Pombalenses que brilham “lá fora”

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Têm raízes em Pombal, mas são cidadãs do mundo. Têm nacionalidade portuguesa, mas vivem na era da multiculturalidade. Decidiram sair do país por diferentes razões, mas em comum têm o sucesso que conseguiram alcançar no país que as acolheu. Numa altura em que a desigualdade de género ainda existe e cria vários obstáculos para às mulheres no mercado de trabalho, fomos à procura de exemplos que contrariam a tendência. Conheça Elisabeth Oliveira, a pombalense que deu voz aos porteiros parisienses, e Anabela Silva, a empresária que começou por aspirar quartos de hotel.

Elisabeth Oliveira: a pombalense que deu voz aos porteiros franceses

Filha de emigrantes, Elisabeth Oliveira nasceu e viveu em França até aos 33 anos, altura em que perdeu uma pessoa próxima, vítima de doença prolongada: “tinha 29 anos, e foi uma situação que me fez ver a vida de outra forma”, decidiu abandonar Paris e regressar ao concelho de Pombal, em busca da “qualidade de vida que França não proporcionava”.
“A partir dessa altura comecei a questionar o valor da vida” e “percebi que regressar a Portugal era a melhor opção”. Corria o ano de 2001, e numa altura que o país atravessava uma fase de crise, Elisabeth estava ciente dos riscos que este paço acarretava, uma vez que as “condições salariais são muito diferentes entre os dois países”, mas nem isso a demoveu da ideia. Chegada a Pombal, “trabalhei em diversas áreas”. Passou pelo atendimento num Centro de Saúde, experimentou a área da restauração, lançou-se ao desafio com a criação de uma “pequena empresa de animação de festas para crianças”, numa altura em que “ainda nem se ouvia falar em pinturas faciais ou modelagem de balões”, e ainda deu aulas de Inglês nas Actividades de Enriquecimento Curricular (AEC).
Treze anos mais tarde viu-se “forçada” a regressar a França. Quando surgiu a oportunidade “pensei: nem pensar”, mas depois de ponderar lançou-se novamente à aventura. Elisabeth Oliveira, de 48 anos, faz parte da nova vaga de emigração. Aterrou em Paris em Fevereiro de 2013, foi para França porque em Portugal já não conseguia sobreviver, e admite: “costumo dizer em tom de brincadeira que os meus pais vieram para França a salto, e eu vim de avião; eles vieram porque não tinham nada a perder, e eu vim porque não queria perder tudo”.
Hoje, vive num bairro chique de Paris, onde é porteira, tal como a mãe um dia fora. Quando se licenciou em Ciências Humanas, pela Université Paris Nanterre, estava longe de imaginar as voltas que a vida dá.
Em Outubro de 2015 ajudou a fundar a associação ALMA, cujo objectivo é “criar uma entreajuda na vasta rede de porteiros em Paris”, estimada em cerca de 15 mil pessoas, das quais “mais de 60% são portuguesas”. Na altura, criou um blogue e, depois, uma conta Facebook onde que publicava vários artigos relacionados com a legislação da profissão e anúncios de emprego. Conquistado rapidamente centenas de seguidores e protagonizou várias reportagens, o que suscitou o interesse do vereador franco-português Hermano Sanches Ruivo que a incentivou a criar a ALMA – Gardien(nes) d’Immeubles à Paris.
“Cada vez há uma maior exigência nesta profissão. Eu mandei o currículo para cá e mandaram-me vir a duas entrevistas. No privado, à partida, não devem pedir formação, é mais no sector público. Mas há uma concorrência tão grande que quem tiver mais habilitações será o escolhido”, explica, enquanto dá conta de que a associação pretende “dar voz” aos porteiros porque “as pessoas acham que é uma profissão de sonho, mas não é assim tão dourada quanto se pensa”.
“Ninguém dá voz aos porteiros, é uma profissão muito solitária e isoladora. Cada porteiro, no sector privado, está sozinho. Para estar informado, tem que aderir a sindicatos ou esperar que o condomínio informe”. Com a criação da associação, Elisabeth quer “dar voz aos porteiros porque estão isolados e quando há problemas estão sozinhos e, muitas vezes, não reclamam porque têm medo de ficar sem casa”, acrescenta.

