A UNIÃO EUROPEIA FALADA EM PORTUGUÊS | Populismo | n.m. povo + -ismo

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Populismo. Com certeza uma das palavras mais pronunciadas nos últimos 5 anos, mas se é palavra, é porque tem carácter e significado. Começou a soar ainda nos meus primeiros anos de faculdade, e era com frequência que interiormente me questionava: o que é ao certo o populismo? À minha volta, todos pareciam estar certos do que se tratava, e eu mantinha-me incapaz de encontrar respostas. Por acreditar que por aí haverá alguém com a mesma dúvida que eu, procurei esclarecer-me e espero esclarecer-vos a vocês.
Populismo deriva da palavra povo e, neste contexto, convém entender: o que é o povo? Quem dele faz parte? Nobreza, clero e povo são as estratificações do passado, e embora mascaradas se mantenham, entendemos que o povo é constituído todos nós, cidadãos portugueses, de igual forma– pelo menos aos olhos da Constituição Portuguesa.
O populismo tem vindo a espalhar-se pela Europa como consequência do desgaste do sistema democrático. Por cá, as ideias dos partidos portugueses não demonstram evolução ou inovação, sendo parcos na atuação sobre problemas estruturais e económicos. Por falta de soluções reais, muitos dos problemas dos portugueses de 2007 mantêm-se os problemas dos portugueses de 2021. São 14 anos marcados por um crescimento económico ténue, duas crises, uma financeira e outra da dívida pública, desemprego, troika, e o contínuo acentuar do descontentamento. A falta de soluções tem levado à erosão da democracia e estende o tapete vermelho à entrada no sistema político de partidos de índole populista, tanto de direita como de esquerda, que exploram as várias políticas dos ressentimentos.
Os populismos, dependendo da abordagem realizada, podem ser definidos como uma ideologia, um estilo político de comunicação, um movimento de renovação política, ou como uma estratégia política. O objetivo final passa sempre pela conquista ou aumento do poder, ao invés do alcance do bem-estar geral. Na conceção europeia, o populismo distingue-se como um método de atuação política que procura agradar às massas, através da abordagem de temas sensíveis a todos nós, tais como a corrupção e o desemprego. Em Portugal o populismo é empregue como uma estratégia política utilizada por um líder carismático (sendo exemplo, André Ventura) que procura governar o país com base no apoio direto (através da constante convocação de referendos) e sem mediadores dos seus apoiantes.
Em Portugal e na restante Europa, verifica-se a adoção de uma conduta política pouco profissional e de maus modos linguísticos, de forma a maximizar a atenção dos media (jornalistas) e do apoio popular ao partido. Ao adotar esta conduta, estes políticos desmarcam-se como líderes corajosos, capazes de «dizer as verdades» e de enfrentar a «elite», colocando-se ao lado do «povo». Entre aspas, a nomenclatura povo, dado que os líderes populistas criam uma divisão entre o povo e os apoiantes dos seus partidos – por exemplo, é criada uma separação entre os «portugueses de bem», que constituem o «verdadeiro povo», dos restantes portugueses, inimigos diretos, por defenderem uma posição é contrária.
Por norma, são oferecidas soluções fáceis e enganadoras para problemas complexos. Permitam-me dar o exemplo do projeto de lei de castração química para reincidentes em casos de violação, que além de disruptivo, não solucionaria o problema. A grande virtude dos líderes populistas é a sua capacidade de alcançar as pessoas mais descontentes com o sistema político, através de um discurso capaz de semear a esperança na mudança. Esta capacidade advém, regularmente, da responsabilização de minorias populares e étnicas, alvos fáceis para a frustração dos mais descontentes, pelo mal-estar económico e social.
Na iminência de novas eleições legislativas em Portugal, adivinha-se uma direita repartida, com o partido populista (Chega) a terminar com a medalha de grande beneficiado. Sendo que o exercício do voto materializa o exercício do nosso maior poder social e político, a ponderação do depósito do mesmo deve ser feita de forma informada e sempre interiormente questionada. Todos nós sabemos que grão-a-grão enche a galinha o papo.
Nota: um agradecimento especial à Dr.ª Teresa pelo empurrão e ao Rafael pelos alinhamentos lexicais.

Vitória Sá | Mestranda em Economia Internacional e Estudos Europeus

*Artigo de opinião publicado na edição impressa de 06 de Janeiro