SENTIDOS | Afinal, o que é que te faz sonhar?

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FOTO: Telmo Pinto |

Conheci uma pessoa que não gosta de música. Não liga o rádio quando faz uma viagem. Não segue nenhum artista. Não gosta de folclore. Não gosta de jazz. Não gosta de trance. Não gosta do Marco Paulo. Não gosta de Radiohead. Não gosta.

Para ele a música é só mais uma manobra de distracção que lhe provoca dor de cabeça. A minha reacção a estas palavras deve ter sido, no mínimo, surreal – como esta conversa. Para mim, a música é muito mais que um aglomerado de sons que me faz dançar. Se for a banda certa, o DJ certo, ou a playlist certa, posso viajar por sensações indescritíveis: posso rir, posso chorar, posso dançar. Posso sentir.

«Mas olha lá, o que é que estás a dizer?»

O que ele queria dizer é que nenhuma música lhe desperta qualquer sensação. Nenhuma. Nada. Fiquei com aquilo na cabeça, e na primeira oportunidade que tive: Pumba. Toma lá uma musiquita daquelas que faz os mortos renascer e vê lá se não sentes nada. Que se é para chatear, que seja com classe.

Das centenas de músicas que tenho no mp3, esta é a que mais mexe comigo. É sexy. É intensa. É profunda. É provocadora. É a Bermuda Locked, de †††(Crosses). A banda foi formada em 2011, lançou vários trabalhos, mas anda sempre pela sombra. Lembro-me de a ter ouvido pela primeira vez – acho que tenho mesmo uma atracção por ‘primeiras vezes’. Vinha acompanhada por um vídeo não oficial, no fundo era apenas a banda sonora de um filme de casamento. Li sobre o casal. Li sobre o fotógrafo/realizador. Usei o shazam. Nada. Na-da. Era como se a música não existisse. Não desisti. Continuava a ouvi-la por esse canal, até que um dia, ‘sem querer’ li um comentário deixado no Youtube e… Descobri.

Descobri que a aquela voz sensualona, melosa e rouca é nada mais, nada menos que a voz ácida e poderosa do Chino Moreno. Sim, o mesmo Chino Moreno, vocalista dos Deftones – agora percebo. Li que para ele este projecto é “minimal and soothing and it’s sort of like the stuff I like listening to when I’m not screaming my head off”. Tornou-a ainda mais adorável.

Contei a história toda. Falei-lhe da curta-metragem – que ainda adoro. Expliquei-lhe o que sinto quando a ouço. Aumentei o volume. Cantei baixinho. E no final a única reacção que obtive foi um “está bem”. Nem mais, nem menos. Seco, frio e directo. Voltei a repetir a tentativa com outros géneros: pop, rock, punk, electrónica. Foi igual.

Não me parece que seja uma pessoa menos feliz, nem me parece que seja uma pessoa assim tão diferente, mas é estranho.

No trabalho gosto de estar a ouvir música. Tenho sempre alguma coisa a tocar: rádio, Spotify, ou qualquer outra coisa. Sou tão transparente, no que toca a músicas, que durante a semana passada fui apanhada a sorrir, de olhos fechados: estava a tocar Sean Riley and The Slowriders – ups!

Pensei nessa pessoa: Afinal, o que é que te faz sonhar?

 

NOTA: As fotos que vou utilizar para ilustrar este e outros textos são da autoria de Telmo Pinto. Se ficarem curiosos, vão espreitar a galeria de Instagram dele, aqui.