“Este trabalho matou fome a muita gente nos anos 60”

A ALMA conta com cerca de 250 aderentes e mais de 1800 seguidores na página de Facebook, na qual publica regularmente ofertas de emprego e conselhos jurídicos. “A imagem do porteiro mudou. Hoje, há porteiros que nem sequer fazem limpezas, que são mais gestores do prédio do que propriamente porteiros básicos. Estamos a ser mais valorizados, mas ainda há muitos clichés e ninguém gosta de dizer que é porteiro porque é redutor”, conclui a pombalense.
“Este trabalho matou fome a muita gente nos anos 60, na primeira onda de emigração, e continua a fazê-lo agora com esta segunda onda de emigração”, explica a porteira
“Tudo o que temos feito até agora, de maneira diária, é corrigir currículos e cartas de motivação. A associação faz também “esclarecimentos jurídicos e dá apoio psicológico” a quem precisa, continua, apontando que muitos condóminos vêem os porteiros como alguém que “tem de estar sempre às ordens”.
Depois de ter arrancado com o projecto, que liderou nos últimos anos, prepara-se para “dar lugar a outra pessoa”, porque acredita que “é importante haver renovação de ideias e de pessoas”, apesar de saber que “ainda há um extenso trabalho pela frente”, no sentido de dignificar a profissão.

Anabela Silva: a empresária que começou por aspirar quartos de hotel

No alto dos seus 64 anos, Anabela Silva recorda com saudades “a pequena aldeia, na freguesia de Pombal”, que a viu nascer. Já não visita Portugal há cerca de 10 anos, mas confessa que “dentro de pouco tempo” vai contrariar a tendência de “colocar o trabalho à frente do lazer”, prevendo que este Natal as celebrações sejam feitas deste lado do Atlântico, em redor de uma mesa recheada de familiares e amigos, “com quem contacto frequentemente através da internet”, mas não esquece os “petiscos caseiros”, que “têm um sabor inigualável”.
Com o pai acabado de falecer, a pombalense sentiu necessidade de rumar a outras paragens “para conseguir ajudar a família”, chegou a Windsor, no Canadá em 1974: tinha 19 anos e conhecia apenas “uma prima mais velha, que só tinha visto uma vez até então”. Sem qualificações académicas Anabela, rapidamente arranjou emprego “num hotel modesto, onde comecei por aspirar os quartos”, pouco tempo depois, quando a diferença linguística já não fazia qualquer diferença, “acabei por conseguir um contracto de trabalho num grupo de hotéis maior”, também na área das limpezas. “Dedicada e muito responsável”, a pombalense conquistou a confiança dos superiores hierárquicos e assumiu novas responsabilidades: primeiro como chefe de secção e mais tarde como responsável pelos recursos humanos do Grupo.

“Quando consegui amealhar algum dinheiro, decidi que queria voltar a estudar”

Nos tempos livres, “comecei a ir à biblioteca da minha área de residência buscar livros sobre tudo e mais alguma coisa”, mas foi nas áreas da contabilidade e gestão que passou mais tempo. “Quando consegui amealhar algum dinheiro, decidi que queria voltar a estudar”, e foi na Queen’s University localizada em Kingston, Ontário, que se formou em Administração de Empresas.
Nesse espaço de tempo apaixonou-se por um “canadiano de olhos claros” e teve o primeiro de três filhos: Alex Silva, actualmente com 36 anos, Annie Silva, de 31 e Alexa Silva, que acaba de celebrar 25 anos.
O trabalho no hotel manteve-se, até que a empresária decidi lançar-se à aventura e fundou a sua primeira empresa de limpeza, contratando antigos colegas: prosperou conseguindo contractos para limpar hotéis e blocos de apartamentos, ao mesmo tempo que ia ganhando experiência de gestão.
A empresa prosperou, e no ano em que celebrou meio século de vida surgiu-lhe mais uma oportunidade de crescimento profissional, quando o filho do seu primeiro patrão a convidou para ingressão nos quadros de administração do “pequeno hotel”. Aceitou sem hesitar: “a família do Pierre ajudou-me muito quando cheguei ao Canadá, por isso vou sempre sentir que lhes tenho uma dívida de gratidão, e na altura eles precisavam de mim para dar uma vida nova ao espaço e ao negócio”, e garante que “abracei este desafio com muito carinho, e amor”. Perto de uma década mais tarde a pombalense acabou por adquirir a totalidade do hotel, que administra com o “apoio incondicional dos filhos”, também licenciados e pós-graduados nas áreas de gestão.
“Estes investimentos e estas mudanças acabaram por me afastar um pouco de Portugal, mas agora sinto que é altura de recuperar esse tempo”, até porque “as minhas filhas não passam um único ano que não viagem até aí, e estão sempre a incentivar-me a que as acompanhe”, garante.