“A política no concelho está cheia de teias de aranha”

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Aos 24 anos, o economista Gonçalo Pessa protagoniza o regresso do Bloco de Esquerda às eleições Autárquicas no concelho de Pombal. Repete por várias vezes que falta “participação cívica e democrática” no concelho e aponta o dedo ao “reinado de 23 anos do PSD”. O candidato bloquista afirma que um dos grandes objectivos da organização política passa por eleger um membro para a Assembleia Municipal, mas também disputar a sua eleição para Vereador.

Gonçalo Pessa

Pombal Jornal (PJ) – Como surgiu a sua candidatura à Câmara de Pombal?
Gonçalo Pessa (GP) –
Entendemos que a política no concelho está cheia de teias de aranha. Que os 23 anos de reinado PSD, perpetuado por Narciso Mota e Diogo Mateus, afastaram as pessoas da participação cívica e da democracia, e convenceram as pessoas de que não havia alternativas ao envelhecimento da população, ao êxodo dos jovens, aos jovens qualificados e ao trabalho precário. Em suma, convenceu as pessoas que não valia a pena ter esperança no futuro. E é nesse sentido, para devolver a esperança à população, que nos candidatamos e trazemos esta lufada de ar fresco. Queremos dizer às pessoas que vale a pena ter esperança. Que na vida não há fatalidades e que há alternativas credíveis pelas quais vale a pena trabalharmos, e que o Bloco de Esquerda está cá para apresentar essas alternativas, para as discutir com toda a gente e para mobilizar tanta gente quanta aquela que esteja disponível para isso. Para discutir o futuro do concelho.

PJ – Que lufada de ar fresco é essa?
GP –
São pessoas novas, gente nova, propostas novas para o concelho. Um conjunto de propostas alargadas que querem trazer mais vida cultural ao concelho, que querem trazer mais participação cívica. No fundo, entendemos que este reinado que o PSD tem tido na Câmara Municipal utilizou um aparelho repressivo que habituou as pessoas a viver com medo, e é contra esse clima de medo que nós somos uma lufada de ar fresco. Uma lufada de ar fresco para criar uma cultura de participação democrática, uma lufada de ar fresco para construir uma cidadania activa, uma comunidade para a qual toda a gente contribui, e um município onde toda a gente tem uma palavra e uma voz activa na definição do seu futuro.

PJ – E que propostas apresenta ao eleitorado?
GP –
Temos um conjunto de propostas, algumas nessa linha de dar voz à cidadania e de combatermos o clima de medo. Queremos promover fóruns anuais de discussão de políticas públicas. Queremos que as pessoas sejam consultadas antes das grandes obras acontecerem. Eu recordo, por exemplo, o caso das obras de requalificação do Largo do Cardal, onde as pessoas que mais utilizam a zona não foram propriamente consultadas, e o resultado disso foi o abate de árvores, menos espaços verdes, menos estacionamento. Mas, também foi o fim da praça de táxis, sendo que hoje os taxistas são remetidos para uma rua que faz muito pouco sentido e dá muitas poucas condições para que os taxistas trabalhem.

PJ – A falta de espaços verdes é uma crítica comum e constante…
GP –
A Câmara de Pombal tem tido uma política de cimento para a frente. Esse é o resultado das obras no Cardal, é o resultado das obras em todos os pólos escolares… deixa de haver relva e árvores e coloca-se cimento. Nós entendemos que são precisos espaços verdes, que seria importante criarmos um parque botânico, por exemplo nas margens do rio Arunca, que poderia ser construído de uma forma comunitária, chamando pessoas de todo o concelho para contribuírem com um pouco do seu trabalho. Entendemos que é importante também criarmos mais espaços públicos, dar mais vida à cidade e às várias vilas e aldeias. Também a construção de um anfiteatro ao ar livre para podermos termos espectáculos, teatro, cinema ao ar livre… de facto, ocupar as ruas com cultura.

