Chegámos ao ponto de o hospital público nos cobrar para sofrer. Não é piada, é o recibo do estacionamento.
Há uns tempos, levei a minha vizinha ao Hospital de Leiria. Tem mais de oitenta anos e queria ir de autocarro, sozinha. Não deixei. O transporte público para o hospital regional não é propriamente simples, nem acessível para quem já tem dificuldades. Quando chegámos, ficou incomodada, não queria que eu pagasse. Disse-me que não tinha dinheiro para me dar. Acabou ainda mais aflita por causa dos dois euros do parque do que pela consulta de neurologia.
O problema não é o acontecimento, é o procedimento.
Se vou a uma consulta no hospital público, não vou passear, nem fazer compras, nem passar o tempo. Curiosamente, nos centros comerciais estaciono sem pagar; no sítio onde vou tratar da saúde, pago. Se levo o meu filho ao pediátrico, posso não ter dois euros no bolso. “Ah, são só dois euros.” Está certo, para quem pode. Para quem conta os tostões, dois euros são uma refeição na escola, dois pacotes de leite, nem chegam para uma dúzia de ovos, ou outro bem essencial qualquer.
E quando já custa encher o depósito, ainda pagar estacionamento num hospital deixa um travo difícil de engolir.
Claro que há alternativas: deixar o carro fora do recinto do hospital, muitas vezes mal estacionado. Mas quando acompanhamos alguém com mobilidade reduzida, sem dístico, a realidade é outra. Tirar a cadeira da mala, tentar encaixá-la entre dois carros, abrir a porta com espaço contado, puxar a pessoa para fora do banco, levantá-la, rodar o corpo e colocá-la na cadeira sem bater em nada. Fechar portas à pressa, reorganizar tudo à volta, segurar malas, documentos, sacos. Depois vem o percurso, passeios inexistentes ou esburacados, rampas mal pensadas, subidas que parecem intermináveis. Quem empurra já vai em esforço, em suor, desajeitado, a tentar manter o controlo da cadeira, a desviar buracos, carros e obstáculos, antes sequer de entrar no hospital.
Só de ler, já cansa. Sem falar das ilegalidades cometidas ao estacionar mal e dos perigos a que submetemos os outros quando ocupamos metade da via, numa rotunda ou numa curva que tira visibilidade, impede o normal funcionamento do trânsito e põe todos em risco.
Também há a hipótese de ir de transporte público. Convém ir com meio dia de antecedência para tentar chegar a horas, fazer correspondências, perceber horários, identificar paragens na capital de distrito, um verdadeiro trabalho de estudo, muitas vezes sem conseguir conciliar com o agendamento da consulta.
Então, porquê cobrar a quem já chega cansado? A quem já vai stressado? A quem está sem saber como vai correr? Porquê aproveitar cada entrada como uma pequena fonte de receita? A saúde pública não devia funcionar assim. Não devia haver lugar para este tipo de cobrança, quase automática, quase indiferente à realidade de quem ali entra. E o cúmulo, quase uma piada de mau gosto, é que em muitos hospitais privados o estacionamento não se paga.
A saúde pública não devia ter portagem, porque ninguém escolhe estar doente.
Kari Guergous




































