Aníbal Simões é um dos últimos fabricantes de acordeões em Portugal

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Nasceu em Ansião, esteve 18 anos em França e, já em Portugal, foi empresário no ramo dos transportes. Viveu em Leiria mas em 2001 mudou-se para a freguesia de Vila Cã. Foi aí, na localidade de Castelo, que abraçou um novo desafio profissional, moldado por uma paixão antiga. Criou a Simani, a marca de acordeões que faz nascer a partir do seu ateliê. É possivelmente o único fabricante de um dos instrumentos mais icónicos da música popular. Até à hora de entregar o pedido ao cliente, passam-lhe pelas mãos cerca de 10.000 peças.

 

No ateliê de Aníbal Simões, o tempo corre devagar. Com precisão, rigor, muita técnica e um ambiente feito de silêncio, sem margem para distracções.
Nascido há 70 anos no concelho vizinho de Ansião, o artesão transformou a paixão pelo acordeão em caminho profissional, depois de mais de quatro décadas a acumular experiências noutras lides. É na aldeia de Castelo, na freguesia de Vila Cã, onde montou o ateliê de fabrico, restauro e afinação, que recebe o Pombal Jornal para uma conversa onde desfia a história e as histórias deste amor aos acordeões.
Aníbal Simões era ainda um adolescente quando comprou o primeiro acordeão, à revelia da mãe, já viúva nessa altura. Trabalhava desde os 11 anos, mas o dinheiro que tinha juntado não era suficiente para pagar os três contos e quinhentos pelo acordeão que tanto queria. Tinha metade do dinheiro e o outro tanto pediu-o à tia. “Quando a minha mãe me viu chegar a casa com ele [acordeão] quase me ia batendo”, lembra. “Eu trabalhava desde os 11 anos, por conta de um empreiteiro de estradas, e depois fui para Torres Novas, para uma fábrica. Aí, continuei a dar o mesmo dinheiro à minha mãe, mas como ganhava mais, já ia ficando com o que sobrava”, relata.
Neste dedilhar de histórias da meninice, Aníbal Simões lembra os dias passados a ouvir um senhor, de uma aldeia vizinha, a tocar concertina, para explicar que foi aí que começou este deslumbramento. “Fiquei fascinado com o movimento dos dedos”, conta. “Eu sentava-me na arca, a olhar para os dedos dele, e a ver como é que ele fazia aquilo. Foi aí que comecei a gostar. E gostei tanto que não comprei uma concertina, mas sim um acordeão, que é mais completo”, lembra, com um sorriso.
Até aos 20 anos, antes de partir para o quartel de Tomar, onde fez a tropa, foi aprendendo sozinho, por não encontrar quem o ensinasse, “mas só fiz asneiras”, admite, ao recordar aquela época. Já como militar, conseguiu encontrar um sítio para ter aulas, durante dois meses. “Esse senhor dava aulas de ouvido, mas a colocação dos dedos é muito importante”, nota.
Depois do serviço militar, regressou a França, para onde tinha emigrado um ano antes. Por cá, deixou o acordeão, para ser vendido. Esteve seis anos sem pegar no instrumento que o apaixonava, até ao dia em que viu um acordeão numa montra. Entrou e pediu para experimentar. O bichinho estava lá, mas percebeu que tinha de reaprender. “Tinha esquecido tudo”, o que não era necessariamente mau. “Pensei: agora é que está mesmo bom para treinar, sem fazer asneiras.”
Comprou o acordeão e retomou as aulas, incluindo solfejo (saber ler as notas que estão numa pauta), para recuperar as bases. Foi nessa fase que Aníbal Simões viveu um momento que, alguns anos depois, haveria de moldar o rumo da sua vida: foi convidado por um amigo a visitar a fábrica da conceituada marca de acordeões Cavagnolo. “Fiquei encantado com aquilo”, relata. Durante a visita guiada, não se limitou a ouvir as explicações. Absorveu tudo o que pôde, perguntando, observando, aprendendo. Sem saber, preparava o terreno para o futuro.
Profissionalmente, a vida em França era estável: chegou a cheque de equipa na fábrica onde trabalhava, mas o desejo de regressar a Portugal falou mais alto. Aos 37 anos, fez as malas e mudou-se para Leiria com a família, depois de 18 anos em terras francesas. Na bagagem, o ansianense de gema trazia experiência profissional no currículo e um vasto historial de formações, muito por ‘culpa’ da vontade de aprender sempre mais, mesmo quando a 4ª classe parecia um atropelo à vontade de ir mais além.
Já em Leiria, Aníbal Simões criou uma empresa de transportes com a esposa, que trocou a actividade profissional numa farmácia pelo volante. Durante duas décadas, partilharam as longas horas de viagem, numa condução alternada para evitar cansaço acumulado.
Nos destinos que cruzaram pela Europa, o acordeão de Aníbal Simões era companhia do casal. “Às vezes, a minha mulher ia a conduzir e eu a tocar ou a ensaiar músicas”, conta.
Entretanto, Aníbal e a família deixaram o concelho de Leiria, por falta de espaço, no local, para o camião, e instalaram-se na aldeia de Castelo, na freguesia de Vila Cã (Pombal). Fizeram a escritura da casa numa data impossível de esquecer: 11 de Setembro de 2001.

