O PERFUME DA SERPENTÁRIA | Ideologia, essa coisa…*

0
1446

Ideologia não é um conceito fácil de definir. Possui vários significados e concepções. Não me vou alargar na interpretação filosófica do termo, mas apenas centrar-me na interpretação mais corriqueira e de senso-comum: Ideologia é um ideal contruído por pensamentos, ideias, doutrinas que materializam uma visão da sociedade e do mundo. O século XX foi pródigo no aparecimento de várias correntes ideológicas, nomeadamente: fascista, comunista, capitalista, anarquista, nacionalista, entre outras. Apesar de não ser dado a maniqueísmos, os princípios com que me rejo fazem com que rejeite subliminarmente algumas delas. Com outras simpatizo em diferentes graus de entusiasmo. Outras ainda, apenas as compreendo. A evolução da sociedade faz com que, cada vez mais, os movimentos políticos se vão desprendendo da rigidez dos manifestos ideológicos originais e adaptando a sua essência e princípios à realidade e desafios dos dias de hoje.
A última frase do parágrafo anterior aplica-se quando se trata de um discurso político sério. No entanto, vamo-nos dando conta de que os termos política e seriedade dificilmente coexistem na mesma frase. Ora vejamos: a propósito do encerramento do balcão da Caixa Geral de Depósitos (CGD) do Louriçal, o nosso presidente da câmara, num registo de estrepitosa indignação, ameaçou retirar o dinheiro da câmara municipal da CGD como forma de protesto. Entendo que a primeira missão de um autarca é a defesa da sua população. Talvez fosse mais producente tentar uma negociação, mas para o caso não interessa. O que registo nesta tomada de posição do presidente é a sonsice com que assume esta (inútil) tomada de posição. Não é segredo para ninguém a proximidade (quase romântica) entre o nosso presidente da câmara (e acólitos) com o ex-Primeiro Ministro Passos Coelho. Num cenário de continuidade de Pedro “O Privatizador” como governante, atrás do BPN, da EDP, da REN, da Fidelidade, da EGF, da ANA, da TAP, dos CTT, a CGD não escaparia à vertigem, com a consequente razia na rede de balcões. Simpatizar com “O Privatizador” significa partilhar a sua visão ultra-liberal da sociedade. Por isso, palpita-me que neste panorama hipotético, a reacção do nosso presidente seria diferente, perdendo assim a oportunidade de demostrar a mestria com que maneja o oportunismo político e o populismo.
Lamento profundamente que o Louriçal tenha perdido o seu balcão da CGD. Transmite à população uma sensação de retrocesso. No entanto, seria importante reflectirmos sobre as causas desta regressão: Pombal tem perdido população, tem envelhecido, tem perdido serviços, tem sido incapaz de atrair emprego qualificado, tem perdido riqueza. Enquanto vereador recordo-me de questionar o presidente em relação à inexistência de um plano desenvolvimento para a cidade e para o concelho. Uma projecção do que poderemos ser daqui a 20 / 30 anos. Um plano que tornasse claro quais as áreas a investir ou a desinvestir. Um plano que nos ajudasse a traçar uma estratégia, um caminho. Como resposta, obtive uma parafernália de desconexões vertidas do alto da sua habilidade oratória para dizer o que já sabia: Em Pombal navega-se à vista.
A realidade actual determina que as respostas extravasem o âmbito político e se consubstanciem na vertente analítica. É fundamental que os territórios se valorizem através da reflexão dos seus elementos de diferenciação positiva. Importa identificar em que é que podemos ser melhores do que os outros e investir fortemente nesses elementos. Pombal tem muitos. A nossa situação geográfica, a diversidade e especificidade do seu território, a sua identidade cultural nas suas diferentes vertentes, a suas idiossincrasias sócio-económicas. Nestas 3 décadas de poder laranja temos assistido a uma governança que tem como principal objectivo a manutenção do poder. Como resultado temos um território incapaz de se diferenciar e desenvolver, que vai definhando. Mas em contraponto, os caciques e os boys (and girls) estão cada vez mais anafados. Talvez que, com este encerramento, se tornem mais claras para todos as consequências do caminho que temos trilhado.

*O autor deste artigo acha que o novo acordo ortográfico devia encerrar.

Partilhar
Artigo anteriorN(A) ESCOLA DA VIDA | Mur(r)os que falam
Próximo artigo“Bodo dos Pequeninos” traz diversão à zona desportiva
Engenheiro Técnico Agrário pela Escola Superior Agrária – IPB – Beja. Licenciado em Segurança e Higiene do Trabalho e Mestre em Gestão Integrada da Qualidade, Ambiente e Segurança pela Escola Superior de Segurança, Tecnologia e Aviação – ISEC – Lisboa. Foi durante mais de uma década responsável de Departamento da Qualidade, Ambiente e Segurança em diversas empresas. É consultor e formador em Sistemas de Gestão. É Professor Adjunto Convidado na Escola Superior de Tecnologias da Saúde de Coimbra. Foi prelector / moderador em diversos congressos, seminários e work-shops sobre a temática da Segurança e Higiene do Trabalho e Gestão da Qualidade. É autor e co-autor de diversos artigos científicos publicados na área da Saúde Ocupacional. Desempenha actualmente as funções de vereador da Câmara Municipal de Pombal.