QUELQUES MOTS | Buzina!

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Todos os dias de aulas, à porta das escolas, repete-se o mesmo espetáculo. Uma autêntica parada de Natal digna da EuroDisney, mas sem magia nenhuma. Dezenas de carros amontoados em fila, em segunda fila, em terceira fila e até em cima dos passeios, todos à mesma hora, todos a tentar deixar os filhos o mais perto possível da porta. Se pudessem, entravam com o carro dentro da escola, até à sala de aula.
O mais curioso é que a maioria destas crianças consegue perfeitamente caminhar alguns metros. Não sofrem de mobilidade reduzida. Seria um ótimo exercício de autonomia e um início simples para aprenderem civismo. Mas vemos o contrário: um cada-um-por-si constante, onde estacionar mal parece ser um direito adquirido. E, depois, há quem ainda se queixe da falta de respeito dos outros, esquecendo o exemplo que dá diariamente. Até que aconteça uma tragédia, muitos continuarão a fechar os olhos ao risco que criam.
O perigo não é apenas a confusão: uma criança que atravessa a passadeira com carros parados à frente vê a sua visão bloqueada, ficando invisível para outros condutores, o que eleva significativamente o risco de atropelamento. Todos os pais deveriam imaginar como se sentiriam se fosse o seu filho naquela situação.

“Todos são prejudicados por aqueles que acham que a urgência dos seus cinco minutos vale mais do que a segurança de todos”

E quem paga? Os peões bloqueados no trânsito. Os condutores que não têm filhos e só querem seguir viagem. Os pais que estacionam corretamente nas ruas paralelas, cujos filhos, imaginem, andam porque têm pernas, pés e sapatos, e até lhes faz bem à saúde, também ficam presos. Todos são prejudicados por aqueles que acham que a urgência dos seus cinco minutos vale mais do que a segurança de todos.
Pergunta-se: qual é a necessidade? Criar confusão? Arriscar a vida das crianças? Evitar levantar-se cinco minutos mais cedo? Estamos a formar os adultos de amanhã, num contexto já marcado pelo individualismo e pela falta de empatia. Que exemplo damos quando mostramos que eu posso e os outros que esperem?

“Talvez seja tempo de assumirmos que a mudança começa na porta da escola e no lugar onde escolhemos estacionar”

Talvez o bom exemplo venha daquela mãe (ou pai) islandesa, brasileira, indiana, portuguesa, africana, alemã ou francesa que leva os filhos de bicicleta, de patins ou a pé. Ou dos pais que estacionam como deve ser e deixam os filhos caminhar. Esses mostram respeito. Não os que, em stress, apressam as crianças para sair do carro, apenas para depois ficarem mais dois minutos a ver se entraram bem na escola.
Talvez seja tempo de assumirmos que a mudança começa na porta da escola e no lugar onde escolhemos estacionar.

 

Kari Guergous

*Artigo de opinião publicado na edição impressa de 18 de Dezembro