DA ILUSTRE TERRA DO MARQUÊS | Clinton

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Ao olhar para aquele velho motor de rega, vieram-me à memória recordações dos meus tempos da juventude, associando também o nome a outras realidades mais atuais. Porque reconstruir a casa dos pais, a casa em que se nasceu, já lá vão, felizmente, muitos anos, é, antes de mais, uma questão sentimental. Não é um regresso às origens, porque agora a casa será mais moderna, mais cómoda, mais bonita e mais prática. Mas o sítio é o mesmo, o sol repete a mesma rota, algumas árvores ainda lá estão e a sua sombra faz lembrar a proteção que davam naquela época. Há uma familiaridade no ar e, apesar de já terem passado algumas dezenas de anos, parece que foram poucos, porque tudo é tão importante e tão próximo.
Depois, mudar as coisas antigas, os utensílios que, naquela época, eram necessários e bastante utilizados. As talhas onde se guardava o azeite: eram feitas de barro, vidrado na parte interior para garantir a impermeabilidade, com uma tampa redonda de madeira. Eram guardadas num local fresco da casa, na cave, onde a temperatura era mais baixa, garantindo assim a manutenção da qualidade daquele produto, de produção própria ou comprado, indispensável na alimentação. Também alguma alfaias agrícolas, dado que a maior parte das tarefas era feita manualmente: enxadas, de bicos e rasas, forquilhas, pás, machadas, etc.


Mas, o que chamou mais a atenção, foi o motor de rega que a fotografia documenta. A marca está bem à vista, na parte de cima do motor. O combustível era o petróleo, mas o arranque era feito com gasolina, coexistindo assim os dois tipos de combustíveis. Começava a trabalhar a gasolina, puxando um cordão que tinha sido previamente enrolado numa roda que punha o motor em marcha. Em seguida, mudava-se, numa pequena torneira, para petróleo que era mais barato. O problema é que, de vez em quando, não funcionava porque a “vela encharcava”, o que obrigava a tirá-la com uma chave adequada, soprar na parte inferior, ajustar uma pequena peça e voltar a repetir a operação. Os inconvenientes eram ficar nos lábios com o sabor a gasolina, nada agradável e a transpiração consequente.
O motor servia para tirar água dos poços, necessária para regar as culturas, tais como milho, batatas, hortaliças, etc. Isto já sucedia numa fase de maior progresso, porque, inicialmente, era tirada manualmente através de um balde suspenso num dispositivo a que chamavam balanço ou picota, o que exigia grande esforço humano, dado que tinha que ser feito com velocidade de modo a que resultasse um rego de água sempre a correr. Também havia os alcatruzes da nora, puxados por animais (vacas, mulas ou burros), o que era muito mais fácil.
Vendo aquele motor, já muito coberto com ferrugem devido à passagem do tempo, veio-me à memória o muito trabalho, o grande esforço humano necessário, numa economia agrária de subsistência, muito importante nessa época (décadas de 50/60 do século passado). Mas, também, com toda a naturalidade, a associação do nome a Clinton, que foi presidente dos Estados Unidos da América, sucedeu de forma automática, como não podia deixar de ser, dada a coincidência do nome.
Bill Clinton foi o 42º Presidente dos EUA, cumprindo dois mandatos, entre 1993 e 2001. Licenciado em Direito, foi o terceiro presidente mais jovem da história americana, tendo tomado posse aos 46 anos. Posicionando-se no centro-esquerda, foi responsável pelo período mais longo de expansão económica em tempo de paz do seu país, chegando a obter um superavit orçamental, também devido ao incremento da construção civil que, anos mais tarde, estaria na base da crise que afetou todo o mundo. Depois de sair da presidência criou uma fundação com o seu nome, para promover conferências e defender causas internacionais.
Perguntará o leitor curioso, o que é que Bill Clinton tem a ver com o motor? Provavelmente nada, apenas a coincidência do nome. Mas, também a época em que se passou o atrás descrito, dado que Bill Clinton nasceu em 1946. Fazendo uma retrospetiva histórica da evolução do Mundo desde essa época, parece que podemos chegar à conclusão de que, na segunda metade do século XX e neste quase primeiro quinto do século XXI, o nosso planeta desenvolveu-se mais do que nos séculos anteriores desta nossa civilização. Para onde vamos e onde iremos parar, são as perguntas fundamentais em relação ao futuro feito de incertezas, de dúvidas, de preocupações…

Manuel Domingues

manuel.duarte.domingues@gmail.com

*Artigo de opinião publicado na edição impressa de 14 de Março

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Natural de Viuveiro, Vila Cã, Pombal (1948), residente em Pombal. Licenciado em Controlo de Gestão pelo Instituto Superior de Contabilidade e Administração de Coimbra. Contabilista e Consultor de empresas desde 1977, Revisor Oficial de Contas desde 1993. Fiscal Único no âmbito do Ministério da Saúde de diversos Hospitais EPE, desde 2002. Professor do Ensino Secundário (EICP) e Superior (ISCAC e ISLA). Serviço público: Oficial Miliciano de Administração Militar, Membro da Assembleia Municipal de Pombal e Presidente da Assembleia de Freguesia de Vila Cã. Cargos exercidos em associações: Vice-Presidente da Direcção da AHBVPombal; Presidente Conselho Fiscal da AICP–Associação dos Industriais do Concelho de Pombal, da AHBVP, da Santa Casa da Misericórdia de Pombal e do Sporting Clube de Pombal; Membro da Comissão Revisora Contas da Fundação Rotária Portuguesa. Livros publicados: “DA ILUSTRE TERRA DO MARQUÊS…” – 1º Volume (2011, 2ª edição 2013); 2º Volume (2016), reunindo crónicas publicadas em jornais e revistas e outros escritos, destinando-se, integralmente, o produto da venda a Instituições de Solidariedade Social.