Ana Cabral: “Mais do que palavras, os bombeiros precisam de decisões”

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No ano em que assinala 114 anos, a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Pombal enfrenta um dos momentos mais exigentes da sua história recente, com contas pressionadas, infra-estruturas por recuperar após a tempestade Kristin e uma resposta operacional cada vez mais dependente de meios e profissionais que continuam a escassear. “O impacto é profundo”, resume a presidente da instituição, Ana Cabral, que alerta para a urgência de decisões estruturais num sector onde “o tempo corre contra nós”.

“As Associações Humanitárias viveram, durante décadas, essencialmente do voluntariado e da boa vontade das comunidades. Os 114 anos da nossa Associação não foram excepção”, refere, sublinhando, contudo, que “a sociedade mudou e, com ela, os desafios que diariamente se colocam”. Hoje, defende, “exige-se uma resposta de primeira intervenção cada vez mais profissional”, o que implica “a revisão das carreiras e a definição de remunerações justas, ajustadas ao risco permanente”.

Atrasos do Estado pressionam gestão

Um dos pontos mais críticos identificados prende-se com o financiamento. Ana Cabral é directa: “O impacto é profundo”. Os atrasos nos pagamentos por parte do Estado, através do INEM, da Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil (ANEPC) e das entidades hospitalares, colocam pressão acrescida sobre a gestão da associação.

“Em 2025 os apoios recebidos rondaram 1,311 milhões de euros, enquanto os encargos com pessoal ascenderam a cerca de 1,5 milhões de euros. Este desequilíbrio evidencia a vulnerabilidade da nossa estrutura”, explica, acrescentando que esta realidade “obriga a uma gestão financeira extremamente rigorosa, para assegurar que nada falha na resposta operacional”.

Reforço de equipas em avaliação

Sobre a criação de uma nova Equipa de Intervenção Permanente (EIP), tema recentemente levantado pelo município, a dirigente confirma que o processo está em análise e depende de articulação institucional.

“Quando manifestamos interesse na criação de uma EIP, existe já o entendimento por parte do Município quanto à sua importância”, refere, lembrando que o modelo de financiamento implica “50% dos encargos salariais suportados pela Câmara e os restantes 50% pela ANEPC”.

Ainda assim, deixa uma posição clara: “A sustentabilidade das Associações Humanitárias passa, inevitavelmente, pela profissionalização da primeira intervenção. Trata-se de uma área demasiado crítica para depender exclusivamente do voluntariado”. Para já, a corporação “aguarda com expectativa os resultados do processo de candidatura”.

Recursos humanos insuficientes

No plano operacional, a presidente reconhece a qualidade da resposta, mas alerta para limitações. “O nosso Corpo de Bombeiros tem assegurado uma resposta de socorro de elevada qualidade, muitas vezes para além do que é humanamente exigível”, afirma.

Apesar de o número de operacionais se manter, “os recursos humanos continuam a ser insuficientes face à dimensão do concelho e à existência de quatro quartéis”. A valorização da carreira continua a ser uma prioridade: “Mantemos a expectativa na definição de uma carreira estruturada e em condições salariais mais justas para uma profissão de risco permanente”.

Também ao nível dos meios persistem carências significativas. A corporação aponta como prioritária a aquisição de um Veículo Florestal de Combate a Incêndios (VFCI), um Veículo Especial de Combate a Incêndios (VECI) e uma auto-escada, num investimento global estimado em cerca de dois milhões de euros.

No socorro pré-hospitalar, a estratégia passa por um plano de renovação faseado: “Torna-se necessário um plano que prevê a aquisição de uma ambulância de socorro por ano, durante os próximos cinco anos”, explica.

“O tempo corre contra nós”

Num balanço do mandato, Ana Cabral destaca melhorias na gestão e na valorização interna, mas considera insuficiente. “Fizemos progressos ao nível da gestão, da proximidade e da valorização interna. Mas não é suficiente”, afirma.

“O tempo corre contra nós. É essencial reconhecer e valorizar as nossas pessoas, garantir melhores condições e requalificar os nossos meios”, reforça, sublinhando que “o papel do Estado é absolutamente determinante”.

Num plano simbólico, a dirigente deixa claro que o que está em causa vai muito além de celebrações. “O melhor presente seria o reconhecimento efectivo do papel dos bombeiros na sociedade, traduzido em medidas concretas e duradouras”, defende.

E conclui: “Mais do que palavras, os bombeiros precisam de decisões. Precisam de sentir que o país valoriza verdadeiramente quem, todos os dias, está na linha da frente para proteger vidas e bens.”

Quartéis ainda por recuperar após Kristin

Mais de três meses após a tempestade Kristin, os impactos continuam visíveis. “A tempestade causou danos significativos nos nossos quartéis e, até ao momento, não dispomos de financiamento para suportar as reparações necessárias”, afirma.

Segundo Ana Cabral, estão já em curso algumas intervenções, mas longe de resolver o problema: “Estamos a iniciar a substituição de portões e janelas danificados, mas permanecem intervenções estruturais por realizar, nomeadamente ao nível das coberturas e de diversos espaços interiores”.

Perante este cenário, a associação lançou uma campanha de angariação de fundos, embora com resultados ainda limitados. “A adesão, até ao momento, tem sido moderada”, admite, apontando como justificação “o elevado número de campanhas solidárias a decorrer em simultâneo”. Ainda assim, deixa um apelo: “Apoiar a recuperação dos quartéis é contribuir directamente para a segurança de toda a comunidade”.

Ana Laura Duarte
[Notícia publicada na edição 325 do POMBAL JORNAL, a 5 de Maio de 2026]