SENTIDOS | A magia da primeira vez – Parte I

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Foto: Telmo Pinto | Ghost Hunt - Maus Hábitos

Decidi percorrer aquele caminho tortuoso sozinha. A descida é a pique. Cheio de pedras soltas e curvas vertiginosas. É curioso que seja tão difícil percorre-lo. É ainda mais curioso que o consiga comparar à mudança radical que aconteceu depois disso. A cada pedra que chutava libertava um medo.

Deixei a malta a aproveitar o sol quente e resolvi que iria ver os primeiros concertos do dia. Calcei os ténis, peguei na mochila e desci. Tinha grande curiosidade em dois nomes específicos: Sean Riley and The Slowriders e Kevin Morby. Os primeiros, portugueses, com fortes ligações a Coimbra, são donos de uma sonoridade que mistura a folk, com o rock e os blues. O outro vem do Kansas, nos Estados Unidos da América, e traz na mala uma guitarra, e uma voz encantadora. Acompanho-o desde cedo, foi comparado a Bob Dylan e Leonard Cohen, ou a nomes mais recentes como Kurt Vile e Cass McCombs.

Do norte-americano lembro-me da leveza. Sentada na relva, com um cigarro na mão. Relaxada. Tranquila. Mesmo como tinha imaginado. Mas quando segui para o palco ao lado, onde ia tocar Sean Riley, estava a quilómetros de distância de saber que este ia ser um dos meus melhores concertos. De sempre.

Antes tenho de assumir que sou uma pessoa tímida. Que sou envergonhada e que tenho medo que me vejam sozinha e pensem que sou uma solitária – e isso é tão falso. No fundo sempre fui bastante insegura e estar rodeada de milhares de pessoas que não conhecia de lado nenhum não ajudavam nada à situação. É provável que tenha sido o primeiro concerto a que fui comigo mesma. É provável que seja por isso que ainda o sinto quando fecho os olhos. Estava lá. Eu. Só eu. Só eu e a banda.

Lembro-me de ter ficado arrepiada quando subiram ao palco. Lembro-me de querer furar a multidão até conseguir o local perfeito. Lembro-me das lágrimas a escorrer quando persenti os primeiros acordes da ‘Dili’. Lembro-me de sentir que estava no sítio certo, no momento certo, a ouvir a música certa com a pessoa certa. Ouço a ‘Grettings’, sinto a ‘Gipsy Eyes’. Incrível.

Nesse dia Paredes de Coura recebeu Cage the Elephant, King Gizzard and The Lizard Wizard e The Vaccines. O grupo voltou a reunir-se. Os risos. As piadas. O Universo alinhou-se para mim. Afinal é verdade: enfrentar os medos vale mesmo a pena.

Depois deste momento fiquei viciada na liberdade, apaixonei-me pela minha companhia e descobri que a felicidade depende apenas do nosso interior. Os problemas ficam na prateleira, as intrigas ficam com quem as provoca, o mundo pára e somos apenas nós. Nós e a música.

Repeti a experiência noutras ocasiões. Umas vezes sozinha, outras vezes acompanhada por quem vive o momento da mesma forma. Deixei de fazer o que queriam. Passei a fazer o que me dá prazer. Descobri sensações novas. Encontrei bandas que nem sabia que existem – e são tão boas. Conheci pessoas interessantes. Reparei que não sou caso único. Apaixonei-me.

Lembro-me de repente de Ghost Hunt, da qual não tinha qualquer referência musical, e que me levou a viajar por galáxias distantes. Também são de Coimbra – esta cidade tem mesmo qualquer coisa – e produzem uma electrónica ‘bruta’, cheia de detalhes deliciosos que nos vão enchendo os ouvidos, e o coração. Um assombro. A primeira vez que os vi, tocavam no Jardim da Sereia. Foram os The Twist Connection que me levaram lá, mas foi a dupla composta por Pedro Chau (The Parkinsons) e Pedro Oliveira (ex-Spider) que me roubou o chão. Em palco vêem-se guitarras, mas não são ‘rockeiros’; vêem-se e ouvem-se sequenciadores e sintetizadores, mas também não se pode dizer encaixem calmamente na electrónica. Deve ser esta natureza híbrida que os torna tão ‘peculiares’. Ao que parece conseguiram arrecadar críticas muito generosas com o primeiro mini-álbum, que lançaram em Novembro do ano passado.

Fossem todas as ‘primeiras vezes’ assim: surpresas boas, energias positivas, especiais. Como aquela noite em que ouvi pela primeira vez a ‘How??’, dos The Flaming Lips. Estava sozinha, sentada à beira rio, e sentia o frio de Janeiro a cortar-me a pele, mas foi como se me apanhassem no meio de uma lufada de calor. Cada vez que a ouço parece-me sempre a primeira- Ai! Aquele friozinho bom na barriga.

Os pássaros que ouço a cantar no início dessa ‘cantiga’ parecem-me os mesmos que espreitavam das árvores altas enquanto percorria aquele percurso sinuoso de Paredes de Coura. Quem diria.

Não sou solitária: sou livre.

 

NOTA: Tenho a certeza que me vai voltar a apetecer falar sobre ‘primeiras vezes’, por isso resolvi colocar-lhe “Parte I” no título. Durante o texto coloquei ligações para algumas das músicas de que falo – está a ‘papinha’ toda feita. Desfrutem.

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Nasceu em 1985, estudou Comunicação Social na Escola Superior de Educação de Coimbra e participou num curso de formação em Jornalismo e Crítica Musical. Passa os dias a ouvir música, adora assistir a concertos e sonha viajar pelo mundo com uma mochila às costas.