Até o acordeão estar concluído, é preciso encaixar cerca de 10.000 peças

A arte de fabricar acordeões
Cansado das viagens internacionais, fechou a empresa e passa a dedicar-se, por inteiro, aos acordeões. Não apenas na vertente lúdica, mas agora também profissionalmente. Valeram-lhe as formações feitas em França e tudo o que absorveu na fábrica da Cavagnolo.
Em 2013, abriu oficialmente a actividade e criou a própria marca, a Simani. A partir dali, foi desbravando caminho, a par e passo, “porque eu tinha visto fazer, mas nunca tinha feito”.
As afinações e restauros ocuparam-lhe os primeiros dois anos, até que um cliente o desafiou a construir um acordeão de raiz. O cliente desistiu da encomenda e, sem horizonte comercial à vista, “continuei o trabalho até que, um dia, vem aqui um senhor para lhe restaurar um acordeão e retirar-lhe peso. Como isso não dava, sugeri-lhe que ficasse com o que eu estava a construir, porque pesava só 8,5 quilos – e era novo – e o dele quase 13 quilos”. Acabaram por fazer negócio.
Vendeu este primeiro acordeão por cerca de “3.500/3800 euros”, cerca de três meses depois de lhe ter dado início e ainda sem estar munido do actual equipamento.
Desde então nunca mais parou. Aperfeiçoou técnicas e conhecimentos, aprendeu a desenhar peças no AutoCad, investiu numa máquina CNC e até construiu alguns dos maquinismos e ferramentas que usa diariamente, desenhados à medida da especificidade da actividade. “Criei o meu próprio método de trabalho, mas para isso andei sempre a puxar pela cabeça”, afirma. Para aqui chegar, as formações que fez em França revelaram-se decisivas, sobretudo na área da electromecânica.

“Quando faço um acordeão tenho a preocupação de escolher todas as peças da maior qualidade”

O único artesão do género em Portugal
Hoje, é possivelmente o único artesão em Portugal a fabricar um acordeão completo, incluindo os foles. Só não produz as palhetas (peças metálicas colocadas no interior do instrumento, que produzem as notas musicais), uma parte essencial do instrumento que obriga a um investimento que pode chegar aos 3.000 euros.
Até o trabalho estar concluído, é preciso encaixar cerca de 10.000 peças, num puzzle de minúcia que não deixa margem para erros. No final, e feitas as contas, Aníbal Simões reconhece que vende os acordeões baratos. “É preciso muita mão-de-obra e comprar muitos materiais”, explica. O preço base de um Simani é de 6.000 euros (+IVA), mas o valor é ajustado conforme os pedidos. “Um acordeão destes, vindo de Itália, não custa menos de 12.000 euros”, compara.
“Quando faço um acordeão tenho a preocupação de escolher todas as peças da maior qualidade”, contrariamente aos exemplos que lhe chegam ao ateliê. Não raras vezes, Aníbal é a tábua de salvação de muitos clientes que ali batem à porta, recomendados por outros, que sabem que, ali, o problema dificilmente não tem solução. “Se fosse eu a deixar aqueles defeitos, chamavam-me todos os nomes, mas como vem de fora já é bom”, lamenta, por força da sobrevalorização das marcas internacionais.

“Criei o meu próprio método de trabalho, mas para isso andei sempre a puxar pela cabeça”

Desde 2013, já produziu perto de uma dezena de acordeões. Dois rumaram ao continente americano e outros houve que encontraram ‘casa’ em países da Europa. Por força da excelência do trabalho que executa no dia-a-dia, a geografia de clientes é alargada. Há quem venha de diferentes zonas do país, mas quem também esteja em França ou na Alemanha e não prescinda dos serviços de afinação e restauro de Aníbal Simões. É a na excelência do trabalho que faz que encontra a maior fonte de publicidade.
Actualmente, será o único artesão no país a dedicar-se ao fabrico integral de um acordeão, para além de o reparar e afinar. “O fornecedor, que percorre todo o país, esteve aqui há tempos e disse-me que os únicos que fazem foles em Portugal sou eu, nos acordeões, e o Joaquim Nogueira, nas concertinas”, diz.
Embora já não participe em bailes nem dê aulas em casa como antes, ainda aceita tocar quando é convidado, mas só “pro bono”, como faz questão de sublinhar.
No silêncio do seu ateliê, repartido entre o espaço das afinações e o de fabrico, Aníbal Simões vai continuar a ser o guardião de uma arte que, se não for valorizada e preservada, corre o risco de se perder.


*Notícia publicada na edição impressa de 4 de Dezembro de 2025