O PERFUME DA SERPENTÁRIA | Viagem ao fabuloso mundo da mentira (e da nossa relação com ela)*

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MENTIRA. Substantivo feminino de origem e etimologia pouco consensual. De entre todos os substantivos da Língua Portuguesa, é um dos que tem mais sinónimos: aldrabice, balela, inverdade, falsidade, fraude, treta, fabulação, embuste, broma, charlatanice, patranha, mendacidade, bazófia, etc. Qual será a razão desta sinonímia infindável? Será pelo encanto que desperta? Umberto Eco escreveu um dia que “as mentiras são mais fascinantes do que a verdade”. Será que a realidade não nos chega? Será que a vida fica mais encantadora quando recorremos ou aceitamos esse “artifício”?
Diversos autores já verteram linhas e mais linhas sobre a mentira, nomeadamente, sobre os diferentes tipos de mentira, procurando criar uma taxonomia mais ou menos elaborada. O objectivo deste escrito não é realizar uma tese de compleição científica sobre esta matéria. No entanto, parece óbvio que existem mentiras mais inóxias do que outras. As mentiras sociais são um tipo de pataratice que permitem uma mais sadia convivência. Quando um amigo nos apresenta o seu filho bebé, mesmo que a criaturinha tenha a afiguração de um leitão de Segóvia, dizemos sempre: “O BEBÉ É LINDO!!!”. Não custa nada (também será ele a ter de criar o mamífero, pouco importa) e assim evitamos transformar uma amizade em detestação. Quando alguém nos cumprimenta na rua: “Tudo bem?” Sabemos que não estará interessado em saber quais as vertentes da nossa vida que são uma lástima. Por isso, mentimos: “Está tudo impecável”. De entre estas mentiras mais inocentes, podemos também incluir os embustes com que engrupimos as criancinhas. Quando sustentamos a tanga do Pai Natal, o que pretendemos é alimentar a magia da quadra. Quando garantimos que os bebés são trazidos de Paris por uma cegonha, é para poupar os pequenos aos detalhes (nesta idade, fastidiosos) da sexualidade (mais tarde, com certeza que acharão de todo o interesse).
Existem também outros tipos de mentira. Estes menos insontes. Nomeadamente, quando, através da peta se procura obter um benefício pessoal. Quem não se rememora das elaboradas e infalíveis tácticas galanteadoras do Zezé Camarinha (até esta criatura já teve tempo de antena) para facturar com as inglesas: “Como as bifas são branquinhas, era chegar ao pé delas e dizer: You are very Brown”. Segundo ele, era “tiro e queda” (talvez desestimando a fascinação que a sua sunga e o seu bigode aprumado provocavam à celulite britânica). Dentro deste tipo de mentira (talvez um pouco mais asquerosa) inclui-se o “lambebotismo”. O “lambe-botas” procura através do embuste (sob a forma de “graxa”) atrair a atenção do seu superior ou daquele de quem procura tirar vantagem. Esta artimanha é muito apreciada pelos seus interlocutores e resulta quase sempre. Como efeito secundário, o “lambe-botas” vai perdendo a capacidade em se olhar ao espelho sem sentir vergonha (se lhe restar alguma).
Tal e qual como sobre a mentira, já se grafaram tomos e tomos sobre os que as dizem. Como em todas as práticas, também na arte da intrujice existem os formidáveis. Os mestres do logro. Os Cristianos Ronaldo da endrómina. Estes “Escolhidos” nem precisam de mentir para enganar os outros. Através dos mais engenhosos e imaginosos exercícios de retórica, conseguem aldrabar desmedidamente sem, propriamente, verbalizarem a mentira (assim não se comprometem). Mas não se julgue que é fácil. Apesar de existirem universidades (estivais) para ensinar esta doutrina, só alguns atingem o nível de excelência. Quem não se recorda da bênção de Cavaco Silva (segundo as informações que possuía?!) à “saúde” do BES nas vésperas da sua derrocada? Ele, que falava tão pouco, foi logo dar um “prego” desta magnitude. COITADO! QUE AZAR!!! Parece-me manifesto que Pombal (à sua escala) também tem gente capaz de figurar no quadro principal da Liga dos Campeões da impostura. Para estes doutos da perfídia, nós (liliputianos mortais) somos apenas o instrumento previsível e tacanho para que alcancem os seus desideratos. São numerosas as evidências de que, na realidade, SOMOS MESMO OS PALERMAS QUE NOS JULGAM.
Li há uns tempos um artigo do João Miguel Tavares sobre Bolsonaro (é raro concordar com este novo herói português. Este artigo é uma das magricelas excepções). A certa altura afirma que “um fascista é um fascista”. Seguindo a mesma elaboração intelectual de JMT, apetece-me dizer: UM MENTIROSO… É APENAS ISSO. UM MENTIROSO.

Aníbal Cardona
Consultor/Formador

*O autor deste artigo acha que continuamos a mentir aos linguistas que congeminaram o novo acordo ortográfico.

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Engenheiro Técnico Agrário pela Escola Superior Agrária – IPB – Beja. Licenciado em Segurança e Higiene do Trabalho e Mestre em Gestão Integrada da Qualidade, Ambiente e Segurança pela Escola Superior de Segurança, Tecnologia e Aviação – ISEC – Lisboa. Foi durante mais de uma década responsável de Departamento da Qualidade, Ambiente e Segurança em diversas empresas. É consultor e formador em Sistemas de Gestão. É Professor Adjunto Convidado na Escola Superior de Tecnologias da Saúde de Coimbra. Foi prelector / moderador em diversos congressos, seminários e work-shops sobre a temática da Segurança e Higiene do Trabalho e Gestão da Qualidade. É autor e co-autor de diversos artigos científicos publicados na área da Saúde Ocupacional. Desempenha actualmente as funções de vereador da Câmara Municipal de Pombal.