N(A) ESCOLA DA VIDA | Tod@s somos Pombal

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Desde que voltei, simultaneamente, a morar e a trabalhar em Pombal, voltei também a revisitar com renovada acuidade aquela rua, no centro, onde cresci a brincar com os vizinhos. E é com alguns deles, apesar de geograficamente distantes, que aprendo nos reencontros que há vizinhos que sempre o serão porque há uma matriz identitária que nos define, tatuada no tecido das nossas memórias.


Ainda hoje, Pombal é-me aquela sala de cinema com bancos de madeira e a biblioteca entre o Convento e a Câmara, onde passei horas de perder o conto tendo em conta os anos de vida que tinha. Hoje, são os edifícios apetrechados, revestidos da comodidade que os dias atuais requerem, onde podemos viajar pela cultura: entre os livros e a arte. São as peças promovidas pelo teatro local e pelo 7 Sóis 7 Luas, que se têm (re)inventado, descentralizando a arte e adaptando-se às dinâmicas e às especificidades, seduzindo a curiosidade de quem está, de quem passa, de quem abranda e observa. É o Cardal e a Ponte Dona Maria provisoriamente transformados em palcos fora de portas por força de uma pandemia que moldou as condutas e os cuidados. São as instalações artísticas que nos levam em viagens interativas, puxando-nos para outros mundos dentro do mesmo mundo, na Casa Varela ou nas ruas adjacentes.
É-nos o inegável privilégio de ir da serra ao mar, permitindo-nos refugiar em portos que nos distanciam da claustrofobia dos tempos e onde, saudavelmente, nos perdemos deles. É ir da capelinha embutida na pedra e da exsurgência no coração da Sicó à água salgada. Das cucas e da fragrância do rosmaninho aos trilhos arenosos onde os tufos de líquenes são reis. Dos muros de pedra à magia à qual as camarinhas transportam, em suaves imagens, as histórias de tantos. São as dunas e a vegetação que nos colocam perante um dos mais belos postais da nossa região. É o “nosso” mar e os grãos de areia que, hoje sendo nossos, amanhã vão nas marés fazer castelos de outros. É este vai e vem que, entre os trilhos dos dias, se renova, renovando-nos também.
É a avenida que vi ser rasgada em jeito de atalho e que tem vindo a prolongar a cidade em artérias de prédios e casario. É, ainda, a conexão de tradições que tem atravessado gerações, evocando vozes, lendas e figuras – autênticos carimbos da nossa cartilha. São as ruas de ilustres nomes que aqui fizeram História e, hoje, somos nós, que as habitamos, que nelas e delas fazemos as nossas porque tod@s somos Pombal.

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Embora os documentos legais a identifiquem como natural de Pombal, foi em Coimbra que respirou autonomamente pela primeira vez. Assim, desde o penúltimo dia de dezembro de 1982 assumiu um compromisso com a vida: aprender a ser. Quase duas décadas depois regressou à cidade do Fado e do Mondego para dar continuidade à sua formação académica na área de Ciências da Educação. Aprofundaria aqui o significado de outro pilar: aprender a conhecer. Começou a aprender a fazer em 2007, quando a socialização profissional lhe abriu as portas no ramo da Educação e Formação de Adultos, no qual tem trabalhado e realizado investigação. Gosta de “sair por aí” e observar e fotografar todas as esquinas. Reserva ainda tempo para a escrita, sentindo-a como um elixir lhe permite (re)descobrir uma energia anímica e uma força motriz nos cantos mais inóspitos aos quais muitos olhares não associariam qualquer pulsar. É, neste campo, autora de obras literárias individuais e de vários textos e poemas publicados em coletâneas. E é assim que lê, sente e inala o mundo, num permanente aprender a viver com os outros.