procurando dar nas vistas através de algumas situações especiais, revelando uma imaginação e uma criatividade que vai aperfeiçoando à medida que os anitos vão passando.
Chegados aqui, a dúvida, porque de incertezas está este mundo cheio, é saber quando haverá mudanças em relação ao ocupante daquele lugar tão especial, à mesa. Como é natural, existe a convicção de que isso sucederá, certamente, mais tarde ou mais cedo, num futuro mais ou menos próximo…

Manuel Duarte Domingues
manuel.duarte.domingues@gmail.com

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Natural de Viuveiro, Vila Cã, Pombal (1948), residente em Pombal. Licenciado em Controlo de Gestão pelo Instituto Superior de Contabilidade e Administração de Coimbra. Contabilista e Consultor de empresas desde 1977, Revisor Oficial de Contas desde 1993. Fiscal Único no âmbito do Ministério da Saúde de diversos Hospitais EPE, desde 2002. Professor do Ensino Secundário (EICP) e Superior (ISCAC e ISLA). Serviço público: Oficial Miliciano de Administração Militar, Membro da Assembleia Municipal de Pombal e Presidente da Assembleia de Freguesia de Vila Cã. Cargos exercidos em associações: Vice-Presidente da Direcção da AHBVPombal; Presidente Conselho Fiscal da AICP–Associação dos Industriais do Concelho de Pombal, da AHBVP, da Santa Casa da Misericórdia de Pombal e do Sporting Clube de Pombal; Membro da Comissão Revisora Contas da Fundação Rotária Portuguesa. Livros publicados: “DA ILUSTRE TERRA DO MARQUÊS…” – 1º Volume (2011, 2ª edição 2013); 2º Volume (2016), reunindo crónicas publicadas em jornais e revistas e outros escritos, destinando-se, integralmente, o produto da venda a Instituições de Solidariedade Social.