SENTIDOS | Música portuguesa? Não, música produzida em Portugal

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Foto: Telmo Pinto | Cave Story - Maus Hábitos

Há poucos dias foi surpreendida com um presente que me deixou a pensar na música produzida em Portugal. O X sabe que gosto de música e é rara a vez que as nossas conversas não terminem a falar sobre uma banda qualquer ou de um concerto. A semana passada ofereceu-me um CD. Não se trata de um disco gravado por uma banda e também não é a gravação de um concerto. No fundo é uma compilação de bandas nacionais: Novos Talentos FNAC 2017. Música fresca.

Quando vi o alinhamento apercebi-me que não conhecia grande parte das bandas, e que tirando meia dúzia de nomes era tudo novo para mim. Ouvi com atenção e dei-lhe a abertura suficiente. Descobri umas coisas bem giras. Mas a conclusão a que cheguei depois de ouvir estes projectos é que de facto existe boa música portuguesa – e aqui não vamos entrar na lengalenga do “isso não é música portuguesa, é música feita em Portugal. Chamar a isso música portuguesa é a mesma coisa que uma banda russa que cria um fado em português e depois diz que aquilo é música russa”. Tudo bem, é música criada em Portugal – mas ninguém lhe liga nenhuma.

Há muito que o panorama musical deixou de contar apenas com o pimba, com o fado e com o folclore. Em pleno 2017 podemos afirmar que em Portugal se produz música com tanta qualidade como em qualquer outro ponto do Planeta. Música para todos os gostos. Sons frescos. Canções incríveis. E deixa-me muito triste que isto tudo se continue a resumir à Maria Leal, ao Salvador Sobral – que teve a sorte de cair nas graças do povo-, à família Carreira, aos Xutos e Pontapés e pouco mais. As bandas trabalham que se fartam, remam contra a maré, acumulam empregos, sonham e depois acabam por ser rejeitados pelas massas.

Lembrei-me de uma banda em particular – mais uma daquelas histórias que não sei se é gira ou vergonhosa. Descobri os Cave Story na Vodafone.fm – a rádio que me vai acompanhando ao longo dos dias. Uma banda da Marinha Grande que subiu às luzes da ribalta quando venceu o concurso Vodafone Band Scouting, em 2014. Gravaram um álbum – West –, que têm dado que falar e andam na estrada a apresentar o trabalho. Em Janeiro fui vê-los ao Aqui Base Tango, em Coimbra: deram um concerto cheio de energia, com uma sonoridade irrepreensível, numa sala estava bastante composta – gostei tanto que comprei o CD, e ouço-o muitas vezes.

Tan. Tan. Tan. Num momento de sorte – porque não houve qualquer divulgação – reparei que a mesma banda que me tinha feito ir a Coimbra uns meses antes, de propósito, iria actuar no Café Concerto, em Pombal. Escusado será dizer que não ia falhar. O espaço estava meio cheio. A banda, liderada por Gonçalo Formiga, tinha vontade de tocar. O problema é que ninguém na plateia estava com vontade de os ouvir. Foi um concerto sofrido – para eles, e para mim. Senti vergonha – e eles devem ter sentido desilusão.

Quem lá estava, tinha ido para beber um copo com os amigos e foi surpreendido pela música, e quem, provavelmente, teria gostado de ir nem sequer soube da existência desse concerto. No final troquei umas palavras com o trio, não estavam com o mesmo ânimo com que os tinha visto em Coimbra – deve ser realmente frustrante perceber que a malta não se interessa, nem se esforça. É triste. Mas ainda é mais lamentável quando percebemos que a banda que tocou para “três pessoas” em Pombal, também tocou para centenas no NOS Alive 2017 e ainda  se vai apresentar no Milhões de Festa, ou no Vodafone Paredes de Coura, este ano. E esta, hein?

Agora que penso melhor nisto, podia ainda falar nos leirienses Nice Weather for Ducks ou First Breath After Coma, que deram concertos super simpáticos na Várzea, pela Festa de Juventude, e que a malta voltou a não aproveitar como devia – mas no Bodo vai lá estar tudo a ver o David Carreira. Felizmente tenho tido a oportunidade de descobrir coisas novas, tanto em concerto, como em álbuns ou na rádio – não posso esquecer Toulouse, Flying Cages, Stone Dead, The Sunflowers, Cassete Pirata ou The Twist Connection, os trabalhos mais recentes de You Can´t Win, Charlie Brown, dos The Poppers – não posso voltar a falar em Sean Riley and The Slowriders – ou Ganso.

E os Quinta-feira 12, na quinta-feira de Bodo? Espero bem que tenham a recepção que merecem. A dupla pombalense dispensa qualquer apresentação e tem mais qualidade, e genuinidade, que muitos artistas “grandes”. Ainda sobre a música criada em Pombal, não me esqueço da doce Miss Cat e do encantador Rapaz Cão, mas estes têm de ser falado noutra altura: com a dedicação que merecem por serem tão profundos e intensos.

Aqui a mensagem não é negativa, é antes reflectiva. A música nascida em Portugal é boa, é fresca, é intensa e é doce. Não foi criada para ser ignorada, é para ser adorada. E se a oferta cultural é escassa, então que se aproveitem as oportunidades. Como este fim-de-semana na Ilha, que vai tocar White Haus – João Vieira é dj, músico e produtor, editou quatro álbuns com X-Wife e a partir de 2013 adoptou o alter-ego de White Haus, que se dedica à composição e produção electrónica. Já correu os principais festivais de Verão, e este ano vai atacar o festival Vodafone Paredes de Coura.

O Ti Milha é um projecto das “gentes da Ilha que se unem para mostrar ao resto do mundo toda a sua cultura e tradição”, gostam de apostar no que há de bom por terras lusas e escolhem sempre nomes bastante interessantes – já vi grandes festivais a começarem com brincadeiras menores. White Haus é só mais uma boa aposta. É de ir. Digo eu!

 

NOTA: Ao longo do texto coloquei ligações para algumas das músicas/bandas de que falo – está a ‘papinha’ toda feita. Desfrutem.