Há anos em que o regresso às aulas traz mochilas novas, livros, sapatos apertados e a velha discussão sobre quem leva os miúdos à escola. Este ano, em Pombal, podemos acrescentar à lista obras, contentores, atrasos e alguma ginástica de comunicação.
Antes de mais: sim, queremos escolas novas. Bonitas, seguras, modernas e adequadas às nossas crianças. Ninguém quer o contrário.
A Conde Castelo Melhor está a ser reconstruída e a Gualdim Pais está também em requalificação. São investimentos necessários e importantes para Pombal.
Mas quando uma obra se atrasa, não são apenas os alunos que ficam afectados. É toda uma comunidade escolar: directores, professores, administrativos, auxiliares e famílias, todos obrigados a adaptar horários, espaços e rotinas.
Há um custo humano e psicológico nestas situações que raramente aparece numa folha de Excel. Uma escola não é apenas paredes, salas, mesas e computadores. É uma comunidade humana, com rotinas, relações, expectativas e também cansaço.
Podemos, naturalmente, apontar responsabilidades contratuais ao empreiteiro, quando for caso disso. Mas há quem tenha de gerir os efeitos desses atrasos no terreno, perante uma comunidade que precisa de respostas.
Os pais e a comunidade escolar não votam no empreiteiro. Votam em quem governa.
E depois há uma palavra pouco glamorosa, quase esquecida: manutenção.
Pode evitar que daqui a vinte ou trinta anos estejamos outra vez a dizer que um edifício está degradado e que é preciso demolir e fazer de novo. Talvez tenhamos de gostar mais da manutenção e menos da inauguração, embora haja manutenções inauguradas.
Não digo que tudo deva ser remendado. Há edifícios que precisam de ser reconstruídos. Mas, depois de investir numa escola nova, estamos também a pensar na sua manutenção para as próximas décadas?
Porque construir é uma decisão. Manter também.
E isto leva-nos a outra questão sobre Pombal e a forma como pensamos a cidade.
Durante a obra da Conde Castelo Melhor, o Município arrendou as instalações da Falinha. Não questiono a necessidade da solução. Pergunto se, quando possível, não faria sentido estudar também a aquisição de património que possa servir a cidade no futuro.
Não sei se comprar seria melhor. Não encontrei informação pública que permita afirmá-lo. Mas a pergunta merece ser feita.
Aliás, se as obras das duas escolas não tivessem acontecido em simultâneo, a Falinha poderia eventualmente ter servido também como solução temporária para os alunos da Gualdim Pais, em vez de se recorrer agora a contentores no recinto escolar.
É esta a diferença entre gerir o presente e pensar o futuro.
Pombal não termina em 2026. As crianças crescem, as famílias mudam, a cidade transforma-se e as necessidades educativas também.
E quando falamos de educação, crianças, trabalhadores, dinheiro público e legado, não basta entregar uma obra e esperar que tudo corra bem. A comunicação também conta. Quando as pessoas não sabem o que se passa, instala-se a dúvida, cresce a insatisfação e começam a circular versões que rapidamente fogem ao controlo.
Pensar no edifício e também em quem o utiliza. Na construção e na manutenção. Na solução imediata e no património futuro.
Kari Guergous