HIC ET NUNC | Algum betão e pouca estratégia: o desperdício silencioso de Sicó–Alvaiázere

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Nos últimos fins de semana estive em ações de sensibilização e descoberta com operadores turísticos. Em Pombal com o Belém Hotel e na Chanca – Rabaçal com o meu amigo e presidente da Íris – Associação Nacional de Ambiente, José Pais. O projeto Villa Chanca vai para além do sítio e da casa…são pessoas, são experiências, são atividades, são histórias, é partilha, é natureza, é gastronomia silvestre, é paixão e conhecimento.

No maciço de Sicó–Alvaiázere, entre encostas calcárias, muros de pedra seca e prados moldados por séculos de gestão agrícola, cresce em silêncio um património natural de enorme valor.  Discretas, pequenas, muitas vezes invisíveis ao olhar apressado, existem dezenas de espécies de orquídeas selvagens, que representam não apenas biodiversidade, mas também identidade cultural e equilíbrio ecológico, constituindo uma prova de que desenvolvimento e conservação podem coexistir, se houver visão.

A associação até já existe, mas a sua ação e a união de esforços intermunicipal tarda em se fazer notar e isso é cada vez mais difícil de justificar.

A Terras de Sicó – Associação de Desenvolvimento foi criada exatamente para pensar o território de forma integrada, articular municípios e promover novas oportunidades económicas e turísticas. Reúne os municípios de Alvaiázere, Ansião, Condeixa-a-Nova, Penela, Pombal e Soure, oferece escala, experiência e instrumentos para liderar projetos estratégicos.

No entanto, apesar da existência de dezenas de programas e linhas de financiamento que estão à disposição, Sicó–Alvaiázere continua sem um programa estruturado de turismo de natureza que valorize a biodiversidade do maciço.

Os percursos interpretativos até existem, mas falta a capacitação de guias, roteiros de observação de flora ou posicionamento em nichos internacionais. São em grande maioria, ideias dispersas, sem ações coordenadas com a gastronomia e os produtos endógenos.
Os fundos existem, Portugal 2030, LEADER, PRR, Fundo Ambiental,  mas sem articulação e estratégia, o dinheiro continua a passar-nos ao lado, sem criar riqueza para quem por cá, insiste em viver e investir.

Enquanto regiões como o Barrocal Algarvio ou o Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros começam a estruturar experiências de observação de flora e turismo botânico, Sicó–Alvaiázere permanece fora do mapa. Trata-se de turismo de nicho, de pequeno impacto e alto valor acrescentado, capaz de atrair visitantes qualificados, com interesse em botânica, fotografia de natureza e experiências autênticas, ao qual se poderiam associar a observação de aves ou a fantástica “brama”, que ocorre no Outono, durante período de acasalamento do veado-vermelho. A estas actividades podiam juntar-se o turismo gastronómico, a enologia e muitas outras experiências locais.

A oportunidade é dupla: gerar receita e ao mesmo tempo proteger o território. As orquídeas dependem de paisagens abertas, solos pobres e práticas agrícolas de pouco impacto natural.

Valorizar economicamente esses habitats cria incentivos para a sua conservação, transformando a preservação num recurso e não num custo.

O debate público continua refém da lógica da obra visível: betão, inaugurações, investimentos medidos em metros de estrada, milhões gastos ou em fitas cortadas. Estruturas que se erguem como monumentos imponentes à primeira vista, mas muitas vezes desligadas do território que as rodeia, sem raiz, sem ecologia, sem um ecossistema, sem continuidade, em contraste com as orquídeas e o seu prado calcário. Discretas, exigentes, dependentes de equilíbrio e conhecimento, mas profundamente enraizadas no seu habitat.
Duas visões opostas de desenvolvimento, uma efémera, politicamente rentável e imediatista, outra duradoura, sustentável e enraizada no território.

Quantas candidaturas poderiam já estar a ser preparadas com base neste recurso, lideradas pela própria associação que existe para isso? Quantos projetos-piloto poderiam já estar no terreno, ligando municípios, associações e universidades sob uma estratégia comum?

Infelizmente, na realidade são poucos, pouquíssimos!

Ainda assim, quando chega o momento de decidir, não é precisamente para isso que votamos? Para que quem se candidata, assuma a responsabilidade de fazer acontecer? Com visão, estratégia e compromisso para com o território que representam? Não é sempre isso que procuram evidenciar?

O que Sicó–Alvaiázere precisa não é de mais diagnósticos ou estudos de potencial. Precisa de liderança concreta, articulação entre municípios, mobilização de associações locais e capacitação de agentes de turismo e conservação.

Porque, no fim, o território fala por si e a capacidade de Sicó–Alvaiázere se afirmar como destino de natureza diferenciado, depende de quem entende que desenvolvimento é muito mais do que obra visível.

É estratégia.
É compromisso.
Sem inteligência territorial (cada vez mais rara entre concelhos), continuaremos condenados, do ponto de vista turístico, a três meses de praia.

Emanuel Rocha