DA ILUSTRE TERRA DO MARQUÊS | Clubes fora de serviço

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Aquela mensagem recebida no telemóvel, no último dia do ano, surpreendeu-me. Porque sabia que aquele amigo era dedicado, trabalhador, entusiasta, tinha um notável espírito de servir e de ser útil, desinteressadamente, sem quaisquer ambições pessoais ou outras. Estava há 30 anos no movimento em que se inseria aquele clube de serviços e a sua saída surpreendeu-me pelas razões referidas, embora fosse uma matéria que eu compreendia e conhecia bem, porque tinha tido uma experiência semelhante alguns anos antes.
Curiosamente, no dia seguinte, ou seja no primeiro dia do ano, dava um passeio, para descontrair, no jardim em frente do Hotel, onde tinham decorrido as festas de passagem do ano. O monumento, no centro da rotunda, evidenciava simplicidade e bom gosto. O emblema era conhecido e o lema também: ”Dar de si antes de pensar em si”. Não consegui deixar de raciocinar sobre este tema e passar as conclusões ao papel, considerando que valerá a pena exprimir um ponto de vista sobre uma realidade socialmente importante.
Os clubes de serviço tiveram, no século XX, um papel notável, em várias áreas. Colmataram dificuldades e carências sentidas pelas comunidades, graças ao trabalho voluntário e ao espírito de servir e de ser útil, dos seus membros. Existia uma seletividade à entrada, o que garantia uma certa “qualidade” do quadro societário, condição indispensável para obter resultados positivos. O objetivo era escolher os “melhores” profissionais e a sua diversidade era um fator de enriquecimento, porque as diversas experiências se completavam, no sentido de aproveitar e maximizar os recursos existentes.
A eleição do presidente que exercia o cargo durante um ano, escolhendo a sua equipa, constituía um fator positivo, impedindo que as pessoas se eternizassem no poder, situação muito frequente no nosso País, em diversos setores sociais, incluindo os ligados à atividade política. A “roda rodava”, o que permitia rejuvenescer a organização, os seus métodos de trabalho, novas ideias, outras iniciativas, melhorar a ação e os resultados. Mas, concluía-se depois que também tinha, frequentemente, efeitos contraproducentes, porque se um presidente trabalhasse muito e bem e tivesse um bom desempenho, isso aumentaria a responsabilidade dos que viessem a seguir porque, se fizessem menos, isso seria notado. O resultado traduzia-se num efeito perverso: em vez de o trabalho, quando meritório, ser elogiado acabava por ser criticado dada a responsabilidade e a obrigação de trabalhar que transmitia aos presidentes seguintes.
Isto teve como consequência um empobrecimento de alguns clubes, dado que se ia verificando um nivelamento por baixo. Entravam, às vezes, pessoas para se regenerarem de erros profissionais ou outros e, muitas vezes, mantinham-se para “branquear comportamentos”, porque estar ali dava alguma proteção social. Também sucedia que se verificavam tentativas de compensação, em termos de liderança, relacionadas com frustrações políticas ou outras.
O resultado, em muitos clubes, está à vista e é reconhecido como sendo a realidade atual. Se antes se verificavam atividades interessantes, em diversas áreas, especialmente na área social mas também na área cultural, essa ação foi-se perdendo, acabando por se instalar uma rotina empobrecedora e desinteressante. Isto teve e tem como consequência uma fraca assiduidade, motivando a redução e o envelhecimento dos quadros sociais dos clubes.
Poder-se-ia argumentar que as carências sociais e culturais das comunidades são menos evidentes na época atual. Infelizmente não será essa a nossa realidade e, mesmo que o fosse, seria sempre possível, usando a imaginação e a criatividade, implementar atividades úteis e necessárias que potenciariam a importância dos clubes e das suas atividades. Mas, para isso, era preciso trabalhar, investir tempo e somar vontades, de forma dinâmica, alegre e progressiva. Apoiar talentos, reconhecer o mérito, “puxar” para cima e para a frente.
De outro modo, a irrelevância do movimento agregador desses clubes de serviço será uma realidade que se acentuará nos próximos anos no nosso País. Mas, se a filosofia que esteve na sua génese for posta em prática de modo permanente e atuante, se a ação não se limitar a pedir externamente apoios para dar, se o lema for mesmo “dar de si sem pensar em si”, verificar-se-á um regresso às origens e estará garantido o sucesso no futuro.

Manuel Duarte Domingues
manuel.duarte.domingues@gmail.com

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Natural de Viuveiro, Vila Cã, Pombal (1948), residente em Pombal. Licenciado em Controlo de Gestão pelo Instituto Superior de Contabilidade e Administração de Coimbra. Contabilista e Consultor de empresas desde 1977, Revisor Oficial de Contas desde 1993. Fiscal Único no âmbito do Ministério da Saúde de diversos Hospitais EPE, desde 2002. Professor do Ensino Secundário (EICP) e Superior (ISCAC e ISLA). Serviço público: Oficial Miliciano de Administração Militar, Membro da Assembleia Municipal de Pombal e Presidente da Assembleia de Freguesia de Vila Cã. Cargos exercidos em associações: Vice-Presidente da Direcção da AHBVPombal; Presidente Conselho Fiscal da AICP–Associação dos Industriais do Concelho de Pombal, da AHBVP, da Santa Casa da Misericórdia de Pombal e do Sporting Clube de Pombal; Membro da Comissão Revisora Contas da Fundação Rotária Portuguesa. Livros publicados: “DA ILUSTRE TERRA DO MARQUÊS…” – 1º Volume (2011, 2ª edição 2013); 2º Volume (2016), reunindo crónicas publicadas em jornais e revistas e outros escritos, destinando-se, integralmente, o produto da venda a Instituições de Solidariedade Social.