A Art Movement começou há 15 anos, com uma única turma e uma sala por cima de um ginásio. Hoje tem cerca de 100 alunas, quatro professoras, grupos de competição premiados e uma nova escola, inaugurada a 20 de Junho na Zona Industrial da Formiga, em Pombal. Pelo caminho, houve crescimento, mudanças de espaço, uma tempestade que baralhou todos os planos e a decisão de Daniela Vinhas de deixar o fitness para se dedicar inteiramente à dança.
“Sentia que isto era uma prioridade na minha vida”, explica a directora artística. O espaço anterior já não acompanhava a dimensão da escola. As turmas estavam maiores e havia vontade de desenvolver outro tipo de trabalhos, mas faltavam condições. A solução passou pelo trespasse da área de fitness e pela criação de um espaço exclusivamente dedicado à dança.
Quando o processo estava em andamento, porém, a tempestade destruiu o local que seria trespassado e atrasou as obras da nova escola. Durante alguns meses, a Associação da Charneca cedeu um espaço onde as turmas puderam continuar a ensaiar. “Foram incríveis, porque nós nunca sabíamos quando é que as obras iam acabar”, reconhece Daniela Vinhas.
A nova casa abriu finalmente portas a 20 de Junho. Tem uma sala de ensaio maior, camarins, zona de convívio e um espaço onde as crianças e os jovens podem estudar.
Uma escola, várias gerações
Até agora, a Art Movement trabalhava sobretudo com crianças e jovens, entre os seis e os 20 anos, nas áreas das danças urbanas, hip-hop e contemporâneo. O novo espaço vai permitir alargar a oferta a outros públicos, incluindo adultos, com novas modalidades e aulas de danças afro-latinas, como a salsa.
“Sabíamos que havia muitas pessoas de Pombal a deslocarem-se a outros sítios para terem este tipo de aulas”, explica. A ideia é criar uma escola onde possam dançar filhos, pais e até avós.
A mudança permite ainda explorar actividades artísticas durante as férias. O primeiro Summer Camp nasce da convicção de que existe muita oferta de Verão em Pombal, mas poucas propostas ligadas à dança, ao teatro, à música, à fotografia e ao vídeo. “Vamos ao encontro daquilo que achamos que está a faltar na nossa cidade.”
Apesar da aposta na competição, Daniela Vinhas insiste numa ideia: a dança não pode ser reservada aos melhores. “Toda a gente devia dançar, independentemente de achar que dança bem ou mal.” Nas aulas regulares, o principal objectivo não são os prémios. “Quero que os miúdos se sintam bem, estejam felizes e se divirtam a fazer aquilo de que gostam.”
A competição, reconhece, exige um perfil diferente. Implica rigor, treino e capacidade para lidar com a pressão, mas deve estar disponível para as crianças e jovens que gostam dessa adrenalina.
A Art Movement tem três grupos competitivos. A equipa sénior foi campeã intercontinental no ano passado e, este ano, conquistou um segundo lugar num torneio nacional e o terceiro lugar nos Street Dance Awards. A equipa juvenil ficou também em segundo lugar em Leiria e alcançou a oitava posição naquela prova nacional. A escola criou ainda um grupo de pré-competição, formado por crianças mais novas.
Ainda assim, garante que o mais importante é o percurso feito até ao palco. “A competição não é para toda a gente, e está tudo certo. Mas temos de dar espaço a quem quer seguir esse caminho”.
Alunas que se tornaram professoras
A equipa é formada por Daniela Vinhas, enquanto directora artística e professora, e por Matilde Santos, Inês e Matilde Silva. Todas cresceram dentro da Art Movement.
Matilde Santos entrou aos seis anos, tem actualmente 19. Inês começou aos 11 e aproxima-se dos 21. Matilde Silva chegou aos 12 e tem agora 19. Depois de anos como alunas, começaram também a assumir responsabilidades na formação dos grupos mais novos.
Daniela Vinhas chama-lhes “prata da casa”. “Faz muito mais sentido ter comigo pessoas que são o meu braço direito há tanto tempo. Começaram pequeninas, conhecemo-nos muito bem e, às vezes, basta olharmos umas para as outras.”
A escolha não dispensa formação dentro e fora da escola, mas acrescenta uma cumplicidade difícil de encontrar. “Elas sentem isto como se fosse delas. E, no fundo, também é, porque ajudaram a escola a crescer.”
A ligação aos alunos ultrapassa largamente a hora de aula. “Vamos amando os nossos alunos. Quando eles vão embora, é como perder um bocadinho de um familiar”.
Isso não significa que todos tenham de permanecer na dança. Daniela defende que as crianças devem experimentar modalidades até encontrarem aquilo que lhes faz sentido. “Pode ser atletismo, natação ou outra coisa qualquer. Quero é que sejam felizes”.
A escola procura também ser um espaço seguro, onde os professores percebam que nem todos os dias são iguais. Mais do que ensinar coreografias, acredita que o trabalho passa por acompanhar o crescimento de crianças e jovens e ajudá-los a tornarem-se pessoas “empáticas” e atentas aos outros.
Neste momento, as cerca de 100 alunas da Art Movement são raparigas. A escola já teve alguns rapazes, mas Daniela Vinhas considera que continua a existir, em Pombal, um forte preconceito em relação aos meninos que escolhem a dança.
“Já tive miúdos com imenso jeito que deixaram de dançar porque eram os únicos rapazes”, conta. Alguns acabam encaminhados para modalidades socialmente mais aceites, mesmo quando não se identificam com elas.

O trabalho que ninguém vê
A qualidade artística existente no concelho ficou recentemente demonstrada em “O Teatro Esquecido”, um espectáculo criado pela Art Movement que juntou dança e música ao vivo. Em palco estiveram cerca de 90 bailarinos, 19 crianças e jovens do coro, quatro vocalistas e nove instrumentistas, todos ligados ao concelho de Pombal.
A ideia nasceu de “uma loucura” partilhada com Daniela Massano. Durante três meses, foi necessário reunir músicos, solistas e o coro da Charneca, escolher o repertório, gerir agendas e preparar coreografias para temas tocados e cantados ao vivo. Houve piano, bateria, saxofone e até Metallica.
Foram realizadas três sessões, uma delas esgotada e as restantes com uma forte adesão do público. Agora, Daniela Vinhas pretende levar o espectáculo a outros pontos do país. “Não faz sentido ficar só por aqui. Em Pombal temos muita qualidade na arte e na cultura, mas às vezes falta dar-lhe expressão e valor.”
E valorizar significa também remunerar. Todos os profissionais envolvidos no espectáculo foram pagos. “A qualidade tem de ser paga. Isto não foi feito na semana anterior. Foram três meses de ensaios, de gestão de agendas e de pessoas a trabalharem de dia e de noite.”
Daniela chama-lhe “trabalho fantasma”: tudo aquilo que ninguém vê antes de as luzes se acenderem.
Depois de um ano que classifica como “super desafiante”, a directora artística prepara já a próxima etapa. Haverá novas aulas, novos públicos e semanas abertas em Setembro para quem quiser experimentar antes de se inscrever. O princípio mantém-se igual ao de há 15 anos: “Há espaço para todos”.
Ana Laura Duarte
[Notícia publicada na edição 331 do POMBAL JORNAL]