PJ – Estava a falar da necessidade de dar voz às pessoas…
GP –
É preciso ouvir as pessoas antes de se fazer obras e antes de definir as políticas públicas. Queremos também promover a participação nas assembleias municipais, e nesse sentido passar as intervenções dos cidadãos para o início das sessões. O que nós assistimos hoje é uma, posso dizer, falta de respeito para com os cidadãos que entendem participar nas assembleias municipais, uma vez que quando falam no fim, a maioria dos deputados municipais começam a arrumar as suas pastas e a abandonar o local. É preciso, também, reforçar o orçamento participativo, queremos também uma política de transparência, nesse sentido de promover a cidadania, que todos os concursos, todos os ajustes directos sejam divulgados, que os cidadãos possam escrutinar a actividade da Câmara.

PJ – Na sua opinião, tem faltado transparência municipal?
GP –
Sim. Acho que tem faltado essa transparência. Têm faltado, por um lado, políticas de promoção de uma cidadania activa, e também políticas de uma total transparência. Nós não sabemos, de uma forma completamente clara, em que é gasto cada orçamento do município.

PJ – Falou num clima de medo. Sente esse mesmo ambiente?
GP –
Absolutamente. Julgo que estes 23 anos de PSD na Câmara cultivaram, de facto, esse clima de medo. Seja por episódios com funcionários da Câmara que, por defenderem direitos dos trabalhadores e terem um percurso sindical, deixaram de ter os seus salários, seja relativamente à liberdade individual das pessoas que, com alguma frequência, é criticada. Refiro-me, nomeadamente, por exemplo, ao discurso homofóbico dos dois últimos presidentes de Câmara, que fizeram sentir às pessoas que vivem neste concelho e que são homossexuais que, de facto, neste concelho não são bem-vindas. Sinto de facto que esse clima de medo existe e é promovido com o objectivo de afastar as pessoas da participação democrática e da participação cívica, e assim perpetuarem-se no poder.

“Julgo que estes 23 anos de PSD na Câmara cultivaram, de facto esse clima de medo”

PJ – Como é ser-se do Bloco de Esquerda nesse clima a que se refere?
GP –
Não é desagradável. Na verdade, eu sinto muito apoio. A nossa candidatura sente um grande apoio da população e nós temos tido contactos com a população em várias iniciativas de pré-campanha, nas quais as pessoas têm mostrado esse apoio. De facto, não há muitas pessoas para demonstrar esse apoio de forma pública, precisamente porque existe esse clima de medo, mas sentem também que é necessária uma pedra no charco. São precisas políticas alternativas, propostas alternativas, que combatam esse clima de medo. Por isso, não sinto qualquer problema em ser bloquista neste contexto. Sinto acima de tudo uma grande responsabilidade, para transformar este concelho e fazer dele algo melhor, democraticamente mais habitável. Além disso, o Bloco de Esquerda está preocupado, todo ele a nível nacional, com o desenvolvimento da política local em Pombal. Recordo, por exemplo, que já tivemos a Mariana Mortágua na apresentação da candidatura, também tivemos a Catarina Martins nas festas do Bodo e em Setembro teremos o Francisco Louçã num almoço de lançamento da campanha eleitoral. Sinto que temos tido grande apoio do Bloco de Esquerda e que o Bloco de Esquerda a nível nacional está curioso, com muita expectativa e esperança no trabalho que está a ser feito em Pombal.

PJ – As candidaturas apresentadas – à Câmara, Assembleia e Junta do Louriçal – estão dentro dos objectivos?
GP –
Queremos ter uma intervenção alargada em todo o concelho. Por isso, o nosso objectivo de longo prazo é ter candidaturas em todas as freguesias e em todos os órgãos municipais. Nós não esgotamos o nosso trabalho nos processos eleitorais nem nos momentos de eleições. Pretendemos a longo prazo candidatar-nos em todo o lado. Mas, como dizia, a democracia em Pombal está ferida, e apesar de haver muita gente a apoiar esta candidatura, há também muita gente com medo de assumir as suas propostas e a sua forma de como gostaria de ver o seu concelho, porque tem medo de ver as suas actividades profissionais comprometidas, o seu futuro comprometido. Esse é dos motivos para que não consigamos apresentar mais candidaturas. É, de facto, o clima de medo que se vive em Pombal. Também pretendemos que todas as candidaturas sejam credíveis e fortes com capacidade para disputar o poder local, não quisemos aceitar facilitismos.

