QUELQUES MOTS | Desengatada!

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Kari Guergous

Há dias trataram-me de feminista ressabiada. Confesso que me ri. Ressabiada de quê, perguntei-me eu. Da vida não é, seguramente. tive e tenho uma vida cheia, imperfeita como todas, mas construída com escolhas, trabalho, afetos, liberdade e responsabilidade. Ressabiamento implica amargura, frustração, vontade de recuar. Ora, se há coisa que o feminismo me ensinou foi precisamente o contrário: o caminho é sempre em frente.

Ser feminista não é odiar homens, não é querer inverter opressões, não é viver num permanente estado de zanga com o mundo. Ser feminista é acreditar que mulheres, homens e quem se identifica com outro género devem ter as mesmas oportunidades, os mesmos direitos, o mesmo respeito. É simples, quase banal. E talvez por isso incomode tanto. Porque quando se torna evidente, deixa de haver desculpas.

Toda a gente deveria ser feminista porque toda a gente beneficia disso. As mulheres conquistaram o direito ao voto, ao estudo, ao trabalho remunerado, à autonomia sobre o seu corpo e à palavra pública. Conquistaram também o direito de dizer não, de escolher, de errar e de recomeçar. Mas os homens também ganharam. Ganharam o direito de não serem apenas provedores silenciosos, de cuidarem, de sentirem, de serem pais presentes sem serem olhados de lado. Ganharam liberdade emocional, ainda que nem sempre saibam reconhecê-la.

O feminismo não destruiu a família, como tantas vezes se ouve dizer. Transformou a ideia de família. Tornou as relações mais justas, mais conscientes, mais baseadas na escolha e não na obrigação. O amor deixou de ser prisão e passou a ser encontro. Às vezes falha, claro. Mas falhava muito mais quando não havia escolha nenhuma.

A igualdade de género não é uma moda, nem uma guerra cultural, nem uma ameaça aos bons costumes. É uma evolução social, como tantas outras que hoje damos por adquiridas. Houve um tempo em que parecia impensável que mulheres estudassem, trabalhassem, votassem ou opinassem. Hoje, parece absurdo imaginar o mundo sem isso. É assim que o progresso funciona. Primeiro provoca riso, depois provoca medo, e finalmente torna-se normal.

Não sou uma feminista ressentida. Sou uma feminista agradecida.

Agradecida às mulheres que vieram antes de mim e que pagaram um preço alto para que eu pudesse andar de cabeça erguida. Agradecida também aos homens que compreenderam que igualdade não retira nada, apenas acrescenta. O feminismo não quer vingança, quer justiça. Não quer superioridade, quer dignidade. E se isto é ser ressabiada, então talvez o problema não esteja no feminismo, mas no desconforto que a liberdade ainda provoca em quem prefere ficar parado no passado.

Kari Guergous

*Artigo de opinião publicado na edição impressa de 29 de Janeiro