OPINIÃO | Análise das Presidenciais – Concelho de Pombal 2021

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Procurando corresponder ao convite do Jornal de Pombal, para fazer uma análise, numa perspetiva sociológica, dos resultados eleitorais das presidenciais no concelho, focar-me-ei naquelas que me parecem ser as grandes linhas sociopolíticas daí resultantes.
A primeira premissa, que ressalta à vista, é o facto de os candidatos da Direita (Marcelo, Ventura, e Mayan) somarem mais de 80 % dos votos. Esta prevalência da Direita lê-se, também, no resultado do candidato apoiado pelo PCP (João Ferreira), posicionando-se atrás, até, de Tino de Rans. Este último recolhe a simpatia de um grande número de pombalenses, que, porventura, se identificam com o seu perfil genuíno e simples.
Por outro lado, numa altura em que, no concelho, no principal Partido, se vivem tempos conturbados, a votação do Chega é um dado a ter em conta que poderá representar mais um perigo do que uma oportunidade nas próximas autárquicas.
Já o facto de Ana Gomes ter tido um resultado abaixo dos 9%, é algo que não deixará de merecer a análise cuidada do PS que, se não encontrar uma figura carismática, corre o risco de ser, de novo, a terceira força política, no pressuposto de que o movimento liderado por Narciso Mota deixa de concorrer à Câmara.
Por fim, Tiago Mayan é, proporcionalmente, o oposto de Marisa Matias, na medida em que obteve o dobro dos votos do seu Partido, nas legislativas, e Marisa Matias menos de metade dos resultados obtidos, pelo BE, em 2019.
Marcelo é o grande vencedor, nestas presidenciais, conseguindo evitar uma segunda volta, mesmo com a elevada abstenção, em tempo de pandemia. No entanto, no cômputo geral destes resultados, acompanha uma reconfiguração da Direita em Portugal. André Ventura destaca-se pela sua ascensão, acompanhando a tendência nacional, ocupando o segundo lugar no concelho, podendo vir a ser um problema para o PSD, a nível local. Note-se que, particularmente, na freguesia de Pombal, ocupa o terceiro lugar, pelo que seria interessante dispormos de dados efetivos para perceber se o discurso radical, nomeadamente em relação à etnia cigana, influenciou o sentido de voto.
Na verdade, colocar André Ventura no centro da estratégia política (ao que assistimos nesta campanha, à exceção de Marcelo), contribuiu, claramente, para a sua ascensão.
Os pombalenses, tal como o restante povo português, manifestaram-se, enviando sinais de descontentamento ao poder tradicional que este não pode, de todo, ignorar, o que levará, necessariamente, à reflexão sobre a efetiva representatividade da classe política. Se a estratégia for a de debelar, eficazmente, uma ideologia emergente, não será através de tentativas de “ilegalização” que, por si só, já contrariam a ideia democrática, mas, sim, através das ideias e da sua discussão. Urge repensar o discurso político, com efetividade, para que não se caia (de novo) na ideia de que só a revolução pode superar as iniquidades do sistema capitalista. Só protegendo a Democracia, em Pombal e no país, (re)encontraremos o caminho do progresso civilizacional.


Ana Lúcia Ferreira
(Socióloga)