PJ – O contexto nacional, em que o Bloco de Esquerda apoia o Governo do país, pode ajudar nestas eleições?
GP –
Nós temos dito que os 23 anos de gestão do PSD de Narciso Mota e de Diogo Mateus têm sido tempo perdido para o concelho de Pombal, para os jovens, para as famílias. Na construção de uma rede de infantários que permita que cada família possa ter as suas crianças em creche, no combate ao envelhecimento, etc… nós estamos cá para melhorar as condições de vida no concelho, virar este jogo. De facto, já demonstrámos como isso é possível. Os votos no Bloco de Esquerda nas últimas eleições Legislativas contribuíram de forma absolutamente decisiva para terminar com um ciclo de empobrecimento que o PSD votou o país em parceria com a “Troika”. E esse trabalho que as pessoas hoje reconhecem ao Bloco de Esquerda a nível nacional, reconhecerão também, certamente, a nível local. Porque, de facto, o Bloco de Esquerda procura ter uma intervenção consequente em toda a sua actividade. Portanto, se a nível nacional a força do Bloco de Esquerda tem feito a diferença, as pessoas podem ter a certeza, porque isso é verdade, também em Pombal a força do Bloco de Esquerda fará a diferença.

PJ – A partir das Autárquicas espera-se uma maior implantação do Bloco de Esquerda no concelho?
GP –
Sim. Verdade é que, como lhe dizia, falta participação e democracia neste concelho. Por isso, também falta discussão política e a ocupação do espaço público com as questões daquilo que são importantes no concelho. Nós já temos feito esse trabalho que procuramos seja de forma constante, um bocado à imagem dos outros partidos. Queremos acrescentar força a esse trabalho e estamos certos que isso vai ser possível, porque, de facto, com estas Autárquicas nós estamos a conseguir juntar muita gente e sempre nesta linha e nesta lógica que é, de facto, importante trazermos as pessoas para participação democrática e que é importante ouvir as pessoas, criar uma cultura de participação democrática.

“O NOSSO OBJECTIVO É UMA TRANSFORMAÇÃO SOCIAL PARA UM PAÍS MAIS JUSTO”
PJ – Como se convence um cidadão, sobretudo um jovem, a aderir ao Bloco de Esquerda?
GP –
No Bloco de Esquerda vemos a existência de partidos como um instrumento para a transformação social. Eu convido as pessoas a aderirem ao Bloco de Esquerda como as convido, acima de tudo, para fazer militância e activismo para essa transformação social. Eu não faço propriamente um trabalho para convencer alguém a aderir ao Bloco de Esquerda. O que procuro fazer, com o mesmo activismo, é ter um impacto real no presente e nos diferentes espaços onde vivo, trabalho e onde me organizo. E, sinto que as pessoas têm tendência a ter essas preocupações, ter uma vontade e um sentido crítico de transformar a realidade em que vivemos, Por isso, acabam por se aproximar. Se o fazem a partir dos colectivos, através de organizações de combate à precariedade, de associações de juventude, ou se decidem a juntar-se a um conjunto de lutas, a um conjunto de áreas onde devemos ter intervenção social, se decidem ter uma intervenção mais alargada nestas áreas, aderindo ao Bloco de Esquerda, claro que fico contente. Mas, acima de tudo, o nosso objectivo é a transformação social para um país mais justo, mais solidário, com menos desigualdades sociais, com menos desequilíbrios, mais próspero… por isso, contamos com toda a gente, independentemente de terem a vontade de ter um cartãozinho do Bloco de Esquerda ou não.

