Redinha: o refúgio da nova vida de um casal de holandeses

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Uma viagem de 15 dias pelo país despertou em Sebastian e Marjolein a vontade de viver em Portugal, motivados sobretudo pelo clima. Mudaram-se para a Redinha, onde compraram uma casa antiga e cheia de História, no centro da vila que os recebeu de braços abertos.

Em 2018, Sebastian Van Voorn e a mulher, Marjolein, tomaram uma decisão que nos últimos dois anos vinha ganhando forma: deixar a Holanda e morar em Portugal. Em Junho de 2016, a viagem de 15 dias pelo país, que até então desconheciam, à boleia de uma auto-caravana, levou o casal à descoberta dos recônditos do território e lançou as sementes de uma mudança de vida. “Foi muito bom e as pessoas foram muito gentis”, conta Sebastian Van Voorn num português já bastante fluído. Criaram uma relação de ‘amor’ com o clima, mas apaixonaram-se também por Coimbra e pelo espírito académico que lhes traz à memória para a cidade onde viviam, também ela uma terra de estudantes.
Esperaram dois anos para regressar e perceber se o “romantismo” inicial se mantinha, ou se tinha sido apenas uma paixão momentânea. “Decidimos que queríamos morar cá”, diz Sebastian, de 52 anos, numa conversa que decorreu na sala de estar de casa, com vista para o jardim que abraça as traseiras da residência, onde sobressai o azul da piscina que convida a mergulhos em dias estivais.
Da decisão à concretização decorreu apenas o tempo suficiente aos trâmites da mudança, nomeadamente a compra de casa, já que a nível profissional Sebastian iria manter o vínculo laboral, mas agora em teletrabalho.
“Queríamos uma casa no centro de uma aldeia, mas que tivesse pessoas”, recorda Marjolein. A primeira sugestão do vendedor imobiliário apontou para o Cercal, uma pequena localidade no concelho de Soure, mas o despovoamento local não cativou o casal.
Durante uma semana, visitaram vários espaços na região, até que chegaram à Redinha, a última paragem desta incursão. Foi ali que encontraram a casa que se encaixava em tudo o que tinham idealizado: no centro da aldeia, próxima de Coimbra e com movimento suficiente de pessoas.

Alojamento local
Sebastian e Marjolein compraram a casa em Março de 2020 e, desde então, têm vindo a fazer obras de requalificação, uma boa parte delas pelas mãos do casal. De terça a sexta, entre as 07h00 e as 13h00, o teletrabalho absorve o tempo de Sebastian (está ligado a uma empresa de segurança informática). Depois disso, veste a ‘farda’ para se dedicar às melhorias no espaço, com a ajuda da mulher.
O objectivo é transformar a residência em alojamento local, atendendo à imensa área do edifício. Se tudo correr conforme o previsto, a “Casa Ciska” abre ao público em Julho de 2023.
Na Redinha, a vida do casal corre sem pressas. Por entre o teletrabalho e as obras na casa, há ainda tempo para conviver, não fosse este outro dos predicados desta mudança para Portugal.
“Na Holanda ninguém tem tempo. Quando queríamos sair ou conversar com os amigos tínhamos que marcar”, desabafa Marjolein. “Temos mais qualidade de vida aqui”, reforça Sebastian.
Questionados sobre o que mais gostam na Redinha, para além do clima do país, o casal é unânime: “primeiro, as pessoas”, para Marjolein acrescentar logo a seguir que “aqui têm tempo para falar umas com as outras”.
Aliás, tem sido graças a este convívio com a comunidade local que têm ultrapassado mais rapidamente as barreiras linguísticas, ainda que tenham começado logo a aprender Português na Holanda, quando decidiram mudar-se. “Todos os dias vamos tomar café e à tarde bebemos uma cerveja com amigos”, conta Sebastian. Desse núcleo de amigos faz parte outro holandês, residente no lugar de Barreiras, na mesma freguesia.
E se a mudança deixou apreensiva a família e amigos numa fase inicial, o casal diz que isso está ultrapassado. “Para a minha sogra não é fácil, porque o Sebastian é filho único, mas eles vêem que estamos felizes e acabam por perceber”, explica Marjolein. “Temos tudo aqui: serra, praia e Coimbra também é perto”, reforça a holandesa.
Ao casal juntou-se, em Setembro de 2021, uma cadela com quem se cruzavam frequentemente na rua. O animal deambulava pela aldeia e acorria a eles sempre que os encontrava. Depois de perceberem que não tinha chip, nem era procurada por ninguém, Sebastian e Marjolein trouxeram-na para casa. “Foi ela que nos adoptou”, dizem, embevecidos com a cadela de olhos doces e dona de um pêlo castanho claro, que hoje é parte integrante da família.

*Notícia publicada na edição impressa de 9 de Março