QUELQUES MOTS | A mãe natureza não vota, mas responde

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Kari Guergous

Desde 28 de janeiro estamos submetidos a um comboio de tempestades: Kristin, Leonardo, Marta, Nils, Oriana, Pedro, Regina e talvez Samuel, que aguarda activação caso surja uma depressão de alto impacto. O assobio perverso, constante e ameaçador do vento ficou nos ouvidos como um trauma assustador, tal como a água que tanta falta nos fez no ano passado e que agora até cai dentro de casa.

A realidade faz lembrar a história infantil dos três porquinhos. Só que, desta vez, no lugar do lobo a soprar para mandar as casas pelo ar, está a mãe Natureza.

Uma vista sem paisagem: tudo está no chão, tombado, arrancado ou esburacado. É mais fácil contar pelos dedos de uma mão o que ficou intacto do que precisar de passar para a segunda. Para quem observa à distância, são apenas episódios meteorológicos. Para quem os viveu, são dias que não se esquecem. Ainda hoje há famílias a viver fora da normalidade.

Durante décadas, cientistas, investigadores e ambientalistas avisaram-nos. Disseram-nos que a exploração desenfreada dos recursos naturais, a desflorestação, a poluição e a obsessão por um crescimento económico ilimitado teriam consequências. Tivemos a COP21, em Paris, em 2015, cheia de compromissos e expectativas, hoje quase esquecida. A Natureza não participa em debates parlamentares nem vota em eleições, mas responde sempre. Desde nova que me repetiram para não desafiar os oceanos, as montanhas… para os tratar com respeito.

Talvez por isso estas tempestades nos impressionem tanto. Recordam-nos algo que preferimos esquecer: somos frágeis. O ser humano habituou-se a acreditar que domina tudo. Construiu cidades gigantes e economias globais, mas bastam algumas horas de vento e chuva para expor essa ilusão.

A crise climática deixou há muito de ser um aviso distante. Está aqui. Manifesta-se em secas prolongadas, incêndios devastadores, inundações e fenómenos extremos cada vez mais frequentes. Ignorar esta realidade não a fará desaparecer.

Perante isto, seria de esperar responsabilidade política e visão de futuro. Infelizmente, muitas vezes falta coragem para enfrentar o problema de frente. Em vários países, e também em Portugal, a extrema-direita continua a mostrar uma preocupante indiferença perante a crise ambiental. Entre o negacionismo climático e a defesa cega de interesses económicos imediatos, o ambiente torna-se apenas mais um tema descartável no discurso político.

Mas a Natureza não se impressiona com slogans nem com campanhas eleitorais. Precisa apenas de algo que parece cada vez mais raro: respeito.

Respeito pela fauna, pela flora, pela terra, pelos rios, pelas florestas e pela vida que depende deles. A mudança começa com cada um de nós. Pequenas escolhas diárias, somadas, podem fazer a diferença: reciclar, poupar água, evitar desperdícios ou perguntar se precisamos mesmo de pegar no carro.

Cada tempestade é um aviso claro. Não somos donos do mundo. Somos apenas hóspedes nele.

Kari Guergous

*Artigo de opinião publicado na edição impressa de 10 de Março