Quando o vento começou a assobiar naquela madrugada, Maria Esmeralda Barbosa ainda pensou que seria apenas mais uma noite de temporal. Mas o som não parava. Crescia, aproximava-se, tornava-se estranho. Pouco depois, vieram os estrondos.
“Eu nunca gritei tanto na minha vida”, conta. Tem 63 anos e vive sozinha numa casa onde construiu grande parte da sua vida. Na madrugada da passagem da depressão Kristín, acordou com o vento a bater com violência nas persianas. Ainda ouviu os bombeiros a passar na estrada próxima, sinal de que algo grave já estava a acontecer na região. Minutos depois, a tempestade chegou à sua porta.
“Comecei a ouvir um barulho muito grande. De repente, os destroços estavam todos à frente da janela. Caiu tudo.”
A totalidade do telhado foi arrancada pela força do vento e projectada para a frente da habitação. Hoje, a casa está praticamente descoberta, exposta à chuva e ao frio. “Pelo menos já consegui que me metessem aqui uns plásticos”, acrescenta.
“Destruiu-se-me tudo. Tudo, tudo”, repete, enquanto observa as paredes já marcadas pela humidade.
Nessa noite, desceu para o piso inferior e procurou abrigo. O medo foi imediato. “Tive muito medo: pensei mesmo que ia levar a casa toda.”
Quando amanheceu, saiu para a rua e percebeu a dimensão dos estragos. “Levantei-me e pensei: ai a minha vida.” A frase surge curta, mas carrega décadas de história.
Maria Esmeralda Barbosa construiu a vida com trabalho diário e sucessivos recomeços. Tinha 25 anos quando ficou sozinha com quatro filhos pequenos, após o marido emigrar. “Fui pedir ajuda para criar os meus filhos e nunca tive apoio de ninguém. Criei-os sozinha, a trabalhar aos dias.”
Trabalhos agrícolas, limpezas, o que aparecesse. O objectivo era simples: garantir que os filhos cresciam, estudavam e conseguiam construir o seu caminho.
Ao longo dos anos enfrentou novas perdas. Um dos filhos morreu aos 19 anos, poucos dias após o nascimento da filha. Mais tarde voltou a casar, ficando viúva há poucos anos. A casa permaneceu como o centro da sua vida e da família.
Foi também um projecto feito ao longo do tempo, pequenas obras, melhorias progressivas, espaços adaptados às necessidades da família. Agora, a casa voltou a ser apenas estrutura ferida.
Sem seguro, a incerteza é total. Nos últimos dias recebeu indicações para procurar apoio junto da Junta de Freguesia e acompanha com expectativa as medidas anunciadas pelo Governo para vítimas da tempestade. “Vou amanhã à Junta ver o que posso fazer. Só quero o telhado. Já não quero mais nada.”
O pedido resume a urgência do momento: voltar a ter abrigo. Entretanto, a solidariedade começa a chegar. Voluntários que distribuíam cabazes alimentares e bens essenciais na zona decidiram parar quando viram a casa. “Percebemos que esta era uma das situações mais urgentes”, explicam.
Entre sacos de mantimentos e palavras de apoio, a realidade mantém-se dura. A casa continua exposta e a chuva continua a entrar. A cada dia que passa, os danos aumentam.
Dentro da habitação, a humidade já marca paredes, pavimentos e divisões. O tempo tornou-se um adversário adicional.
“Só quero o telhado”, repete. Porque, neste momento, é isso que separa a casa do céu.
Ana Laura Duarte
[Notícia publicada na edição 319, de 10 de Fevereiro de 2026, do Pombal Jornal]







































