Nunca fui à Tailândia. Sei, porém, que em Bangkok há um bairro português, uma espécie de Little Portugal. Kudeejeen – assim se chama – teve a sua origem no século XVI, quando os portugueses chegaram àquelas paragens e instalaram as suas atividades comerciais – embora não no lugar onde hoje existe, porque, no século XVII, devido a conflitos bélicos, a capital do reino foi destruída, e a nova foi construída naquilo que é a atual Bangkok.
Apesar dos tempos tumultuosos, os portugueses no reino de Siam não foram esquecidos, e foi-lhes atribuída terra para a sua nova localização – a de hoje, no bairro de Kudeejeen. Com o tempo, puderam construir uma igreja – a Igreja de Santa Cruz -, que permanece até hoje o centro nevrálgico da comunidade.
Por todo o mundo, as comunidades portuguesas, nascidas em séculos remotos, ou durante as décadas de emigração clandestina no século XX que o Estado Novo forçou, com as suas políticas de pobreza, miséria e atraso, têm os seus centros religiosos, culturais, desportivos e recreativos, que são formas de manterem vivas as suas raízes e a sua língua, de alimentarem o espírito de comunidade e de mitigarem as saudades de casa.
Este é, de resto, um impulso humano universal. Criar na terra estranha que nos acolhe, que buscamos por uma miríade de razões, um lugar de conforto. E ao mesmo tempo que procuramos aprender a sua língua e compreender os seus costumes, criamos espaço para as nossas cores, os nossos sabores, os nossos fervores.
Tem sido assim com a diáspora portuguesa desde há séculos. Mas agora Portugal passou a ser também, de forma indelével, país de imigrantes. Trazem a mão-de-obra necessária a quase todos os setores da economia. Estão nos empregos, mas também na esplanada, e as suas crianças – quando não deixaram a família longe a contar com as suas esforçadas poupanças – vão à escola, brincam no parque e jogam no clube da terra.
Em Portugal, há um partido cujo projeto político, que se sustenta no ódio e na divisão social, assumiu os imigrantes como principal inimigo. O líder, André Ventura, é pródigo em inventivas incendiárias, baseadas em falsidades e desinformação. Compraz-se com a violência policial e considera louvável a selvática “caça ao imigrante”. Mas este líder político não esconde que faz parte de um projeto mais vasto de hostilidade face às pessoas imigrantes. O seu “braço armado” é o grupo supremacista 1143, fundado pelo presidiário Mário Machado, que instiga ao ódio e tem no centro da sua atuação violência organizada contra imigrantes e outras minorias. A outra peça deste perigoso tabuleiro é o movimento Reconquista. O seu fundador, Afonso Gonçalves, é, tal como André Ventura e os elementos do grupo 1143, um defensor da remigração (e de outras perversões, como a de retirar o direito de voto às mulheres), isto é, a deportação em massa de todos os imigrantes que possam ameaçar a “pureza” racial portuguesa. Afonso Gonçalves faz carreira no ódio contra os imigrantes, contra as suas culturas e religiões. Há poucos dias, colocou-se à porta de um modesto templo sikh, numa aldeia alentejana, que rotulou de “uma pouca-vergonha” com que é preciso acabar, uma “invasão sem precedentes”, a grande “substituição”.
É desta gente que se rodeia André Ventura, o candidato presidencial, com o objetivo de instaurar a sua “Quarta República”, um estado policial onde quererá encher as prisões com todos os que se lhe opuserem, como declarou querer fazer com o primeiro-ministro espanhol, num congresso do Vox.
No dia 8, basta-nos que haja um candidato do lado da democracia e da decência.
Nas proximidades da Igreja de Santa Cruz, no bairro português de Banguecoque, coexistem serenamente um templo chinês e outro budista.
Lina Oliveira




































