“Vi coisas muito bonitas dentro de um ambiente de tanta pobreza”

0
1331

Escuteiro desde os seis anos de idade, André Patrício sempre se mostrou bastante atento às questões sociais e humanitários que o envolviam, mas aos 30 anos, depois de se licenciar em enfermagem, e de ter um trabalho estável num hospital da região, resolveu juntar-se à organização católica Leigos para o Desenvolvimento e partir para São Tomé e Príncipe numa missão de voluntariado. Um ano depois, regressou a Pombal para umas merecidas férias junto da família. Parte em missão para Moçambique nos próximos dias.

Os Leigos para o Desenvolvimento são uma Organização Não Governamental para o Desenvolvimento (ONGD) católica, que trabalha há 31 anos em prol do “desenvolvimento integral e integrado” em países de expressão portuguesa. Actualmente conta com projectos em Angola, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe, que actua preferencialmente na área da Formação e Educação, da Dinamização e Organização Comunitária, Empreendedorismo e Empregabilidade, Capacitação de Agentes Locais, Promoção do Voluntariado e Pastoral. O trabalho no terreno é feito através de jovens voluntários, a “trabalhar directamente na formação dos recursos humanos locais”, partilhando conhecimentos e desenvolvendo competências, como “nas Escolinhas Comunitárias do Niassa (Moçambique), no Grupo Comunitário de Porto Alegre (São Tomé e Príncipe) e no Gabinete de Apoio à Inserção na Vida Activa (Angola), entre outros, e que permanecem pelo período mínimo de um ano como facilitadores, privilegiando a relação, a parceria, o conhecimento local, a simplicidade de meios e a capacitação, sendo assim criada a possibilidade do “autodesenvolvimento das comunidades”.
André Patrício, há um ano atrás, deixou o trabalho, despediu-se da família, juntou-se a esta comunidade e partiu à aventura do voluntariado em São Tomé e Príncipe. Não foi um ano: foram 365 dias, como gosta de explicar. A razão é simples, “por lá temos de viver um dia de cada vez”. Não se lembra de um feito global, mas recorda com os olhos brilhantes, “momentos, e dias”. Dias que foram de tal forma “importantes” que o jovem de 31 anos, “quase a virar para os 32”, decidiu que a sua missão não se poderia resumir a um ano. De canadianas, depois de uma fractura no perónio, prepara-se para seguir viagem para mais 365 dias, desta vez, em Moçambique.
Fala com a tranquilidade de quem sente que a sua missão foi cumprida. Fala dos santomenses com um timbre diferente. Mostra paz no olhar. Tem um “despenteado” engraçado: “lá tínhamos de ser nós a cortar o cabelo”. Em Setembro de 2016 mudou-se para São Tomé, onde desenvolveu um projecto que consistia em “reunir todos os grupos locais que existem na zona do bairro da Boa Morte, para discutir a criação de projectos que beneficiem a comunidade”. Assim, o jovem enfermeiro teve a oportunidade de conhecer “os dois lados da moeda”. Se por um lado convivia com a população mais pobre do bairro, que já o viam como “um deles”, por outro também contactava com ministros, e agentes políticos.
“Vi coisas muito bonitas dentro de um ambiente de tanta pobreza”, realça enquanto fala das aventuras futebolísticas dos jovens que participaram pela primeira vez num “campeonato”, ou dos percursos pedestres que trilhou. Na verdade o que lhe “custou mais” não foi a chegada, nem a adaptação, nem o choque cultural, foi antes a partida. “O dia da partida foi muito triste”, claro que as saudades da família apertavam, mas regresso deixou aquele sabor agridoce na boca.
Quase nove meses depois de ter aterrado na Ilha, André Patrício dedicou alguns dia a um retiro espiritual, de onde regressou com a certeza de que quer continuar a trabalhar em prol do desenvolvimento comunitário, responsável e impulsionador, por mais um ano, ou mais.
Desta feita, em Moçambique vai abraçar um projecto que pretende fazer diagnóstico territorial, estudo de caso e estudo de impacto de alguns métodos que estão a ser adaptados em diversos pontos do país, “ao nível educacional”, e que pretendemos documentar, para mais tarde divulgar, e “estimular outras comunidades para que sigam estes exemplos”.
Se há um ano atrás André tinha receio de “ser tanto tempo fora”, agora segue com uma confiança renovada. Esperam-no 365 dias de aventura, de espírito de missão, de esforço, de dedicação, e de esperança.

Partilhar
Artigo anteriorBebé de três meses morre na Guia
Próximo artigoElla: o refúgio que recarrega energias
Nasceu em 1985, estudou Comunicação Social na Escola Superior de Educação de Coimbra e participou num curso de formação em Jornalismo e Crítica Musical. Passa os dias a ouvir música, adora assistir a concertos e sonha viajar pelo mundo com uma mochila às costas.