Elodie e Francisca trocaram o conforto de casa pelas aldeias mais isoladas

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Não pertencem a nenhuma organização formal. Não receberam instruções. Não tinham um plano. Tinham apenas uma decisão: sair de casa e ajudar.

Elodie e Francisca percorrem juntas as aldeias da freguesia de São Simão de Litém, batendo a portas, entrando em casas danificadas, enviando emails para seguradoras e ajudando a limpar destroços. “Temos de ser uns para os outros”, resumem.

Foi essa ideia simples que as levou a abandonar o conforto das rotinas e a entrar num território ainda com comunicações instáveis, com zonas sem água, sem luz e com muitas habitações danificadas.

O voluntariado começou de forma espontânea: um telefonema, um pedido de ajuda e uma decisão rápida. Francisca, de 19 anos, levantou-se ainda de madrugada e saiu da Golegã para vir ajudar. “Levantei-me às cinco da manhã, peguei no carro e vim. Nem pensei duas vezes.”

Desde então, os dias têm sido longos e sem horários definidos. Limpam casas, identificam situações vulneráveis, ajudam moradores a participar sinistros junto das seguradoras e acompanham equipas que distribuem cabazes alimentares. Mas, sobretudo, batem a portas — muitas vezes, às portas onde o que se vê de fora já é um sinal de aflição.

“Muitas pessoas não têm transportes, não têm familiares por perto e não sabem por onde começar. O primeiro passo é ir lá falar com elas”, explicam.

O trabalho é feito ao detalhe: fotografar estragos, enviar emails, orientar processos, sinalizar situações mais urgentes e acompanhar quem precisa de ajuda imediata.

O marido de Elodie e o namorado de Francisca juntaram-se também às tarefas, ajudando na colocação de coberturas provisórias em casas de idosos. “Há pessoas que não podem subir aos telhados. Arriscavam a vida. Temos medo que aconteçam outras tragédias”, confessam.

O contacto directo com a população foi clarificando as necessidades mais urgentes: telhados destruídos, falta de água, falta de luz e isolamento. Mais de uma semana após a passagem da depressão Kristín, São Simão de Litém continua com locais sem electricidade, sem geradores e sem água para consumo.

“As pessoas pedem essencialmente ajuda para os telhados. Chove dentro de casa.”

A dimensão humana das histórias encontradas é o que mais custa a largar. Francisca recorda uma habitação onde entrou recentemente: “Não havia praticamente nada dentro da casa. Nem comida no frigorífico. Uma senhora com mais de 70 anos a viver sozinha.” Além dos estragos, a idosa “ficou bastante ferida na cara, após uma queda”, diz, emocionada. “São histórias que nos ficam.”

Apesar do cansaço acumulado, a motivação mantém-se. Francisca está de férias da universidade e estuda Administração no Instituto Politécnico de Leiria. “Estava em casa a fazer o quê? Assim sinto que estou a fazer alguma coisa útil.”

Ana Laura Duarte
[Notícia publicada na edição 319 do Pombal Jornal, de 10 de Fevereiro de 2026]