Vinho na pipa, bagaço no alambique

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2007

Passar num estabelecimento comercial e comprar uma garrafa de aguardente pode ser o processo mais fácil, mas para os verdadeiros apreciadores desta bebida alcoólica a satisfação de produzir o seu próprio bagaço faz com que o sabor seja mais especial.

Também é sinal de progresso a maquinaria sofisticada e a tecnologia de ponta, no entanto existe quem ainda não dispense um toque mais tradicional, e acabe por procurar sítios onde o processo de destilação do bagaço ainda se faça à moda antiga. O alambique localizado em Silveirinha Pequena, é exemplo disso.
Dizem os especialistas que a forma típica do alambique dá à bebida um gosto muito especial e único. Joaquim Henriques, proprietário deste alambique, confirma essa opinião, e garante que “é preciso saber” para fazer uma água-ardente de qualidade, porque “se não soubermos o que estamos a fazer acabamos por estragar todo o produto”.
Pode dizer-se que este processo começa na vinha, mas é na altura da fermentação do mosto das uvas, que dá origem ao vinho, que se tem que ter especial atenção: “quantos mais dias estiver a ferver melhor vai ser o bagaço das uvas, e por sinal também vai ser melhor a água-ardente”, afirma, enquanto explica que “este ano tem sido bom: pelo menos em comparação com o ano passado”. A qualidade do bagaço da uva é melhor e isso reflecte-se “no produto final”.
A aperfeiçoar a técnica há mais de 30 anos, Joaquim Henriques, tem clientes de “Soure, Pombal, Coimbrão, Leiria, Figueira da Foz e de outras localidades vizinhas como Monte Redondo ou a Guia”, e uma das razões para que os clientes escolham este alambique prende-se com o facto de ser “dos poucos” que está “totalmente legalizado e que cumpre todas as normas” exigidas, no entanto lamenta que “não haja na Câmara Municipal, ou na Junta de Freguesia um gabinete onde se possa levantar as guias que autorizam a destilação de subprodutos”.
Para não deixar “morrer uma tradição tão antiga”, Joaquim Henrique acaba por “facilitar um pouco”, e trata ele próprio dessas burocracias, casa contrário “já ninguém produzia aguardente”, principalmente porque “são os ‘velhotes’ que gostam de cumprir a tradição”.
A trabalhar “mais de oito horas diárias”, este alambique “há moda antiga” trabalha cerca de “um mês e meio por ano”, e conta com a colaboração de pessoas da terra, que “gostam de ajudar” e que também “não querem que a tradição termine”. O ambiente é o mais descontraído possível, não fossem os vapores que se sentem no ar doces e altamente alcoólicos. Com 73 anos, o proprietário desta industria, já pensa no futuro, e como quer dar continuidade ao trabalho que tem vindo a realizar já passou “os segredos” ao filho, que “também tem muito jeito”.