“Temos como grande objectivo eleger Célia Cavalheiro como deputada à Assembleia Municipal”

PJ – O facto de ser o candidato mais jovem é um constrangimento?
GP –
Não, de todo. Há aquela ideia de que os jovens estão afastados da política. Eu estou de profundo desacordo e julgo que essa ideia tem até um teor paternalista. Os jovens interessam-se pela política quando a política se interessa por eles. Queremos ver por todo o lado, pelos vários espaços de socialização, jovens ouvidos politicamente, em associações de estudantes, em associações de jovens, em associações de luta contra o trabalho precário… verdade é que nos espaços e nos momentos em que a política se interessa pelos jovens, os jovens interessam-se pela política. É verdade que na sua faceta mais institucional nem sempre temos a maior participação de jovens, e é importante também trazê-la. É importante nós jovens ocuparmos a política, e a política institucional, trazer as nossas ideias, trazer as nossas visões e a nossa mentalidade. Uma luta contra o conservadorismo e a querer um concelho que promova condições de vida para as suas pessoas. Nesse sentido, ser o candidato mais jovem não figura qualquer problema. Até me parece que é um bom exemplo do que pode ser a participação cívica e democrática na juventude.

PJ – Quais as expectativas para as eleições de 1 de Outubro?
GP –
Temos como nosso grande objectivo eleger Célia Cavalheiro como deputada à Assembleia Municipal. É uma pessoa muito responsável e uma pessoa muito empenhada e comprometida com as pessoas do concelho. É uma pessoa que tem deixado a marca da sua competência e do seu trabalho rigoroso em todos os espaços por onde passa. Desde o seu período de estudante na Universidade de Coimbra, ao seu trabalho no Instituto Politécnico de Leiria ou a sua intervenção no Conselho Geral do Agrupamento de Escolas de Pombal. É, por isso, a pessoa certa para resgatar a esperança das pessoas na participação cívica e na política local no concelho de Pombal. Por isso elege-la é o nosso grande objectivo. Depois, queremos disputar também a minha eleição para vereador e baixar drasticamente a abstenção que se regista em Pombal. Queremos combatê-la porque queremos uma cultura de participação democrática no concelho e queremos começar já.

Gonçalo pessa1

PERCURSO DE ACTIVISMO POLÍTICO

Originário da aldeia da Estrada, junto à Quinta da Gramela, Gonçalo Pessa tem um percurso de “activismo político e intervenção social”. Refere que tem um “envolvimento político desde a tenra idade”. Ou seja, desde os 16 anos. Recorda que foi, enquanto estudante da Escola Secundária de Pombal, que iniciou o seu activismo. “Fui um dos mobilizadores de uma greve geral num 24 de Novembro em que a escola acabou por fechar porque os estudantes se juntaram em protesto”, recorda. Na mesma escola onde criou um “colectivo” designado por AGE – Activismo Geração Estudantil. Já em Lisboa, para onde se deslocou para prosseguir a sua vida académica, Gonçalo Pessa criou um outro “colectivo” designado por Economia Sem Muros. Licenciou-se em Economia e ingressou no Banco de Portugal. Concluiu o Mestrado e, mais recentemente, uma pós-graduação na área da estatística. Desempenhou, e continua a desempenhar, funções de direcção nacional no Bloco de Esquerda. “Acima de tudo sou uma pessoa normal, de 24 anos, mas com algumas preocupações” sobre “aquilo que deve ser a evolução e para onde queremos caminhar em termos de sociedade”, tanto a nível local como nacional, afirma.

Entrevista publicada na Edição de 10 de Agosto

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Ingressou no jornalismo, em 1989, como colaborador no extinto “Pombal Oeste” que foi pioneiro na modernização tecnológica. Em 1992 foi convidado a integrar a redacção de “O Correio de Pombal”, onde permaneceu até 2001, quando suspendeu a profissão para ser Director de Comunicação e Marketing de um grupo empresarial de dimensão ibérica. Em 2005 regressou ao jornalismo, onde continua, até aos dias de hoje, a aprender. Ao longo destes (largos) anos de actividade, atestados pelo Carteira Profissional obtida em 1996, passou por vários jornais, uns de âmbito regional e outros nacional, onde se inclui o “Jornal de Notícias” e “Público”. Foi convidado a colaborar, de forma regular, com o “Pombal Jornal” onde se produz conteúdos das pessoas para as pessoas.