Um pequeno réptil que poderá pertencer a uma espécie ainda desconhecida pela ciência e um saurópode de grandes dimensões, considerado um dos maiores braquiossaurídeos encontrados na Europa. As duas descobertas feitas em Santiago de Litém estiveram em destaque no XII Congresso Nacional de Geologia, realizado no final de Junho, em Évora.

Os trabalhos apresentados resultam da investigação de fósseis provenientes das jazidas de Andrés e da Junqueira. Com cerca de 150 milhões de anos, as rochas do Jurássico Superior de Pombal têm revelado uma diversidade significativa de vertebrados, dando origem a várias publicações científicas e consolidando o concelho como um território de referência para a paleontologia europeia.

Conhecida desde a década de 1980, a jazida de Andrés já forneceu restos de peixes, crocodilomorfos, pterossáurios e, pelo menos, sete espécies de dinossáurios. Foi também naquele local que surgiu a primeira evidência convincente da presença de um dinossáurio do género Allosaurus fora da América do Norte.

Uma das investigações agora divulgadas centra-se num esfenodonte, grupo de répteis actualmente representado apenas pela tuatara da Nova Zelândia, mas muito mais diversificado durante a era dos dinossáurios. O fóssil preserva um crânio praticamente completo e a metade anterior do esqueleto articulado, constituindo um dos exemplares mais completos deste grupo conhecidos no Jurássico Superior europeu.

 Uma espécie por descobrir

O estudo, apresentado pelo paleontólogo Francisco Ortega, do Grupo de Biología Evolutiva da Universidad Nacional de Educación a Distancia (UNED), recorreu a tomografia computorizada e modelação tridimensional. As análises indicam que o animal pertence a um grupo até agora conhecido sobretudo na América do Norte, embora apresente características únicas que poderão confirmar a existência de uma nova espécie. A descoberta ajuda igualmente a compreender as ligações ocasionais entre as faunas norte-americanas e do Sudoeste da Europa, através do então proto-Atlântico Norte.

O congresso recebeu também novos dados sobre o saurópode encontrado na jazida da Junqueira, cujos restos foram extraídos em 2015. A investigação, liderada por Pedro Mocho, do Instituto Dom Luiz, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, e do Museu Nacional de História Natural e da Ciência, incidiu sobretudo na análise das vértebras dorsais.

As características anatómicas permitiram confirmar a afinidade do exemplar com os braquiossaurídeos. Segundo os investigadores, “trata-se de um dos maiores indivíduos deste grupo encontrados na Europa e apresenta semelhanças com o Lusotitan atalaiensis, espécie descoberta em rochas da mesma idade, na região da Lourinhã, e descrita em Portugal na década de 1950”.

Os estudos vão prosseguir, incluindo a comparação com outros fósseis encontrados em Monte Agudo, em Vila Cã, e nas Mouriscas. As descobertas reforçam a relevância de Pombal e da Bacia Lusitaniana, considerada uma das principais regiões europeias para o estudo dos dinossáurios que viveram há cerca de 150 milhões de anos.

A investigação envolve instituições nacionais e internacionais e conta com o apoio da Câmara Municipal de Pombal, das juntas de freguesia de Santiago de Litém e Vila Cã, da Fundação para a Ciência e a Tecnologia e dos proprietários dos terrenos de Andrés e da Junqueira.

Ana Laura Duarte
[Noticia publicada na edição 330 do POMBAL JORNAL, de 21 de Julho]